O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) emitiu “nota de pesar e repúdio”, nesta segunda-feira (20/4), pela morte ocorrida na véspera, por Covid-19, do vigilante do Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP) Jair Alves de Souza, de 63 anos de idade, trabalhador terceirizado pela empresa Albatroz. É o segundo vigilante terceirizado do MAC, integrante de grupo de risco, vitimado pela Covid-19. O primeiro foi Manoel Nunes de Souza, de 71 anos, falecido em 8/4.
 
“O descaso da USP e da empresa com a saúde e a segurança de seus trabalhadores é gravíssimo e inaceitável”, diz a nota do Sintusp. “Não é possível que a Reitoria siga se isentando de suas responsabilidades de exigir a imediata dispensa [liberação] de todos os trabalhadores terceirizados pertencentes ao grupo de risco para o Coronavírus, garantindo testes para todos, a manutenção dos empregos e salários e a aplicação de todas as medidas de proteção contra a contaminação para aqueles que estejam realizando atividades essenciais”. O Sintusp reivindica ainda que a Reitoria “apoie concretamente a família do sr. Jair, pagando os custos de seu funeral”.
 
De acordo com o informativo digital Esquerda Diário, embora por sua faixa etária fizesse parte de grupo de risco frente à epidemia, Jair não foi liberado do trabalho pela Albatroz, que presta serviços de vigilância à USP: “Ele trabalhou até o dia 1º de abril, quando começou a sentir os sintomas e foi internado”. O portal lembrou que em 16/4 professores da USP lançaram manifesto que exige a imediata suspensão das atividades de funcionários efetivos e terceirizados que fazem parte do grupo de risco — maiores de 60 anos ou que possuam alguma comorbidade.
 
Em “Carta Aberta à Reitoria”, datada de 14/3, Adusp e Sintusp propuseram à gestão Vahan Agopyan-Antonio Hernandes um plano de contingência que concedesse tratamento isonômico a todas as categorias da universidade, inclusive os trabalhadores terceirizados: “A suspensão [das atividades] deve garantir o mesmo tratamento para estudantes, professoras/es, funcionárias/os autárquicas/os, celetistas ou terceirizadas/os, sem qualquer prejuízo, inclusive de salários e benefícios. Devemos elaborar conjuntamente um plano de contingência que inclua toda a comunidade da USP, sem discriminação. Entendemos que há atividades que não poderão ser interrompidas [...]. “No entanto, não nos parece razoável que se estabeleçam condutas que privilegiem alguns setores da comunidade e, por isso, acreditamos que podemos contribuir com a construção de medidas que sejam democráticas e universais, estendidas a todas e todos.”
 
A suspensão das atividades da USP só ocorreu depois que o governo estadual determinou a interrupção das aulas nas instituições públicas e privadas do Estado. Neste momento, o reitor anunciou que a partir de 23/3 docentes e funcionário(a)s técnico-administrativo(a)s pertencentes ao grupo de risco para a Covid-19 — com 60 anos de idade ou mais, ou portadores de doenças crônicas — teriam ponto facultativo. Porém, essa liberação excluiu os trabalhadores terceirizados.
 
A Adusp, em nota lançada em 8/4 a propósito do “Quinto Comunicado” da Reitoria, chamou atenção para os riscos humanitários embutidos na política da Reitoria: “O lema cunhado pelos dirigentes da USP, e pretendido como mantra, para um período de exceção em meio a uma pandemia mundial, foi: ‘A USP não vai parar’. A pretensão era comunicar à sociedade que, embora a vida fosse virar um caos em todas as esferas do cotidiano, as atividades realizadas pela universidade deveriam prosseguir a qualquer custo e a comunidade de estudantes, trabalhadora(e)s docentes, funcionária(o)s técnico-administrativa(o)s e terceirizada(o)s deveria executá-las. No caso da(o)s funcionária(o)s, exigiu-se por um período que se dirigissem aos seus locais de trabalho mesmo com o Estado tendo decretado isolamento social”.
 
O Informativo Adusp encaminhou à assessoria de comunicação da Reitoria alguns questionamentos a respeito do episódio, que não foram respondidos até o momento de fechamento da matéria. Caso cheguem posteriormente, o texto será atualizado. Indagamos se a Reitoria pretende pronunciar-se sobre a morte do trabalhador do MAC e sobre a nota do Sintusp.

“Jair foi escalado em descumprimento da orientação”, diz MAC

A comunicação institucional do MAC declarou ao Informativo Adusp que o ofício distribuído em 20/3 pelo Gescont, órgão responsável pelo contrato com a Albatroz, com as orientações para o isolamento dos funcionários do grupo de risco, foi transmitido aos responsáveis, na empresa, pelo contato com a direção do museu.
 
“Desde o dia 17 de março, servidores docentes e não-docentes do MAC se encontram trabalhando remotamente. Com isso, a empresa foi informada de que poderia destinar um número menor de trabalhadores para o museu. O sr. Manoel já apresentou um atestado de afastamento no dia 23 de março, no mesmo dia em que as orientações da Reitoria indicavam o isolamento para os trabalhadores em grupo de risco. Já o sr. Jair, pelos apontamentos do MAC, foi escalado para o trabalho pela Albatroz até o dia 1º de abril, em descumprimento da orientação passada pelo Gescont. Recebemos a informação de que somente na semana passada [...] a Albatroz deu férias aos trabalhadores com mais de 60 anos e portadores de comorbidades”.
 
O MAC emitiu nota de condolências pela morte de Jair: “O Museu de Arte Contemporânea da USP lamenta o falecimento do sr. Jair Alves de Souza, funcionário da empresa prestadora de serviços de segurança Albatroz, no último dia 19, pelo que sabemos, em decorrência da Covid-19. O MAC USP esclarece que a partir do dia 17 de março determinou o trabalho remoto para funcionários e docentes. As empresas prestadoras de serviços foram orientadas pela USP a promoverem o isolamento de seus funcionários pertencentes aos grupos de risco. O MAC mantém equipe reduzida para os cuidados com seu Acervo e patrimônio, reforçando com as empresas terceirizadas a necessidade em adotar todos os meios necessários para cumprimento das regras estabelecidas pela Autoridade Sanitária. Nós, da comunidade do MAC USP, enviamos nossas condolências à família do Sr. Jair".