Realizada em julho, a pesquisa foi respondida por 675 docentes de mais de 40 unidades da USP em todos os campi — 45,9% dos participantes consideram que têm mais atividades do que o normal e que estão com excesso de trabalho.

Mais de 70% dos docentes da USP que responderam a uma enquete online da Adusp sobre as condições de trabalho durante a pandemia afirmaram que houve impacto em seu trabalho de pesquisa: 55,8% disseram que pararam parcialmente as atividades de pesquisa e 16,2% pararam completamente, enquanto 26,8% afirmaram não ter parado.
 
Três em cada dez docentes (29,8%) responderam que não atingirão seus objetivos em termos de produção (papers, orientação, submissão de projetos etc.) no primeiro semestre. Na avaliação de metade deles (50,7%), os objetivos serão parcialmente atingidos, enquanto 17,7% afirmaram que os atingirão normalmente. Já as atividades de extensão previstas foram completamente suspensas em um quarto dos casos (24,8%).
 
Realizado em julho, o levantamento foi respondido por 675 docentes de mais de 40 unidades da USP em todos os campi. “A pesquisa foi bastante interessante e muito rica. Ela vai ser utilizada pela Adusp como uma forma de orientação das diversas iniciativas que a entidade vem tomando durante esse período da pandemia tanto no sentido de tentar conseguir que as condições de trabalho sejam adequadas quanto para que o atendimento das necessidades de professores e discentes esteja de acordo com os parâmetros educacionais da USP e que assim continuemos a oferecer ensino, pesquisa e extensão de qualidade”, diz o professor Celso Eduardo Lins de Oliveira, docente da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) e diretor regional da Adusp em Pirassununga.
 
“Os resultados demonstram uma preocupação muito grande de quem está cuidando de outras pessoas, com a sobrecarga de trabalho e com a necessidade de haver uma infraestrutura adequada para a realização das atividades tanto de ensino a distância quanto de pesquisa e extensão, uma vez que o trabalho em home office não é a forma mais adequada para desenvolver essas atividades”, acrescenta Oliveira.
 
Na avaliação da professora Michele Schultz Ramos, 1ª vice-presidente da Adusp, a pesquisa traz aspectos que corroboram o que vem sendo discutido e alertado pelo sindicato desde o dia 13/3, quando se soube da suspensão das aulas presenciais. “A pressa da administração em instituir trabalho e ensino por meios remotos, sem reflexão ou planejamentos coletivos, trouxe uma série de consequências, entre elas a sobrecarga de trabalho e a exclusão de estudantes com vulnerabilidades. Os dados da pesquisa reforçam a necessidade de considerar a complexidade e gravidade da situação, incluindo as várias dificuldades, desde aquelas de ordem técnicas até as emocionais”, diz Michele. “Não é menor o fato de que há pessoas em melhores condições de realizar o trabalho ou estudo por meio remoto. O cuidado de pessoas, por exemplo, é um aspecto que deve ser considerado, especialmente para as docentes mulheres e para aquelas e aqueles em início de carreira”.
 
A Adusp vai emitir um relatório dos resultados integrais da pesquisa, cuja análise ainda está sendo realizada. A seguir, o Informativo Adusp apresenta alguns dos itens que o levantamento apurou.

Quase metade dos docentes afirma estar com excesso de trabalho

Pouco mais da metade dos participantes — 50,7% — respondeu que esteve ou está responsável pelo cuidado de outras pessoas durante a pandemia (crianças, adolescentes, idosos, pessoas com doença ou portadoras de deficiência). A maioria — 88,1% — afirmou que não contraiu Covid-19, enquanto 1,9% responderam que estão ou estiveram com a doença; 2,2% tiveram casos na família ou moram com alguma pessoa que teve Covid-19; e para 1,2% dos que responderam houve caso de falecimento de familiar ou pessoa com a qual residiam. Em relação a ser considerado do grupo de risco para a doença, 55,9% responderam que não e 41,9% que sim.

Quanto à realização de atividades remotas, 91,3% ofereceram disciplinas a distância no primeiro semestre e 89,9% as oferecerão no segundo. No que se refere à determinação de trabalho por meio remoto, 73% responderam que concordam com a proposta, mas admitem que ela tem problemas. Para 50,7% (a pergunta permitia mais de uma resposta), esse era “o único meio de garantir a saúde e a continuidade do trabalho”.

No segmento dos que não concordam com a determinação, 11,9% acreditam que ela favorece a exclusão e 4,3% responderam que é preciso retornar às aulas presenciais com um plano que garanta a segurança.

Dois terços dos docentes (66,5%) responderam que estão desenvolvendo parcialmente suas atividades de gestão, ensino, pesquisa, cultura e extensão, enquanto 32% estão desenvolvendo plenamente e 1,5 % disseram que não estão desenvolvendo. Quase todos (98,5%) estão trabalhando de casa, enquanto 8,6% responderam que utilizam sala na USP (a pergunta admitia mais de uma resposta).

