Manifestação da Assembleia Geral da Adusp de 5/4

Passadas quatro semanas desde o retorno às atividades presenciais na USP, em especial às aulas, o que vemos é um quadro bastante diverso daquele retratado em recente matéria do Jornal da USP, afirmando que o retorno foi um “sucesso”. Segundo o pró-reitor de Graduação e presidente da Comissão Assessora de Saúde da Reitoria da USP, Aluisio Segurado, “a vida voltou ao câmpus da USP em sua plenitude”. Seria importante investigarmos aqui o sentido de “plenitude”.
 
Não nos parece indicativo de plenitude o fato de algumas turmas do período noturno da FFLCH, por exemplo, não terem podido ainda retornar presencialmente por falta de espaço físico em seu prédio de origem e pela imensa dificuldade de se conseguir espaços em outros edifícios do câmpus Butantã durante o período da noite.
 
Também não nos parece adequado considerar um “sucesso” as imensas filas que se formam diariamente nos bandejões universitários, causando aglomerações insalubres e obrigando discentes e funcionária(o)s a esperarem ao menos meia hora para conseguirem comer. A longa espera pelos ônibus — tanto os circulares quanto os de linha —, que chega a mais de 1 hora em muitos casos, parece igualmente não combinar com a ideia de “plenitude”. Assim, pergunta-se: que quadro é observado para se considerar que o retorno é um pleno sucesso?
 
São justamente as vagas em cursos noturnos que possibilitam à USP cumprir com a missão de uma universidade pública que acolha discentes das classes trabalhadoras. E são essa(e)s mesma(o)s estudantes que mais sofrem, tanto com a falta de espaço — já que poucos prédios operam neste horário — quanto com os problemas de transporte e de segurança.
 
Os protocolos para os casos confirmados de Covid-19 nas turmas de graduação são frágeis e não se verifica transparência na divulgação dos dados epidemiológicos da comunidade uspiana. Até hoje, por exemplo, não sabemos quantas e quantos perdemos desde o início da pandemia. Nosso luto é dolorido e, ao mesmo tempo, difuso. Temos notícias de várias turmas suspensas por surto da doença, assim como de setores de trabalho inteiros. A mesma Universidade que produz excelentes testes de Covid-19 não incentiva sua realização nem os coloca à disposição da própria comunidade.
 
Também não sabemos se as unidades da USP estão plenamente servidas, por exemplo, de materiais necessários para a segurança sanitária de banheiros, laboratórios e demais espaços; e o que é ainda mais grave, em algumas unidades sequer há garantia de pessoal em número suficiente para a realização da limpeza adequada das instalações. Como falar em pleno sucesso do retorno às atividades presenciais na USP?
 
Fica evidente que a administração central e muitas administrações locais não garantiram as condições mínimas de salubridade para um retorno presencial efetivamente seguro. Na contramão do que afirmou o reitor em entrevista recente à rádio CNN, o distanciamento social ainda é medida fundamental para conter o avanço das taxas de transmissão do vírus causador da Covid-19. A pandemia não terminou e é preciso que continuemos insistindo no quadrado da proteção: vacinação, máscaras, distanciamento e ventilação. Para tanto, precisamos nos apropriar dos Planos Sanitários e Educacionais (atualizados) e lutar para que as administrações os respeitem.
 
Falas que beiram o negacionismo, proferidas por profissionais da saúde, não podem ser toleradas. Afinal, são as pesquisadoras e os pesquisadores, inclusive da própria USP, que vêm divulgando um importante conjunto de conhecimentos sobre a pandemia. E ele não pode ser ignorado.
 
São Paulo, 5 de abril de 2022
Assembleia Geral da Adusp
 
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