Na avaliação do governador, as obras na instituição, fechada desde 2013, não evoluíram e necessitam de financiamento privado. Tratativas com a Reitoria já teriam se iniciado: "Não é função de uma universidade captar recursos no setor privado"

Durante entrevista concedida nesta quarta-feira (9/1) ao "Jornal da Manhã" da Rádio Jovem Pan, o governador João Dória (PSDB), ao responder à pergunta de um ouvinte identificado como Sérgio César, declarou que pretende "tirar da USP" o Museu Paulista (Museu do Ipiranga), dando a entender que apenas a área de pesquisa continuaria a cargo da universidade. Ele admitiu ainda a possibilidade de transferir o museu para a Secretaria da Cultura, a cargo do ex-ministro Sérgio Sá Leitão.
 
"Fechado desde 2013, promessa de reabertura em 2022. É um museu ligado obviamente à USP, mas o senhor, como tem esse foco de tentar recursos privados, não é possível obter recursos e finalmente reabrir esse museu?", indagou o apresentador Thiago Uberreich com base na pergunta do ouvinte. Foi a deixa para o governador criticar a morosidade das obras e concordar com a proposta de captação de recursos privados com a finalidade de agilizá-las. Por outro lado, afirmou que já vem tratando do assunto com o reitor Vahan Agopyan.
 
"Tem toda razão o Sérgio, aliás é uma preocupação de vários outros brasileiros aqui de São Paulo, moradores ou não do bairro do Ipiranga. Nosso principal museu, o museu da Independência, fechado desde 2013, ou seja: já temos seis anos de um museu fechado. E com pouca evolução, vamos deixar claro aqui", principiou Dória. "Eu não quero fazer acusações à Universidade de São Paulo, à USP, o reitor esteve comigo, o vice-reitor, recentemente, tratamos deste assunto especificamente, junto com o secretário Sérgio Sá Leitão, que foi ministro da Cultura e agora é nosso secretário da Cultura, que tem a responsabilidade, eles já iniciaram uma conversa. Nosso objetivo é tirar da USP, tirar da USP não significa condenar a USP, é deixar a USP dentro do seu papel, que é especificamente de pesquisa".
 
"Estamos conversando para uma deliberação muito rápida"
 
O governador, que não citou nem chegou a ser questionado sobre a possibilidade de concluir a obra exclusivamente com recursos públicos, mencionou a possibilidade de utilização da Lei Rouanet. "Na pesquisa a USP vai muitíssimo bem, funciona brilhantemente bem. Na gestão e captação de recursos do setor privado nem tanto. Até eu reconheço, não é função de uma universidade captar recursos no setor privado. O governo pode fazer isso, eu diria, com mais solidez, até com mais autoridade, utilizando até os mecanismos da Lei Rouanet, que é federal, como do Proac, que é uma lei estadual. É nesse sentido que nós estamos conversando para uma deliberação muito rápida, até porque em 2022 nós temos uma celebração importante, ligada à independência do Brasil. Não podemos ter o seu principal museu em obras, ou sob risco, vide o que aconteceu no Rio de Janeiro [alusão ao incêndio do Museu Nacional]".
 
Ainda segundo Dória, haverá "uma solução articulada, integrada e dialogada" com a USP, "mas muito provavelmente nós vamos buscar uma alternativa [para] que não fique sob responsabilidade da USP essa recuperação através de recursos da iniciativa privada". Uberreich perguntou, então, se o museu da USP poderia "ir para a [Secretaria da] Cultura", e o governador respondeu afirmativamente. "Pode. Desde que tenhamos um organismo específico do qual a USP participará, porque a função da pesquisa eu concordo que ela é muito importante e que aí a USP vai muitíssimo bem, que é o seu campo de atuação, pedagógico, a USP é talvez o maior celeiro de pesquisas, pesquisadores, cientistas da América Latina, e muito respeitada por isso também".
 
Ele avocou para si a tarefa de buscar financiamento privado para a reforma do Museu Paulista: "Mas a função de captação de recursos do setor privado não é especialidade dela, da universidade, e modéstia à parte nós aqui, eu em especial, nós podemos fazer isso melhor do que a USP, e é o que vamos fazer para que o museu possa capitalizar recursos dentro do que a lei permite, seja no plano federal com a Lei Rouanet, seja no plano estadual com o Proac, para que seja recuperado e utilizado devidamente pelas empresas patrocinadoras da recuperação do principal museu da independência".
 
O Informativo Adusp entrou em contato com a diretora do Museu Paulista, professora Solange Ferraz de Lima, por meio da assessoria daquela unidade, e aguarda um pronunciamento dela a respeito das declarações do governador. "A Reitoria não se manifestará sobre o assunto", declarou em 10/1 a assessoria de imprensa do reitor, procurada no dia anterior.