Docentes e estudantes de instituições dos Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Espanha, Portugal e Argentina relatam ao Informativo Adusp as dificuldades que enfrentam e como cada universidade tem lidado com a crise 

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no último dia 18/3 aproximadamente a metade dos estudantes do mundo estava sem aulas devido à pandemia do novo coronavírus — cerca de 850 milhões de crianças e jovens. Mais de cem países haviam decretado até então a interrupção parcial ou total das aulas nas escolas e universidades, número que, segundo a agência, continuaria subindo nos dias seguintes.
 
Mundo afora, universidades têm pressionado os docentes a dar sequência aos cursos pela Internet. Os problemas derivados de tal encaminhamento, entretanto, são de toda ordem: éticos, legais, práticos, tecnológicos. “De fato, podemos levar por algumas semanas uma situação como a que vivemos agora, mas nem os planos de aula e de estudo nem a nossa capacidade docente nem o uso adequado das ferramentas tecnológicas (não basta apenas que estejam disponíveis) nem a resposta dos estudantes etc., etc. aguentarão esse trânsito do presencial para o não presencial sem efeitos negativos ou perniciosos”, escreve o professor espanhol José Luis Terrón Blanco, da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), em artigo especial para o Informativo Adusp.
 
Na reportagem a seguir, docentes e estudantes de diversas universidades pelo mundo relatam ao Informativo Adusp parte de sua experiência com as mudanças introduzidas pela crise do coronavírus e com a criação de problemas cujas soluções propostas até o momento estão longe de ser definitivas ou mesmo razoáveis.
 
“Desigualdade digital e socioeconômica se apresenta de maneira bastante forte”
 
Cara Snyder, norte-americana, professora e pós-doc na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos:
 
“A universidade fechou para as aulas no dia 11/3, e fomos informados de que os cursos seriam convertidos para online até 10/4. Isso foi na semana anterior ao chamado Spring Break, que é uma folga de uma semana. No retorno, teríamos uma semana para que os professores se preparassem para as aulas online.
 
No dia 21/3 a universidade foi fechada também para os pesquisadores. As únicas pessoas autorizadas a entrar no câmpus são as que trabalham com pesquisa relacionada ao novo coronavírus ou em áreas consideradas essenciais, em que se possa prejudicar as amostras em laboratório ou até perder financiamento. Mas a entrada é bastante restrita, é preciso ter o nome aprovado para isso.
 
No dia 19/3, ainda no Spring Break, houve o comunicado de que os cursos serão online pelo resto do semestre, que vai até 12/5. Até cerimônias de formatura, que seriam em maio, foram canceladas. Espero que em agosto retornem as aulas presenciais.
 
Desde a segunda-feira (23/3) tenho trabalhado para converter as minhas aulas para o formato digital. Tem sido bem difícil mudar tudo. Em termos de assistência, há muitos e-mails e muitas coisas postadas no site da universidade com orientações para utilizar isso ou aquilo, mas não houve nenhum tipo de treinamento oficial para os professores — pelo menos que eu estivesse a par. Talvez em alguma unidade tenha havido.
 
Há também os professores que não usam tanto a tecnologia e que estão passando por um momento bem difícil. Não sei qual é a resposta da universidade, e cada departamento é que está lidando com essa questão.
 
Há professores que utilizavam o Learning Management System [LMS, Sistema de Gestão de Aprendizagem] e outros que não. Eu utilizava, mas agora cada coisa que você sobe no sistema se converte em propriedade intelectual da universidade, que vai poder fazer o que quiser com esses materiais. Então, temos que tomar muito cuidado. Estamos numa universidade bastante neoliberal, que cada vez mais quer se converter num negócio e diminuir o poder dos professores — e temos também um governo federal que vem cortando fundos públicos.
 
É preciso considerar ainda a grande desigualdade digital: as desigualdades socioeconômicas se apresentam de maneira bastante forte nesta grande crise. Temos estudantes sem acesso à Internet ou à tecnologia. A universidade criou um site para os estudantes se cadastrarem e receberem equipamentos, e há também empresas que supostamente vão dar Internet de graça. Como professora, sinto que lidar com a parte emocional dos meus estudantes tem sido complicado.
 
Acredito que será mudado o sistema de notas — que vai de A a F. Muitas universidades já anunciaram que não vão atribuir nota, vão simplesmente mudar para ‘aprovado’ ou ‘reprovado’. Espero que em Maryland isso também aconteça. Não me parece ético atribuir nota durante uma crise dessas. A discussão ética não está sendo devidamente considerada.
Em termos da resposta dos professores, cada Estado tem grande autonomia e as coisas são muito diferentes. No meu Estado, não temos sindicato; infelizmente ele ainda não foi aprovado. Em outros Estados os sindicatos existem e imagino que neles os professores estejam mais organizados.”

