O Conselho Deliberativo do Hospital Universitário (CD-HU) vai enviar à Reitoria da USP uma proposta para a contratação, por concurso público, de 509 profissionais para dar início ao processo de reestruturação e recuperação plena do hospital.
 
Os números foram definidos na reunião em formato remoto que o CD-HU realizou nesta quinta-feira (20/1), com a participação dos integrantes do Grupo de Trabalho (GT-HU) que desde 2020 tem atuado no âmbito do conselho e solicitou a realização do encontro, em caráter extraordinário, para debater a situação do hospital.
 
A proposta foi fechada a partir das necessidades apontadas pelos próprios setores do hospital e das projeções do GT-HU. O superintendente do hospital, Paulo Margarido, apresentou um quadro inicial em reunião ordinária do CD-HU, com a presença do reitor eleito, professor Carlos Gilberto Carlotti Junior, no último dia 13/1.
 
A quantidade de nova(o)s médica(o)s é de 187. Já enfermeira(o)s e técnica(o)s de enfermagem serão, respectivamente, 56 e 159. São necessárias também contratações para os setores administrativos, o Departamento de Farmácia e o Laboratório Clínico.
 
“Reforçamos no documento ao novo reitor a importância de abrir o mais rapidamente possível os concursos públicos para escapar da janela de restrições da Lei Eleitoral, a partir de 3/7. Se isso não ocorrer, na prática a reestruturação do hospital não começa neste ano”, considera Lester Amaral Junior, integrante da coordenação do Coletivo Butantã na Luta (CBL).
 
A demanda está dimensionada para o funcionamento de 206 leitos — na atualidade, o hospital tem 153 leitos ativos. O GT-HU defende que o hospital volte a operar com 236, recuperando a capacidade de atendimento que possuía antes do processo de desmonte desencadeado pela gestão reitoral M.A. Zago-V. Agopyan (2014-2018).
 
Desde então, o HU perdeu 557 servidora(e)s, de acordo com o superintendente Margarido. Apenas nas duas edições do Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV), em 2015 e 2016, foram 276 desligamentos (49,6% do total). Em consequência, o total de atendimentos, que chegava a cerca de 17 mil por mês, considerando todos os procedimentos (ambulatório, cirurgias, internações etc.), caiu para 5 mil.

Meta é atingir 236 leitos ativos a partir do ano que vem — atualmente, são 153

O professor Tarcisio Eloy Pessoa de Barros Filho, presidente do CD-HU, ponderou na reunião que, antes de alcançar a meta da recuperação plena, é importante fazer com que o HU possa de fato operar com 206 leitos, compromisso que tem desde 2016 na contratualização com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) do Sistema Único de Saúde (SUS) e que não vem conseguindo cumprir.
 
Dessa forma, a proposta aprovada pelo conselho prevê duas etapas para o projeto de recuperação do hospital: a primeira, a ser implementada neste ano, com as 509 contratações necessárias para a operação dos 206 leitos, e uma segunda, em 2023, com mais profissionais para permitir a ativação total de 236.
 
“É importante abrir o concurso para essas vagas como reconhecimento da necessidade de recuperação plena do HU. Para nós, é o coroamento de um esforço enorme de muitos anos”, afirma Amaral Junior, referindo-se à luta travada pelo CBL, movimento popular que atua desde o início do desmonte promovido pelo ex-reitor Zago — um médico, por sinal. “De agora em diante, precisamos ver o que vai acontecer e seguir monitorando esse processo.”
 
Amaral Junior lembra que, na reunião aberta à comunidade da qual participou, Carlotti não se comprometeu com números, mas deixou clara sua intenção de recuperar o hospital. “Estamos otimistas. Acho que agora chegamos à melhor condição depois de anos e vemos possibilidades reais de que as coisas aconteçam”, diz.
 
Um dos motivos para otimismo é o aumento de 26% nas despesas com pessoal no orçamento da USP aprovado para este ano pelo Conselho Universitário (Co), o que inclui contratações de docentes e funcionária(o)s, progressão na carreira, reajuste salarial e benefícios.
 
