“Como a pandemia afeta meu tema de estudo? Como a pandemia afeta a população que estou estudando?” Essas foram as perguntas-título encaminhadas a todas as pessoas abrigadas no programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política (ProMuSPP) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. As respostas foram reunidas no boletim Vulnerabilidade social em tempos de pandemia, coordenado por Elizabete Franco Cruz e Marcos Bernardino de Carvalho, docentes do programa, lançado nesta quinta-feira (6/8).
 
Na primeira parte, o boletim compila as manifestações recebidas, compondo um texto coletivo e sem autoria identificada — uma espécie de “editorial” resultante da fusão dos artigos. “Nada ficou de fora. Todos os níveis de desenvolvimento humano sustentável foram afetados (o social, o econômico e o ambiental)”, constata o texto introdutório a respeito das consequências da pandemia.
 
Na sequência são publicadas as contribuições dos participantes abordando os impactos da pandemia nos temas e populações que estudam. Uma delas é de Simone de Goes Costa, aluna de mestrado do programa, que escreve sobre o bairro de Cidade Tiradentes, extremo da zona leste de São Paulo, onde leciona:
 
“Observei que apenas 10% dos meus alunos do primeiro ano do ensino fundamental I (crianças de seis anos de idade e em processo de alfabetização) conseguiram acessar a plataforma disponibilizada para as aulas remotas, e isso sinaliza que tal oferta como forma de garantir o ano letivo e minimizar as perdas na aprendizagem não terá muito sucesso, pois temos uma questão estrutural permeando todas as dificuldades na vida dos estudantes. Questões que estão há muto tempo massacrando as periferias e consequentemente a população negra”.
 
Mais adiante,diz Simone: “A pandemia só escancara os marcadores sociais de diferença, e como é desonesto analisar todo esse cenário sem uma perspectiva histórica e racial. Não podemos naturalizar as desigualdades e compactuar com o discurso meritocrático que contribui para a perpetuação das diferenças, que consolida o projeto do Estado em manter a hegemonia”.

“A pandemia passa, a violência não”

O texto coletivo que abre o volume sustenta que, antes de mais nada, “essa pandemia também decorre da produção socioespacial contemporânea e da economia de predação e pilhagem que a viabiliza”, o que “revela uma dimensão socioambiental crítica do padrão de acumulação estabelecido globalmente”. “Os desequilíbrios provocados por esse padrão, bem como a organização geopolítica que o sustenta e o viabiliza, devem ser considerados na explicação da pandemia”, prossegue o texto.
 
Para além de uma questão de saúde, a pandemia é também uma questão social “que atinge grupos distintos de maneiras diferentes”. De modo mais amplo, dizem os autores, “a crise atual explicita o aprofundamento das contradições do processo de acumulação capitalista, sendo que as tentativas do capital para superá-las baseiam-se na superexploração do trabalho e dos recursos naturais, assim como na adoção de medidas de austeridade e privatizações realizadas pelo Estado brasileiro, o que tem significado a retirada de recursos do sistema de proteção social e a perda de direitos conquistados (como o desmantelamento do sistema público de saúde)”.
 
Em relação ao cenário político do país, o texto aponta que a realidade da pandemia “aprofundou os traços autoritários do atual governo federal”. O presidente da República minimiza os efeitos de um vírus que mobiliza o mundo todo e caçoa da imprensa. Sua postura, que historicamente nega os males da ditadura militar, acaba levando “à relativização de todo tipo de violência”.
 
Também no campo da educação básica e superior, o período evidencia “as muitas diferenças sociais que, de alguma forma, estavam naturalizadas ou veladas pela vida cotidiana que emerge da sociedade organizada a partir dos fundamentos do neoliberalismo”. A superação de realidades como essa pressupõe “o reconhecimento e valorização do trabalho docente e a criação de políticas públicas educacionais que promovam melhores condições para a formação de professores e para o ensino desenvolvedor para todos, nos diversos níveis educacionais”.
 
O boletim também chama a atenção para o fato de que “a pandemia passa, a violência não”: “A pandemia agrava as fragilidades de grupos sociais como as pessoas que vivem com a doença falciforme, ou aqueles que em outras condições são afetados no recorte de classe, gênero e raça. Toda a desigualdade que sempre existiu no Brasil é escancarada neste período”.
 
Essa desigualdade se manifesta, por exemplo, no fato de que milhões de famílias que vivem em favelas ou comunidades sem acesso a abastecimento de água potável não têm condições de cumprir os protocolos de higiene e limpeza necessários para conter a disseminação da Covid-19. “A sustentabilidade da vida humana somente é possível com um Estado forte, democrático e participativo, com políticas públicas universais e articuladas em todos os âmbitos da vida, com o compartilhamento dos cuidados”, defendem os autores.
 
Nas últimas páginas, o boletim publica fotografias dos espaços da EACH, na zona leste de São Paulo, tiradas ao longo de um semestre marcado pelo cancelamento de quase todas as atividades presenciais. Há também citações de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, como: “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo”. Ou: “o senhor já sabe: viver é etcétera…”