A Argentina, onde a vacinação teve início já em dezembro, decretou em 8/1 um “toque de recolher sanitário” que passou a ser aplicado em 11/1 por todos os governos provinciais. O país tem 45 milhões de habitantes e teve 45.407 óbitos até 17/1. O Estado de São Paulo, com uma população de 44 milhões, chegou aos 49.945 óbitos na mesma data

Na coletiva de imprensa do governo estadual sobre a Covid-19 realizada na última sexta-feira (15/1), o governador João Doria (PSDB) e seus secretários anunciaram novas mudanças na classificação das regiões do Estado, dentro do esquema determinado pelo Plano São Paulo. Assim, a região de Marília vai para a fase vermelha a partir de 18/1, com suspensão de atendimento presencial em comércios e serviços não essenciais. “O aumento de casos, internações e mortes por Covid-19 deixa outras dez regiões na fase laranja, a segunda mais restritiva na estratégia de contenção da pandemia. A Grande São Paulo e outras cinco áreas continuam na etapa amarela. Uma nova reclassificação está prevista para o próximo dia 22”, resumiu um press-release do governo estadual.
 
Apesar das incongruências do Plano, questionadas por alguns repórteres durante a coletiva, Doria e seus auxiliares deixaram claro que não pretendem alterar o eixo essencial da estratégia adotada, que é a reabertura da economia apesar da Covid-19. Ou seja: não obstante todas as evidências de que o Estado ingressou na chamada “segunda onda” da epidemia, o governo estadual insiste nos seus “critérios técnicos” de classificação e se recusa a adotar medidas mais duras, precisamente no momento em que se chega ao patamar de 50 mil óbitos no Estado. Trata-se da 18ª reclassificação do Plano, tudo dentro de uma certa “normalidade”.
 
“A reclassificação das fases do Plano São Paulo estava programada para 5 de fevereiro, como todos sabem. Ela foi adiantada para hoje por razões substantivas, que serão apresentadas nesta coletiva”, disse o governador ao abrir a coletiva. “É uma medida preventiva, e extremamente necessária neste momento para proteger vidas, vidas dos brasileiros em São Paulo. Aqui, como no restante do Brasil e em boa parte do mundo, há uma indicação clara de que a pandemia acentuou essa segunda onda em nosso país, e nós temos que tomar medidas de cautela, de prevenção, para proteger vidas no Estado de São Paulo”.
 
O secretário da Saúde, Jean Gorinchteyn, procurou justificar a conduta do governo. “O mundo enfrenta a segunda onda de Covid. O Brasil e o Estado de São Paulo não foram, infelizmente, diferentes. Os índices que temos hoje na saúde são similares, no Estado de São Paulo, àqueles que atingimos no pico da pandemia da primeira onda”, admitiu. “Dessa forma, desde novembro já vinhamos observando, e de forma preventiva, antecipada, fizemos recomendações para que cirurgias eletivas não fossem feitas, orientações aos municípios para que seguissem as restrições, assim como, também, progredimos, de uma forma muito cautelosa, algumas medidas de reclassificação, e impedimos que o Estado fosse para condições e situações menos restritivas”.
 
Tais medidas permitiram “manter um número de internações menor durante o mês de dezembro”, continuou Gorinchteyn. “Conseguimos dessa maneira fazer com que a circulação do vírus na nossa população pudesse ser controlada. Mas infelizmente as aglomerações que nós observamos em todo o Estado no final do ano passaram a se revelar agora nas estatísticas que logo mais pronunciaremos. Para se ter uma ideia, todos os índices da saúde — óbitos, internações e casos — tiveram incremento significativo”. A saber, comparada a atual semana epidemiológica com a anterior, 5% mais casos, 2% mais óbitos e 10% de aumento nas internações.
 
“Precisamos ainda restringir mais horários e serviços”, prosseguiu o secretário da Saúde. “Só assim diminuiremos o número de casos, o número de pessoas que se agravam na sua saúde [sic] e vão necessitar o acolhimento nas unidades de terapia intensiva. Se a velocidade de casos tiver esse incremento tão dramático, nós poderemos assistir situações igualmente dramáticas”.

“Não nos submetemos a pressões econômicas”, alega Patricia Ellen

Salta à vista, assim, que a timidez das medidas adotadas — mesmo dentro do Plano São Paulo, apenas uma região do Estado foi definida como extremamente crítica — é contraditória frente à gravidade da situação tal como descrita pelos próprios representantes do governo estadual e particularmente por Gorinchteyn. Ao invés de adotar desde já medidas capazes de refrear a expansão da Covid-19, a gestão Doria prefere “pagar para ver”, talvez apostando no início da vacinação como um fator inibidor já a curto prazo.
 
Uma indagação incômoda para o governo partiu do jornalista Leonardo Martins, do UOL: “Há um consenso no Centro de Contingências [da Covid] por mais restrições. O secretário Jean falou sobre uma pandemia que está começando a ficar muito mais perigosa em São Paulo. Eu gostaria de entender por que a região da Grande São Paulo, com 69%  de leitos ocupados, não vai para a fase laranja ou não aumenta as restrições. É por pressão econômica de alguns setores?”
 
“Nós não nos submetemos a pressões econômicas, isto ficou claro desde o início da pandemia”, alegou, em resposta, Patricia Ellen, secretária do Desenvolvimento Econômico. Mas, concedeu, “se esses números continuarem assim, certamente nós faremos como fizemos nessa semana e anteciparemos a classificação na semana que vem também”.
 