O comprometimento com a folha de pagamento deve ficar em 82,4% dos recursos do Tesouro — em 2021, essa média foi de 69,3% nos últimos 12 meses, a menor desde a autonomia universitária de 1989, por conta do arrocho salarial dos últimos anos (agravado pela não concessão de reajustes com base na Lei Complementar 173/2020) e da paralisação de concursos e contratações.

Pressionado por nova onda da Covid-19, hospital adota medidas emergenciais

A reunião também discutiu a situação do HU frente à atual onda de pessoas contaminadas pela variante Ômicron do coronavírus. Conforme noticiou o Informativo Adusp, dois casos extremos ocorridos recentemente motivaram profissionais que atuam na Divisão de Clínica Médica (DCM) do HU a enviar à Superintendência no último dia 5/1 uma carta na qual denunciam “a situação insustentável” da Unidade de Urgência e Emergência Referenciada de Adultos (UUERA).
 
Um paciente morreu após sofrer uma parada cardíaca enquanto esperava atendimento e, no dia 22/12 do ano passado, o Pronto-Socorro Adulto (PSA) foi “vandalizado por uma paciente não-grave que aguardava avaliação no gripário dada a demora em ser atendida por um profissional único que dedicava horas ao manejo de um paciente em estado crítico na sala vermelha do PSA”, diz a carta.
 
De acordo com o documento, o referenciamento do HU na Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde do Estado (Cross) e na rede de urgência e emergência do município intensificou os problemas do hospital, entre outras razões por não ter sido “comunicado de forma ampla à população da zona oeste ou mesmo à comunidade USP”. Assim, “pacientes continuam a procurar nosso serviço para demandas de baixa complexidade (resfriados, dores de cabeça ou no corpo, tosse, febre, entre outras queixas não urgentes)”, sobrecarregando as equipes já reduzidas.
 
A carta registra que “em inúmeros momentos” a Superintendência recebeu a reivindicação da adoção de “medidas que tornassem viável o funcionamento da nossa unidade, porém muito pouco tem sido feito”, qualificando o cenário como de “descaso crônico com a situação de trabalho dos médicos e enfermeiros deste hospital”.
 
Na atual onda da Covid-19, pacientes têm ficado internada(o)s no HU por até quatro dias antes de conseguir um leito na rede referenciada do município. Em outros momentos da pandemia, as transferências costumavam ocorrer no mesmo dia.
 
Além do aumento do número de pacientes com Covid-19 — apenas na última segunda-feira (17/1) eram 26 as pessoas internadas nessa condição —, o HU sofre com o afastamento de um número expressivo de profissionais também acometidos pela doença.
 
Emergencialmente, a Superintendência está instalando duas tendas para acomodar melhor a(o)s pacientes que esperam atendimento no gripário e implantou um “gripário virtual” destinado a teleatendimento para a comunidade USP. “O paciente com sintomas gripais leves, cuja demanda principal seja o afastamento temporário das atividades laborais e orientações da equipe de saúde, deverá fazer a solicitação de consulta via site hu: www.hu.usp.br - solicitações de consultas - gripário virtual e solicitar a consulta. A abertura de agendas será realizada diariamente, com as solicitações iniciando às 16hs”, diz texto de divulgação do novo serviço, que atenderá somente funcionários da USP e não será aberto para dependentes. Funcionários do HU continuarão a recorrer ao gripário presencial.
 
Também será contratada uma empresa terceirizada para atuar em caráter temporário no gripário. Na avaliação de Lester Amaral Junior, o HU não precisaria ter chegado a essa situação caso tivesse adotado outras providências, como a recomposição de seu quadro de pessoal.
 
Na sua próxima reunião, no dia 17/2, o CD-HU vai formar a lista tríplice que será encaminhada à Reitoria para indicação de novo(a) superintendente, aponta Gilberto Frachetta, representante da comunidade de usuária(o)s no conselho. No horizonte da nova gestão está a discussão de mudanças no Regimento Interno. O GT-HU tem debatido propostas de alterações expressivas no Regimento, dentro de uma concepção de descentralização do poder da Superintendência.
 
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