Depois de conseguir abafar os sucessivos escândalos que a abalavam desde 2005, a direção da Fundação Zerbini, entidade privada que controla inteiramente o Instituto do Coração (InCor), vem promovendo uma “operação de mídia” com a finalidade de demonstrar que os problemas foram superados. Hospital público, o InCor é um dos departamentos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

No dia 12/11 realizou-se um jantar num luxuoso restaurante de São Paulo, com a finalidade de obter apoio das celebridades convidadas para os novos projetos da entidade privada. No dia 14/11, dois dos principais dirigentes da fundação e do InCor, os professores David Uip e Noedir Stolf, publicaram artigo no jornal O Estado de S. Paulo, em que anunciam seus planos.

No artigo sugestivamente intitulado “Nosso negócio agora é investimento”, Uip e Stolf anunciam que a fundação alcançou “um grande sucesso de recuperação financeira”, atingindo superávit de R$ 13 milhões no período de janeiro a setembro de 2007, mas que os resultados obtidos “ainda não são suficientes” para a entidade “inaugurar uma nova fase de investimentos diretos no InCor”, de modo que seus dirigentes estão “em busca de novos recursos de órgãos governamentais e de agências de fomento nacionais e internacionais”.

Paradoxo do SUS

Segundo os autores, o “terreno está preparado” para que “sejam plantadas as bases do InCor para os próximos dez anos, com mais ciência e humanismo”, e planeja-se “investir nos próximos anos R$ 110 milhões na qualificação do atendimento e da pesquisa”.

Uip e Stolf chegam a dizer no artigo que o volume de atendimento a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) “vem crescendo 2% ao ano e representa cerca de 80% do volume total de atendimento do hospital”, “porcentuais significativos que só se tornaram realidade porque o Incor conseguiu manter e elevar a sua capacidade de prestar serviços à população atendida pelo SUS, com recursos advindos da prestação de serviços a pacientes com tratamento financiado por empresas de saúde suplementar e particulares”.

É difícil entender esse paradoxo matemático: em outras palavras, eles alegam que só foi possível fazer “crescer” para 80% o atendimento SUS porque ele é financiado pelo atendimento a convênios e particulares, que representa os outros 20%. Mas se não houvesse esse atendimento privado, o atendimento SUS “cresceria” para 100%!

Negociações

No dia 13/11, a Folha de S. Paulo publicou, na coluna de Mônica Bergamo, reportagem sobre o jantar da véspera, que teve como chefs o próprio Uip e os deputados federais Paulo Renato (PSDB-SP) e Aristodemo Pinotti (DEM-SP) e que contou com a presença, entre outros, do presidente da Câmara Federal, Arlindo Chinaglia (PT-SP), do cirurgião e ex-ministro Adib Jatene e do presidente da Fiesp, Paulo Skaff.

A reportagem incluiu a “boa notícia” que teria sido recebida pelos dirigentes da fundação no jantar, de que o BNDES, seu principal credor, “negociou a dívida do Incor: de R$ 140 milhões, ela caiu para R$ 80 milhões. O governo de SP pagará R$ 40 milhões. O próprio Incor, os outros R$ 40 milhões, em dez anos”. A informação do jornal é incorreta, porque não é o InCor quem deve ao BNDES, mas a Fundação Zerbini, que contraiu a dívida em 1997 (Revista Adusp 40, p. 83).

Consultada pelo Informativo Adusp, em 22/11, a assessoria de imprensa do BNDES declarou que o banco não comenta o assunto: “Este caso está em negociação. A negociação não está concluída”. Paralelamente às negociações, o banco move uma ação de execução contra a Fundação Zerbini, que corre na 3ª Vara Federal de São Paulo desde julho de 2007.

A dívida da fundação foi refinanciada pelo BNDES em 2003, mas as novas parcelas não foram pagas. Um eventual perdão parcial no montante de R$ 60 milhões, como noticiado pela Folha de S. Paulo, será matéria digna de investigação pela CPI das Ongs e Ministério Público Federal. Pergunta-se, ainda: de onde sairiam os R$ 40 milhões que Serra estaria disposto a pagar?

 

Matéria publicada no Informativo nº 249