Quase a metade (45,9%) considera que tem mais atividades do que o normal e que está com excesso de trabalho. Para 37,3%, há dias mais estressantes e outros em que é possível coordenar as atividades, enquanto 13,9% responderam que coordenam bem o equilíbrio entre atividades, e 1,6% não consegue coordenar.

Fatores como barulho, presença de outras pessoas no espaço e falta de mobiliário adequado foram apontados como os principais problemas para a realização do trabalho.

Menos de 20% responderam ter recebido treinamento adequado para ensino remoto

As disciplinas de graduação ou de pós-graduação serão encerradas no calendário proposto pela unidade, de acordo com 79,5% das respostas, enquanto 15,2% responderam que não e 5,3% que talvez. O principal fator apontado no caso de o calendário não ser cumprido é a necessidade de realização de atividades práticas presenciais.

Na avaliação de um quinto dos docentes (19,1%), a participação dos alunos nas disciplinas fica próximo da metade (de 41% a 60% de presença). Em 30,4% dos casos a presença vai de 61% a 80% e, em 39,7%, de 81% a 100% da turma. Para 10,8% dos respondentes, a participação dos alunos é inferior a 40%.

O e-mail institucional é a principal forma de comunicação com os alunos, de acordo com 82,3% das respostas. A plataforma e-Disciplinas é utilizada por 63,6% e o contato por WhatsApp por 33,4%. Nesse item, que admitia mais de uma resposta, também foram citadas ferramentas como Google Classroom, Google Meet, Zoom e YouTube, entre outras.

A escolha pelas ferramentas se deu, de acordo com pouco mais da metade das respostas (51,6%), porque era o meio que o docente sabia utilizar. Outros 48,6% disseram que aprenderam a utilizar os recursos a partir de informações de colegas. Também foi citada como razão da escolha por 22,6% (a pergunta admitia mais de uma resposta) a indicação dos alunos. Apenas 18,9% responderam ter recebido treinamento adequado para utilizar as ferramentas quando as atividades passaram a ser não presenciais.

Quanto a participar de um curso de capacitação para o uso de tecnologias educacionais, 34,3% participariam de uma formação por até 2 horas; 23,2% de formação por até 4 horas e 27,1% de um curso de 16 horas; enquanto 15,5% não acham necessário participar desse tipo de curso.

Na avaliação de metade dos docentes (49,6%), não há solução a curto e médio prazo para que se recuperem as atividades docentes. Outros 17% acreditam que a situação é muito difícil, mas que após a pandemia tudo será resolvido, e 11% estão esperançosos de que após a pandemia tudo voltará à normalidade.

Numa escala de 1 a 5 quanto à adequação da atuação da USP durante a pandemia, 33% marcaram a opção 3; 28,3% a 4; e 13,3% a 5. Para um quarto das respostas, a atuação da USP foi inadequada (17,3% marcaram 2 e 8% optaram pelo 1).

“É a primeira vez que me perguntam como estou”, registrou uma docente

A pesquisa abriu um espaço para a livre manifestação da(o) docente, recebendo comentários de 243 pessoas. Houve vários elogios à iniciativa da Adusp, além de observações de que a universidade também deveria se preocupar em ouvir seus professores e professoras. “Até o momento, esta é a primeira vez que me perguntam, não diretamente, como estou. Eu estou esgotada. Mental e fisicamente e me sinto desamparada pela instituição pela qual trabalho”, escreveu uma docente. “A tentativa de manter a normalidade com a mudança brusca para o ensino EaD pela USP trouxe grande insegurança para o desenvolvimento do meu trabalho. Na maioria das vezes durante o primeiro semestre, me senti uma fraude como educadora. É nítido que os alunos estão tendo grandes dificuldades em acompanhar as aulas (mesmo os que possuem local adequado, acesso a computadores, Internet de alta velocidade etc.). Os conteúdos foram comprometidos, a liberdade de método didático foi abandonada. Os professores estão sobrecarregados e recebemos todos os dias as demandas dos alunos que as comissões, chefias de departamento e Reitoria dizem que precisamos cumprir”.
 
Também preocupado com a forma como as atividades presenciais serão eventualmente retomadas, outro participante apontou: “A USP foi muito bem-sucedida protegendo a comunidade, com a suspensão de atividades e razoavelmente bem-sucedida na manutenção das aulas. Mas poderia ter feito melhor, criado capacitação docente rapidamente, sendo mais ágil e eficiente na comunicação de decisões. A USP deveria testar maciçamente e gratuitamente a comunidade para anticorpos da Covid-19 (não os testes rápidos e sim os específicos para anticorpos), para que um maior número de pessoas pudesse voltar às atividades e se sentisse protegido”.
 
Em breve mais dados serão divulgados em continuidade das atividades do grupo de trabalho criado especificamente para auxiliar a Adusp em medidas efetivas durante a pandemia.