“A universidade nos deu uma semana para prepararmos material para EaD”

Erica Dantas Brasil, brasileira, professora da Universidade de Nottingham, na Inglaterra:
 
“O cenário aqui está estarrecedor. A universidade, onde trabalho há vinte anos, nos deu uma semana para prepararmos materiais para ensino a distância. O contexto maior é o fato de que todas as universidades públicas na Inglaterra cobram anuidades dos estudantes [o valor anual é de 9,5 mil libras, o equivalente a cerca de R$ 57 mil], e obviamente as universidades não querem ser forçadas a ter que reembolsar alunos devido ao cancelamento das aulas.
 
Algumas instituições estão sofrendo a pressão dos estudantes, especialmente os alunos do último ano, que exigem o cancelamento do ano acadêmico. Uma reportagem recente do jornal The Guardian trata do assunto. Aqui é o berço do liberalismo e deveria ser o antiexemplo para aqueles que defendem a privatização do ensino superior no Brasil.
 
As avaliações finais e exames também são motivo de grande controvérsia, pois algumas instituições já tinham sistemas digitais mais preparados para exames a distância, enquanto outras não.
Muitos estudantes voltaram para a casa dos pais, alguns enfrentando problemas na dinâmica familiar e outros sofrendo com interrupções frequentes no wi-fi, pois vivem em vilarejos ou há várias pessoas na casa trabalhando online. Enfim, há um certo caos que o sistema ainda não conseguiu solucionar bem.
 
Com o fechamento das escolas primárias e secundárias do país, os trabalhadores agora também têm a responsabilidade de cuidar dos filhos em casa. Supor que o ensino online vai ser uma opção viável, na minha opinião, é apenas uma forma de disfarçar a angústia de admitir que entramos na ordem da interrupção da normalidade social. Ética e valores humanitários mínimos deveriam fazer as universidades oferecer a restituição das taxas acadêmicas e o cancelamento do semestre.
 
A preparação para a adoção do online teve diferenças dependendo da instituição. Na Universidade de Nottingham, todas as aulas presenciais foram suspensas no dia 16/3, quando também foi anunciado o prazo de uma semana de preparação para que as aulas online começassem [a partir de 23/3].
 
A universidade tentou fazer, em uma semana, um levantamento de quem precisava de equipamentos (computadores, tablets etc.) e tentou colocar à disposição a equipe de Tecnologia da Informação (TI) para ajudar — esse pessoal inclusive está em vias de ser terceirizado… Fizeram o melhor que puderam, mas, com todo mundo trabalhando de casa, a comunicação ficou muito mais complexa.
 
Todos fomos encorajados a usar o Microsoft Teams, mas alguns colegas têm tido dificuldades de acesso. Enfim, na teoria parece ótimo, mas na prática é muito complicado. Até agora [24/3], só tive metade dos alunos respondendo às tentativas de aula online.
 
Alguns colegas vão disponibilizar arquivos em PowerPoint com comentários gravados, mas temem que esse material possa ser alterado ou utilizado pelos alunos ou instituições no futuro.”

“Um problema é a incerteza da validade deste trabalho”

João Carlos Correia, português, professor associado na Universidade da Beira Interior, em Portugal:
 
“A universidade está fechada sem grande histeria. Curiosamente, o primeiro sinal foi o adiamento sine die de um doutoramento honoris causa de reitores de Angola e Moçambique. Depois avançou-se para uma sucessão de acontecimentos: primeiro para a suspensão das aulas presenciais e fechamento dos locais de convívio (cantinas, biblioteca, espaços culturais e desportivos). Depois suspenderam-se os eventos todos e as saídas para o estrangeiro, e de repente disparou uma escalada bastante grande: avançou-se para o teletrabalho.
 
O registro da presença dos funcionários que são obrigados a registrá-la é feito online. Os professores fazem os seus sumários online. As plataformas de teletrabalho estão a funcionar bem e provavelmente vamos descobrir algumas coisas novas que não conhecíamos, embora o sacrifício não valha a pena.
 
Todos os dias me levanto e sento em frente ao computador e tenho horas infinitas de conversas e aulas com o recurso de Microsoft Teams, Zoom e as plataformas informáticas próprias da universidade. Há uma questão que é manter o ânimo para o contato distante e para o autoisolamento, que é muito elevado.
 
Um problema é a incerteza da validade deste trabalho. Ou melhor: ele é válido, mas ninguém sabe ao certo qual vai ser a evolução da curva do vírus — que, neste momento, é exponencial — e, logo, há alguma incerteza quanto aos processos de avaliação. Todavia, creio que continuaremos a fazer a distância o que temos que fazer, cumprindo prazos sem pensar na hipótese pior de uma eventual inutilidade desse esforço.
 
No último dia antes do estado de emergência [decretado em Portugal em 19/3], fui à universidade e havia alguns funcionários a executar tarefas de secretariado e burocráticos. De resto, estava vazia como qualquer escola sem professores ou alunos.
 
