Questionada pelo Informativo Adusp a respeito da situação, a Reitoria da USP não se manifestou. O convênio médico de assistência aos servidores da universidade lotados no câmpus de Ribeirão Preto foi assinado em 1998 com o Hospital São Francisco, que em 2019 foi comprado pela operadora de saúde Hapvida. Segundo denúncias da Folha de S. Paulo e da BBC Brasil, médicos do grupo que se recusaram a receitar os medicamentos controversos foram demitidos

O Hospital São Francisco, que desde 1998 atende, mediante convênio, os docentes e funcionários técnico-administrativos do câmpus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e seus respectivos dependentes, vem prescrevendo medicamentos controversos para pacientes suspeitos de Covid-19, portanto antes mesmo da confirmação do diagnóstico. A orientação para prescrição de hidroxicloroquina e de outros produtos emana da direção do Grupo Hapvida, operadora de saúde que em 2019 comprou o Hospital São Francisco.
 
O Informativo Adusp constatou a ocorrência em Ribeirão Preto de vários episódios desse tipo, nos quais houve a prescrição de hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina por médicos do São Francisco, com o agravante de que isso se deu sem que a Covid-19 estivesse devidamente diagnosticada. Os relatos também coincidem quanto ao fato de que o hospital deixa de realizar os testes e exames necessários ao diagnóstico.
 
Em agosto, o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) publicou denúncia a respeito, relatando que a esposa de um funcionário da USP, que procurou em 4/8 o pronto atendimento do São Francisco porque apresentava sintomas de Covid-19, saiu de lá sem o exame diagnóstico solicitado pelo médico que a atendeu, tantas as exigências para tal, que envolviam “enviar um e-mail para a UBAS [Unidade Básica de Saúde] da USP, aguardar a liberação e ainda pegar o encaminhamento em outro local, geograficamente distante de onde é realizado o exame”.
 
Porém, ainda conforme a publicação do Sintusp, a não realização do teste não impediu o médico de prescrever medicamentos cuja eficácia para Covid-19 é duvidosa: “O pior é que o médico, mesmo sem confirmação da doença e contrariando as evidências científicas [...] emitiu uma receita que incluia, entre outros, ivermectina e hidroxicloroquina”.
 
O Informativo Adusp conversou com o marido da paciente em questão, que é funcionário da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) e confirmou a veracidade do relato. “De fato ocorreu essa situação. Antes mesmo de um exame testar positivo para Covid-19 na minha esposa foi prescrita essa medicação. O exame deu negativo, pode até ser um falso negativo porque não realizamos outro teste, porque ela não está apresentando nenhum outro sintoma”.
 
No entender do funcionário, o protocolo adotado pelo São Francisco, “de uma avaliação prévia e uma prescrição também prévia de uma medicação”, diverge “do protocolo da Organização Mundial de Saúde [OMS], do protocolo que a própria USP adota”.
 
Atendida por um médico do São Francisco na mesma data em que a esposa do funcionário da USP esteve no hospital, uma comerciária de Ribeirão Preto que efetivamente contraiu a Covid-19 fez ao Informativo Adusp uma descrição muito semelhante da conduta da operadora de saúde. A seu pedido, sua identidade será preservada.
 
“Na realidade cheguei lá, ‘briguei’ com ele porque queria fazer um exame, estava com sintomas fazia quatro dias. Porque eu queria viajar, se estivesse [com a doença] eu não iria. Ele me disse que eu estava com alguns sintomas, mas que o São Francisco não cobria o teste”, conta ela. “Eu até falei: ‘Vocês estão descumprindo uma ordem da OMS, que é testar, testar, testar’. Ele respondeu: ‘É, mas o convênio infelizmente não cobre’. Falei a ele que faria o exame particular e pedi que me indicasse um lugar. Ele me indicou um laboratório e disse: ‘A senhora vai lá e faz, e se der positivo a senhora já toma o remédio’. Me deu a cloroquina, saí de lá com o remédio na mão e uma receita para ivermectina e prednisolona”.
 
O teste para Covid-19 deu negativo e a trabalhadora fez a viagem programada e retornou a Ribeirão Preto. “Passei muito mal, fiz outro exame e deu positivo. Aí comecei a tomar cloroquina. Mas não tomei tudo não, porque passei muito mal. Nesta brincadeira gastei R$ 250 com exame que deu negativo, fui viajar, coloquei várias pessoas em risco, sendo que ele poderia ter feito o exame lá na hora. Eu pago o convênio há anos e não serviu de nada na hora em que precisei”.

Médico de Ribeirão Preto denuncia negligência da operadora

Outro caso tornou-se público por iniciativa do médico Flávio Petean, que é funcionário do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HC-USP) mas também atende pacientes particulares. Profissional conhecido na cidade, Petean divulgou em rede social que o São Francisco negou-se a realizar uma tomografia em paciente seu (sem relação com a USP) conveniado com o São Francisco, “obeso, positivo para Covid-19 por RT PCR, com febre há cinco dias e falta de ar”, sendo que quando realizado por outra instituição esse exame mostrou comprometimento de 50% dos pulmões do paciente.
 
Procurado pelo Informativo Adusp, Petean forneceu detalhes do caso. “Solicitei exame para confirmação diagnóstica, o hospital falou que não precisava e já deu tratamento, que não tinha absolutamente nada a ver, sem realizar exames e mais nada. Prescreveram ivermectina, azitromicina e paracetamol. Não receitaram corticóides, anticoagulantes e não fizeram nenhum exame que pudesse avaliar a necessidade de utilização de outros medicamentos. Foi um atendimento rápido, totalmente fora de protocolos internacionais ou locais”, disse. O episódio foi testemunhado por uma professora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP-USP), que é prima do paciente e o acompanhou.
 
