Em outra frente, médicos do hospital fazem circular abaixo-assinado, endereçado ao reitor, que sugere a exoneração do superintendente Paulo Margarido, autor da Portaria 1.046/20, que inaugura a expressão “livre de Covid-19”, limita a solicitação de exames (tomografia computadorizada e RT-PCR) e bloqueia internações de pessoas com suspeita de coronavírus

Sintusp
Rosane Meire, do Sintusp
Apesar das dificuldades, protesto na entrada do HU foi expressivo
Lactante exige seu direito
Diagnósticos para todos é uma das reivindicações
Slogan contraditório posto em xeque por manifestantes

Nesta quinta-feira (23/4), profissionais das equipes de saúde do Hospital Universitário da USP (HU) tornaram pública a sua indignação frente às condições de trabalho existentes atualmente na instituição, em protesto que reivindicou o imediato afastamento dos que pertencem a grupos de risco para a Covid-19 e novas contratações, bem como a realização, em maior número, de testes diagnósticos — e denunciou a regulação das máscaras, item fundamental de segurança sanitária de equipes de saúde, e demais equipamentos de proteção individual (EPI).

“Por que as chefias estão regulando materiais para os profissionais? São os funcionários que estão se contaminando! Até quando os profissionais vão dar a vida deles em troca de uma Superintendência que não tem diálogo, que não respeita a vida?”, questionou, no ato, a auxiliar de enfermagem Rosane Meire Vieira, diretora do Sintusp.

O protesto também criticou o slogan criado pela Superintendência do HU e respaldado pela Reitoria. “No hospital ‘livre de Covid’ já tem mais de 20 funcionários contaminados! Queremos respeito e condições dignas para salvar vidas”, dizia uma das faixas. “Não queremos palmas, queremos trabalhar com segurança” eram os dizeres de um pequeno cartaz segurado por uma das manifestantes. “Remuneração integral, sem demissões. Nenhum direito a menos”, pedia outro cartaz.

Organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), o ato de protesto contou com o apoio do Coletivo Butantã na Luta. O vereador Celso Gianazzi e o deputado estadual Carlos Gianazzi, ambos do PSOL, compareceram para prestar solidariedade. Os mandatos da deputada estadual da bancada ativista, Mônica Seixas, e da deputada federal Sâmia Bonfim, ambas também do PSOL, enviaram representantes.

“Essa manifestação foi mais um passo na tentativa de garantir condições dignas para os profissionais do HU seguirem seu trabalho durante essa pandemia”, informa o Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp) em seu boletim 30 (24/4). “Seguiremos na organização dos funcionários do hospital em cada local de trabalho, pois se nossas reivindicações não forem atendidas, será necessário fazermos novas ações para garanti-las”.

Margarido “não reúne condições de continuar”, diz abaixo-assinado

Médicos do HU colocaram em circulação abaixo-assinado — na forma de carta aberta ao reitor Vahan Agopyan, ao vice-reitor, ao pró-reitor de Graduação e ao presidente do Conselho Deliberativo do hospital — que solicita “providências para minimizar os danos que decorrem dos atos administrativos” do superintendente Paulo Margarido, por entender que ele “não reúne condições” para continuar no cargo. Margarido é autor da Portaria 1.046/20, que inaugura a expressão “hospital livre de Covid-19” e limita a solicitação de exames (tomografia computadorizada e RT-PCR), além de bloquear internações de pessoas com suspeita de coronavírus.

“No contexto da pandemia trata-se de uma expressão [‘livre de Covid-19’] absurda por princípio, e inverídica dado que há duas funcionárias deste hospital internadas com quadros graves, em ambiente de terapia intensiva, além de cada vez mais profissionais afastados”, diz o documento. “O número exato de profissionais acometidos por Covid-19 no HU não é sabido porque falta transparência da Superintendência em divulgar os dados. Enquanto muitos hospitais públicos e privados divulgam boletins diários com o número de casos suspeitos e confirmados de Covid-19, a Superintendência do HU não divulgou dados uma única vez e o último boletim ‘Diário’ foi publicado no dia 20/3/2020”.

Além disso, o HU “segue com mais de 20% de seus leitos de internação bloqueados, inclusive 40% dos leitos de terapia intensiva de adultos”. Os processos de contratação de profissionais e reparos estruturais, porém, têm sido morosos, na contramão das necessidades impostas pela epidemia.

O documento chega ao fim com outra denúncia: “Enquanto os gestores de saúde têm procurado soluções e engajamento das equipes como regra, no HU o superintendente extinguiu via Portaria 1.045/20, datada de 1º/4/2020, o Comitê designado para o enfrentamento do Covid-19 na unidade, com isso as decisões são centralizadas e as informações não são compartilhadas com os funcionários do HU, muito menos com os usuários do hospital”.