Ainda que sejam tomadas algumas providências sanitárias, a realização de exames como Fuvest e ENEM implica grande concentração de pessoas em salas que não garantem circulação e purificação de ar, e produz mais passageiros no transporte público. Além disso, a manutenção dessas provas quando se sabe que candidatos(as) pobres tiveram enormes dificuldades para estudar em casa, e se preparar adequadamente, acentua desigualdades e frustra as cotas. Artigo de Cláudia V. A. Galian e Ocimar M. Alavarse, docentes da Faculdade de Educação da USP

 
É inacreditável que vestibulandos/as e trabalhadores/as sejam reunidos em salas de aula no momento em que todas as evidências apontam para a necessidade da radicalização das práticas de distanciamento social, como condição sanitária para a defesa da vida, algo que ganhou relevância, entre outros motivos, em decorrência de posturas dúbias e/ou negacionistas que marcaram o ano de 2020, em especial o adiamento de medidas sérias no combate à Covid-19 pelo impacto que teriam sobre os votos da situação no pleito municipal e a insistência em festejar a passagem do ano por pressões comerciais.
 
Ainda que sejam tomadas algumas providências sanitárias, a realização de exames, como são a Fuvest e o ENEM, implica grande concentração de candidatos em salas que não garantem a circulação e purificação de ar, ademais dos momentos de entrada e saída dos ambientes de realização das provas; não bastando, produzem aumento de circulação de pessoas no transporte público. Tal quadro representa incremento do risco de contágio, o que prejudica indivíduos isoladamente, suas famílias e toda a sociedade.
 
Participar de exames tão exigentes e cansativos, usando máscara o tempo todo e sem poder se alimentar adequadamente também aumenta a tensão e o desconforto já característicos desta situação — assim como o medo de se contaminar e de levar o vírus para o interior das casas desses/as estudantes e trabalhadores/as.
 
Mas há algo ainda mais absurdo neste cenário: a manutenção de vestibulares e do ENEM num momento em que sabidamente os/as jovens mais pobres deste país, em sua maioria, sequer conseguiram estabelecer contato com suas escolas, professores/as e colegas e tiveram enormes obstáculos para estudar em suas casas, em função de restrições de conectividade ou mesmo de dispositivos. Se essa situação, dada pelas condições objetivas de preparação para as provas, afetou amplos contingentes de estudantes, isso ocorreu diferencialmente, pois os obstáculos não foram sentidos igualmente por todos eles, configurando desigualdades no acesso ao conhecimento do qual dependem os desempenhos nessas provas, uma questão de justiça.
 
Assume-se, com a manutenção dos exames, uma postura, característica em nosso país, de manter privilégios. Se a grande maioria dos/as candidatos a uma vaga nas universidades públicas brasileiras já ficaria de fora desta disputa, agora parece se retomar uma espécie de “reserva de vagas” para os/as melhor posicionados/as socialmente, algo que as políticas de cotas procuravam atenuar.
 
Qual é a justificativa para essa postura — também negacionista — em relação às desigualdades de preparação para o acesso ao Ensino Superior? Por que privar, objetivamente, candidatos/as de seus planos e sonhos?
 
Nosso Brasil não perdeu a chance de, novamente, deixar claro quem pode ou não sonhar, mesmo que com a vida de todos tenha que se jogar.
 
O mais sensato, em defesa da justiça e da vida, seria o adiamento dos exames.