“Passados poucos dias, o paciente apresentava febre e desconforto respiratório. Solicitei tomografia de tórax”, relatou Petean. “Ele foi novamente ao hospital munido do pedido de exame, fizeram radiografia de tórax — e não tomografia — que deu normal, e disseram a ele que fosse para casa”. Em seguida, explicou, seu paciente dirigiu-se a outro hospital particular com pedido para a tomografia, que uma vez realizada mostrou mais de 50% dos pulmões acometidos, com baixa taxa de oxigênio. Em 31/8 ele permanecia internado, “recebendo oxigenoterapia e anticoagulação”.
 
Petean disse ainda à reportagem que o São Francisco, em mensagem privada, pediu-lhe para retirar a denúncia feita na rede social, caso contrário poderia processá-lo judicialmente. E que, tendo o paciente se internado no outro hospital depois de comprovado o diagnóstico de Covid-19, a operadora telefonou para oferecer-lhe uma ambulância para deslocamento e a internação no próprio São Francisco (o que foi recusado). Consultado sobre as acusações de negligência feitas por Petean, o Grupo Hapvida não se manifestou.
 
Em 12/8, um grupo de destacados professores da FMRP emitiu nota de condenação à atitude de veículos de mídia que defendem a prescrição, no combate à Covid-19, do “kit Covid”, constituído por medicamentos de eficácia não comprovada, como hidroxicloroquina, ivermectina e outros.
 
Coincidentemente, no dia seguinte a BBC Brasil publicou reportagem segundo a qual o Grupo Hapvida demitiu médicos que se negaram a prescrever medicamentos como cloroquina e ivermectina: “‘Nos dispensaram por não prescrever cloroquina contra Covid-19’: médicos acusam operadora de saúde”. No entanto, já em 28/5 a Folha de S. Paulo havia publicado denúncia semelhante: “Operadora de saúde demite médico e pressiona por uso de cloroquina para Covid-19”.
 
Em 14/8, o Informativo Adusp enviou e-mail à Assessoria de Imprensa da USP, no qual indaga, após mencionar as denúncias contra a operadora de saúde: “Que atitude a Reitoria pretende tomar em relação ao convênio com o grupo São Francisco/Hapvida?”. Depois de alguns dias voltamos a entrar em contato com a assessoria por correio eletrônico e por telefone. Porém, até o fechamento desta matéria, a Reitoria não se manifestou a respeito do assunto.

Hapvida emite nota à imprensa e deixa sem resposta a maioria das perguntas

O Hospital São Francisco/Grupo Hapvida foi procurado pelo Informativo Adusp, por intermédio de sua assessoria de imprensa, para que esclarecesse as questões apuradas nesta reportagem. No entanto, ao invés de responder às questões que lhe foram encaminhadas, a operadora preferiu emitir uma nota à imprensa, na qual confirma a prescrição de hidroxicloroquina conforme orientação do Conselho Federal de Medicina (“considerar o uso em pacientes com sintomas  leves  no  início  do  quadro  clínico”, com diagnóstico confirmado de Covid-19), ao mesmo tempo em que declara “respeitar a soberania médica quando o objetivo é salvar vidas” e prezar “pela total liberdade da condução terapêutica”.
 
De acordo com a nota da operadora, “dentre os 4 mil médicos das emergências e urgências da rede, aproximadamente metade não adotou a prescrição e a outra metade adotou a hidroxicloroquina no tratamento, conforme sugerido em protocolos dinâmicos e sugestivos, elaborados por um comitê médico internacional, que se apoia em evidências clínicas e em critérios do Conselho Federal de Medicina (CFM)”.
 
Assim, a nota da operadora respondeu apenas à primeira pergunta do Informativo Adusp — “Afinal, qual é a orientação do Hospital São Francisco e/ou do Grupo Hapvida no tocante à prescrição de medicamentos para pacientes de Covid-19 (diagnosticados ou presumidos) e à realização dos correspondentes testes diagnósticos?”, ainda assim parcialmente, pois não esclareceu qual a política adotada em relação aos testes.
 
Ainda segundo o São Francisco/Grupo Hapvida, não há notícia de danos provocados pela hidroxicloroquina a qualquer dos pacientes atendidos: “É importante destacar que não houve registro de internações resultantes de qualquer efeito colateral pelo uso do medicamento; que a empresa acompanha atentamente a jornada de todos os pacientes até o desfecho de cada caso. Para nós, cada vida importa”.
 
A operadora deixou de responder se houve demissão de médicos do São Francisco que eventualmente tenham se negado a prescrever hidroxicloroquina e ivermectina a pacientes suspeitos ou diagnosticados com Covid-19 — e, como visto, não comentou as declarações do médico Flávio Petean.
 
Ficou igualmente sem resposta a seguinte questão: “Hospital São Francisco/Grupo Hapvida têm conhecimento de manifestação pública, datada de 12/8/2020, de 25 professores de alto nível da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto — entre os quais o diretor e o vice-diretor da instituição — que fazem menção à ‘completa ausência de efeito protetor ou curativo de drogas como hidroxicloroquina e azitromicina em qualquer fase evolutiva dos casos de Covid-19’, e ressaltam que a ivermectina e outras substâncias jamais foram submetidas a estudos controlados para o tratamento da doença e que sua utilização agride ‘o bom senso e as modernas práticas científicas’?”