Vestibular presencial da USP, que ocorrerá em 10/1, tem 130 mil inscritos, que serão distribuídos por 148 locais de prova em 35 cidades. Provas do Exame Nacional do Ensino Médio serão ministradas em 17/1 para 5,7 milhões de inscritos, que serão distribuídos por 14 mil locais. Tudo isso quando a pandemia de Covid-19 volta a matar mais de mil pessoas por dia no país

 
A primeira fase do vestibular 2021 da USP será realizada neste domingo (10/1), reunindo, de acordo com a Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), 130.525 candidatos e “treineiros”, número quase igual aos pouco mais de 129 mil inscritos no ano anterior.
 
A Fuvest esmera-se em demonstrar que utilizará um “rigoroso protocolo de saúde visando à segurança dos candidatos e dos colaboradores” que vão trabalhar na aplicação dos exames, conforme enfatiza texto publicado no Jornal da USP. Entretanto, assim como ocorreu na realização do “São Paulo Boat Show” e da prova presencial de residência médica que reuniu milhares de candidato(a)s no último domingo (3/1), o vestibular também exemplifica a prática do “negacionismo ilustrado” — que consiste no reconhecimento oficial dos riscos oferecidos pela Covid-19, sem que seja aplicado de modo consequente (adoção de todas as cautelas necessárias), e vale-se de uma narrativa racionalizadora que justifica as medidas implantadas.
 
Basta mencionar o agravamento da pandemia em São Paulo, de acordo com dados publicados pela imprensa nesta sexta-feira (8/1). O Estado registra média de 257 mortes por dia na última semana, um aumento de 15% na variação de 14 dias. Na capital, a Prefeitura informou que a ocupação de leitos de UTI subiu de 61% para 65% de quarta para quinta-feira (7/1), quando o que é considerado “normal” pelos técnicos da saúde é um aumento de um ponto percentual por dia. No país, já são mais de 200 mil mortos pelos números oficiais. Portanto, a rigor, o vestibular deveria ser adiado, ou realizado exclusivamente por meios remotos.
 
A Fuvest, entretanto, acredita que o seu “protocolo de biossegurança” dará conta do recado. A fundação aumentou o número de locais de prova — serão 148, contra 88 em 2020 — em 35 cidades. O objetivo é ocupar no máximo 40% de cada sala. Assim, acredita a Fuvest, será possível manter um “ambiente com biossegurança controlada” nas salas.
 
Dois documentos reúnem as orientações que devem ser seguidas por candidatos e pelo pessoal que vai trabalhar na aplicação da prova: o Protocolo de Prevenção da Covid-19, com medidas gerais, e as Orientações de Biossegurança aos Candidatos da Fuvest, com indicações específicas para o dia do exame. Entre as orientações ao candidato estão visitar o local de prova com antecedência e observar seu estado de saúde antes do dia da prova, com a recomendação de “procurar orientação médica” caso “não se sinta bem”.
 
O caderno de biossegurança orienta ainda o candidato ou candidata a não comparecer ao local da prova se tiver “diagnóstico confirmado de Covid-19 a partir de 01/01/2021”, se for “contactante domiciliar (ou próximo) de caso confirmado de Covid-19, com último contato após 01/01/2021” ou se for ele(a) próprio(a) um “caso suspeito de Covid-19”.
 
Em todas essas situações, vale apontar, a decisão de prestar a prova caberá ao próprio candidato, que mesmo se sentindo mal pode não levar em conta as advertências, ou até ter sido exposto à presença de alguma pessoa contaminada sem o saber.
 
O uso da máscara facial será obrigatório “durante toda a estadia no prédio de aplicação da prova, inclusive durante a realização da prova, sob pena de desclassificação em casos de não observância desta norma”. A máscara só poderá ser retirada brevemente quando o fiscal fizer o reconhecimento facial por meio de um tablet.
 
Não serão permitidas a entrada e a permanência de acompanhantes dos candidatos nas dependências das escolas. Haverá sachê de tecido embebido em álcool 70% para todos os candidatos, além de outros recipientes de álcool em gel nas escolas.
 
A Fuvest recomenda que a entrada e a saída dos candidatos sejam executadas “calmamente”. Ao final da prova, não devem ser formadas aglomerações nos corredores ou nas imediações das escolas.

ENEM tem quase 5,8 milhões de candidatos

Os problemas com a segurança e a saúde dos jovens estudantes — e, consequentemente, dos familiares e outras pessoas com quem convivam — crescem de escala no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). O total de candidatos é de 5.783.357, sendo 96 mil na versão digital do exame, que será aplicada de forma piloto pela primeira vez. As provas ocorrerão nos dias 17 e 24/1, na versão impressa, e, em 31/1 e 7/2 na versão digital.
 
De acordo com o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), Alexandre Lopes, os “protocolos de segurança” também estarão garantidos para candidatos e pessoal envolvido na aplicação da prova.
 
“Para poder garantir o espaçamento entre as pessoas, nós colocamos menos alunos em sala. Além do maior espaçamento, teremos uso de máscara e álcool em gel e identificação do candidato do lado de fora da sala. Essas são algumas das medidas que nós estamos fazendo para garantir segurança e tranquilidade para as pessoas que vão fazer o Enem este ano”, disse Lopes em matéria publicada no site do governo federal.
 
De acordo com o texto, as provas da versão impressa serão realizadas em 200 mil salas de aula de 14 mil instituições, contra 50 mil e 10 mil, respectivamente, no ano passado. No caso das provas digitais, serão utilizados cerca de 4 mil laboratórios de informática de escolas e universidades.
 
À diferença da Fuvest, os candidatos que tiverem diagnóstico ou apresentarem sintomas da Covid-19 ou de outras doenças infectocontagiosas poderão entrar em contato com o INEP para fazer a prova na data de reaplicação do ENEM, nos dias 23 e 24/2.

Vestibular presencial é “atentado à saúde pública”, diz docente da FMRP 

“Fazer o vestibular da Fuvest é extremamente preocupante. Na minha opinião é um atentado à saúde pública que vai causar uma verdadeira avalanche de infectados daqui a alguns dias”, afirma o professor Domingos Alves, docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e um dos idealizadores do portal Covid-19 Brasil. “Existe um aumento da taxa de infecção em São Paulo, que é responsável por um quarto das 200 mil mortes por Covid-19 no Brasil, e a expectativa mais ou menos óbvia é que a mesma proporção se mantenha nas pessoas que vão fazer vestibular. Os protocolos de biossegurança não conseguem controlar isso”.
 
Na avaliação do professor, “a Fuvest deveria apresentar as evidências colhidas por ela antecipadamente para poder fazer uma reunião de pessoas desse porte baseada nesses protocolos de biossegurança”. Esses protocolos, continua, “não são aplicáveis quando há uma aglomeração, como no caso do vestibular”.
 
“Como a Fuvest vai controlar a presença de candidata(o)s potencialmente infectada(o)s? Qual é a porcentagem dos alunos e alunas que foram viajar e tiveram encontros na virada do ano e que, mesmo tendo sintomas, irão declarar isso? E os que forem portadores assintomáticos?”, pergunta.
 
Alves considera que “o negacionismo ilustrado tem sido praticado por pessoas que têm crachá de pesquisadores, alguns deles da área da saúde, e que têm vendido uma intenção política de governos de que nós podemos voltar à normalidade.”