O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) divulgou carta aberta ao reitor Vahan Agopyan, na qual denuncia a recusa sistemática da Reitoria de reunir-se com a entidade representativa dos funcionários técnico-administrativos da universidade. Há meses o Sintusp vem tentando uma audiência com o reitor, sempre recusada a pretexto de “agenda sobrecarregada”. A Reitoria sequer procura disfarçar a evidente discriminação negativa dos funcionários não-docentes.
 
“Desde o início da pandemia a Diretoria do Sintusp fez várias solicitações de reunião com o reitor da USP. Particularmente desde outubro, após a divulgação de um novo Plano USP de Retorno Gradual das Atividades Presenciais, intensificamos essa solicitação, recebendo o apoio de docentes e parlamentares. Neste sentido, foi com grande decepção que fomos informados [de] que o reitor não participaria da reunião agendada pelo gabinete da reitoria neste dia 22, alegando problemas de agenda. Deste modo, acabou por delegar a terceiros as tratativas com o sindicato. Cabe destacar, ainda, que tal reunião foi agendada na antevéspera do recesso, e teve seu horário alterado por e-mail enviado na noite do dia 21”, principia a carta do Sintusp.
 
“Não bastasse[m] as demonstrações de desrespeito com a entidade dos trabalhadores, lembramos ainda a falta de consideração com todos os funcionários da USP que dedicam a vida trabalhando e construindo esta Universidade. Isso se evidencia quando a Reitoria não dedica uma linha sequer para homenagear ou agradecer aos 16 companheiros e companheiras funcionários que morreram vítimas do Covid-19 (isso de acordo com o levantamento extraoficial feito pelo sindicato, já que a Reitoria não fornece esses dados, aparentemente sequer fez esse levantamento)”, prossegue. Em seguida, a carta faz referência à “greve sanitária” deflagrada pelos trabalhadores da USP.
 
“O absurdo e irresponsável plano de retorno presencial compulsório dos funcionários da USP em áreas não essenciais, mesmo sem o reinício das aulas presenciais, levou à indignação não somente dos funcionários, mas também de professores, estudantes e vários dirigentes da Universidade. E, ainda, de entidades sindicais, parlamentares e outros setores que apoiaram nossa GREVE Sanitária e interviram junto à Reitoria contra este plano e defendendo que o reitor da USP pessoalmente recebesse o sindicato. Só então a Reitoria recuou da compulsoriedade do trabalho presencial dos trabalhadores não essenciais”.
 
A questão prioritária a ser tratada com o reitor, enfatiza o documento, diz respeito à necessidade de preservação das vidas dos funcionários técnico-administrativos. “Neste sentido, nossa última assembleia geral da categoria aprovou como itens centrais as seguintes reivindicações: revogação integral do Plano de Retorno Gradual das Atividades Presenciais apresentado pela Reitoria; que nenhum novo plano seja elaborado sem a participação das entidades representativas dos funcionários, estudantes e docentes; que as aulas presenciais só sejam retomadas após a vacinação em massa da população; isonomia entre as categorias num eventual retorno, isto é, que o retorno geral das atividades administrativas só ocorra quando também retornar[em] as aulas presenciais de graduação”.

No Brasil, dados da epidemia apontam para catástrofe ainda maior

Ainda de acordo com a carta do Sintusp, neste momento o mundo e o Brasil assistem a uma segunda onda de infecção e mortes pelo coronavírus, fruto da política irresponsável dos governos, que autorizaram de forma indiscriminada a reabertura de setores não essenciais da economia, ao mesmo tempo em que deixaram os trabalhadores mais precários à sua própria sorte.
 
“Na Europa, Estados Unidos e em vários outros países este recrudescimento da pandemia é avassalador. No Brasil, o crescimento do número dos novos infectados e mortos aponta para uma catástrofe ainda maior, particularmente após as festas de final de ano. Neste cenário, a questão de manutenção da quarentena e do isolamento social, com o retorno das atividades não essenciais somente após a vacinação em massa, ganha maior importância. Sobretudo considerando que já há vacinas aprovadas para utilização, e outras em vias de aprovação. Portanto, a vacinação em massa deixa de ser uma possibilidade distante, e torna-se algo palpável, ainda que dependa da luta da sociedade para garantir sua celeridade e universalidade”.
 
O documento assinala que mais de 80 entidades do funcionalismo estadual de São Paulo dirigiram carta ao governador João Dória “defendendo que o retorno ao trabalho presencial do funcionalismo estadual se dê somente após a vacinação!”, e que nas universidades federais “houve forte reação dos reitores contra a absurda determinação do governo genocida do presidente Bolsonaro, que através do MEC havia determinado o retorno das aulas presenciais em janeiro. Esta resistência dos dirigentes das universidades federais, respaldada pela comunidade universitária, obrigou o recuo do governo federal, que adiou, a princípio, o retorno das aulas presenciais para março”. Porém, continua a carta, mesmo isso “já provocou outra onda de protestos de dirigentes e da comunidade universitária, que questionam: com base em que parâmetros científicos definem que o retorno será em março?”
 
Ainda conforme o documento, “a USP deve dar exemplo nas questões relacionadas ao combate à pandemia e às suas consequências sociais, tanto preservando a vida da sua comunidade, quanto intervindo no debate público em defesa da vacinação em massa e de políticas efetivas de combate à pandemia e de proteção dos mais vulneráveis!” Em quase um ano de pandemia, continua, está mais que nítido que as questões relativas ao combate à pandemia não são estritamente técnicas, mas, em grande medida, políticas.
 
“Não é aceitável que a Reitoria siga sua determinação de não dialogar efetivamente com as entidades representativas dos funcionários, docentes e estudantes! Nesta direção, deixamos consignada nossa solicitação para que ocorra, ainda no início de janeiro, uma nova reunião, desta vez com a presença do reitor Vahan Agopyan! E exigimos, desde já, que nenhuma outra medida seja adotada, no que tange à pandemia, de forma unilateral, sem um diálogo efetivo com os mais afetados, que são aqueles que constroem essa universidade! Esse é o mínimo de respeito que exigimos! Essa é a primeira medida de reconhecimento pelo luto daqueles funcionários e funcionárias que perderam sua vida, vítimas dessa terrível pandemia, após dedicar anos de trabalho para a manutenção da excelência desta instituição!”