Ao insistir na necessidade da “dinâmica de seguir as nossas regras”, Patrícia deu uma curiosa explicação sobre o papel do principal comitê científico assessor do governo para a epidemia: “O Centro de Contingências é um órgão consultivo, que tem todo direito de trazer suas recomendações. Nós sempre acatamos, mas nós precisamos aplicar seguindo a lei e as regras da gestão pública. E exatamente por essa razão nós tivemos sucesso em todas as medidas”. Em outro momento, a secretária afirmou: “A gestão do Plano SP segue regras claras. Temos a responsabilidade de evitar qualquer futurologia”.
 
A Argentina, onde a vacinação teve início já em dezembro (com a vacina russa Sputnik), decretou em 8/1 um “toque de recolher sanitário” que passou a ser aplicado em 11/1 por todos os governos provinciais, com a finalidade de restringir a circulação noturna de pessoas. O país tem uma população de 45 milhões e teve 45.407 óbitos até o dia 17/1. O Estado de São Paulo, com uma população de 44 milhões, já chegou aos 49.945 óbitos na mesma data. A Argentina tem 1,799 milhão de casos registrados, contra 1,625 milhão de casos em São Paulo. Porém, o número de recuperados lá é de 1,583 milhão, enquanto o número de recuperados em São Paulo é de 1,390 milhão.

Plano São Paulo é “salada de cores ineficiente”, diz pesquisador

“Na verdade essa salada de cores do governo Doria é ineficiente, só serve para confundir. Nega o fato de que as pessoas são móveis, nega o fato de que a baixa testagem impede o monitoramento disso e na verdade causa um prejuízo econômico muito maior. O que deveríamos estar pedindo é o fechamento da economia, com auxílio econômico para os trabalhadores e pequenos empresários, para que eles pudessem se sustentar enquanto a economia está fechada”. A opinião é do médico neurologista, doutor em neurociência pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e pesquisador de fármacos radicado nos Estados Unidos, Marcelo Eduardo Bigal.
 
“Como você faz esse combate incompleto, em que você abre, você fecha, começa a melhorar abre de novo, aí fecha de novo, o que acontece? O comércio abre, fecha, abre, até que ele fecha e não mais abre. O número de estabelecimentos que já fecharam é incrível. Para que isso funcionasse, haveria que ter grande testagem”, argumenta. “A província de Quebec, no Canadá, decretou locaute, porque os casos estão num nível maior do que o aceitável, embora muito menores do que em São Paulo. O locaute significa que nada pode funcionar após as 19h e antes das 6h. Nada! Multa de 6 mil dólares e prisão de um ano se a fuga do locaute gerar doença fatal em outra pessoa”, explica. “O que o governo canadense faz com isso? Diminui a entropia da epidemia como um todo, e assim quando abre o comércio o faz de maneira um pouco mais sustentável”.
 
A seu ver, a testagem em massa é um fator primordial para que se possa acompanhar a epidemia. No entanto, o governo Doria recusou-se a fazer a testagem, alegando alto custo financeiro. “A pergunta que eu lhe faço é: qual é o custo da hospitalização, da UTI, da internação prolongada? Qual é o custo da morte? A premissa de que a testagem é cara e não deve ser utilizada é uma falácia, porque a alternativa à testagem, que é perder o controle da epidemia, internar e sobrecarregar o hospital é muito mais cara”.
 
Segundo Bigal, não há como se fazer controle da epidemia sem ter os números da testagem em mãos. “A premissa é que sem testagem não há como haver uma reabertura mínima da economia. Então Doria comete um paradoxo operacional: ele faz uma reabertura da economia desordenada e sem testagem. Se ele fizesse uma testagem ordenada, ele poderia mais rapidamente abrir alguns setores da economia, abrir algumas cidades, do alto de um valor prospectivo, que é o número de testes, em vez de um valor retrospectivo, que é quantas pessoas foram internadas. As pessoas internadas refletem o passado, o teste sinaliza o futuro. É uma falha importante de saúde pública a ausência da testagem”.
 
O Informativo Adusp pediu ao pesquisador que comentasse o paralelo entre São Paulo e Argentina. “Os números da Argentina são muito parecidos com os números de São Paulo, mas há uma diferença fundamental. A postura paulista foi muito afetada pela postura federal. Vamos partir do princípio de que é muito difícil para um governo estadual adotar uma postura quando o governo federal é genocida, trivializa a epidemia, faz chacota, faz lives dizendo que  a vacina não funciona e passa meses insuflando sua base de apoio, dizendo que qualquer tentativa de fechamento da economia é antipatriótica, ignorando o fator das vidas”, pondera ele.
 
“Desde o começo a Argentina levou a sério a epidemia. O CNPJ fechado você resgata, tira do vermelho. A vida perdida não. Então do ponto de vista numérico as situações argentina e paulista são muito parecidas, mas do ponto de vista de atitude o governo argentino é muito mais ativo, visa segurar a energia da epidemia muito mais agressivamente do que o governo de São Paulo. Até porque, apesar de muitas coisas que na minha opinião o governo de São Paulo faz errado, a gente tem que fazer a ressalva de que é difícil fazer alguma coisa mais enérgica com o governo federal sabotando qualquer tipo de iniciativa”.
 
De qualquer modo, Bigal avalia que há necessidade de medidas restritivas mais rígidas: “Especialmente no momento em que está para começar a aplicação em massa da vacina, seria ótimo a gente fazer um locaute maior, para evitar a mutação do vírus. Para conseguir vacinar a população antes que mutações aconteçam que tornem o vírus não suscetível à vacina. Então esse é um momento crucial, a Argentina faz certo, de não deixar a epidemia crescer para que a vacinação possa vir na nossa ajuda antes da mutação viral”.