Os prazos para a entrega de candidaturas para projetos à Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT) foram adiados. Simultaneamente, estávamos na fase de corrida eleitoral para o Conselho Geral da Universidade, órgão de consulta do reitor e colégio eleitoral de escolha do reitor. Uma das listas, UBI com Futuro, encabeçada por uma catedrática de Ciências da Saúde, anunciou a suspensão da campanha. As outras duas listas, encabeçadas por Mário Raposo (Gestão) e Abel Gomes (Informática), não anunciaram a suspensão da campanha eleitoral, mas reduziram ou terminaram as suas atividades.”
 
“Os alunos foram solicitados a deixar os alojamentos e voltar para casa”
 
Claudio Lomnitz, chileno, professor na Universidade Columbia, nos Estados Unidos:
 
“Inicialmente, quando a epidemia ainda não havia aparecido nos Estados Unidos e estava concentrada na China, a universidade publicou diretrizes restringindo viagens de professores e alunos àquele país e solicitando que os que houvessem retornado de lá recentemente que se identificassem para ser monitorados — há um bom número de estudantes chineses na universidade, de modo que a diretriz era relevante.
 
Logo depois, a universidade se mobilizou para fazer retornar a Nova York os alunos que estavam em programas no exterior, em especial nos países mais afetados, sobretudo China, Coreia do Sul e Itália.
 
Quando a pandemia chegou a Nova York — ainda bem no começo, quando nenhum membro da comunidade acadêmica de Columbia havia sido contagiado —, anunciou-se que todos os cursos passariam a ser online. As aulas foram suspensas por dois dias para que todos os professores pudessem receber instruções de como organizar uma aula na plataforma Zoom. A seguir, anunciou-se que todas as aulas teriam que ser dadas nessa plataforma, até o final do semestre (meados de maio). Também foram cancelados todos os eventos, conferências etc. que reunissem mais de vinte pessoas.
 
Pouco depois, quando já havia um primeiro integrante da comunidade infectado, todas as atividades administrativas passaram a ser feitas pelos funcionários em casa, com exceção daquelas consideradas essenciais. Os professores também foram orientados a evitar comparecer aos seus escritórios na universidade e a trabalhar preferencialmente de casa. Também foram expedidas normas para ver de que maneira prosseguir com o trabalho de pesquisa, e que tipo de pesquisa teria que ser suspensa — por exemplo, foram proibidos os trabalhos que demandassem entrevistas pessoais. Essas diretrizes também afetaram o funcionamento dos laboratórios.
 
Os alunos foram solicitados a deixar os alojamentos da universidade e retornar para casa, quando possível. Os que não tinham dinheiro para retornar receberam ajuda financeira. Aos que tiveram que permanecer foi oferecida assistência. Essas medidas buscavam evitar que os alojamentos se convertessem em focos de infecção.
 
As bibliotecas foram fechadas, permanecendo o acesso online. A universidade não parou em nenhum momento, ainda que a planta física esteja fechada e as aulas tenham sido suspensas por dois dias para o treinamento dos professores no software e para preparar um pouco os alunos a respeito do que aconteceria. O trabalho da universidade segue em todas as suas frentes, embora haja algumas atividades de pesquisa que estão suspensas porque não há condições para que prossigam no momento.”

“Várias vezes não encontramos arroz, pão e leite nos mercados”

Tassya Mara do Nascimento, brasileira, aluna de graduação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em intercâmbio na Universidade Nacional de Córdoba (UNC), na Argentina:
 
“Cheguei na Argentina no final de fevereiro e minhas aulas começaram no dia 11/3. Porém, já no dia 16/3 fomos informados de que as aulas passariam a ser a distância.
Nas primeiras semanas, os alunos intercambistas, em especial os oriundos de alguns países, foram orientados a permanecer em casa pelo período de 14 dias desde a chegada na Argentina, como medida de prevenção. Porém, passado esse período, todos os alunos foram notificados de que a UNC, após receber ordens superiores, suspenderia as aulas presenciais e que as atividades seriam retomadas possivelmente no dia 31/3.
 
Com o intuito de evitar que o semestre seja afetado, professores e coordenadores acadêmicos se mobilizam para que atividades e aulas sejam realizadas online, avançando assim nas matérias e conteúdo. Com relação às questões administrativas, estão sendo resolvidas via e-mail.
 
No dia 19/3, recebemos um comunicado de que a quarentena foi decretada em todo o país e que somente estão autorizadas saídas para hospitais, mercados, farmácias etc. Essa medida ocasionou uma redução grande do fluxo de pessoas que circulam pelas ruas.
 
Uma questão que acredito que esteja acontecendo não só aqui mas também em outros locais do mundo é o pânico generalizado, de tal forma que há pessoas que vão aos supermercados e compram alimentos em excesso. Aconteceu várias vezes de chegarmos aos mercados próximos e não encontrarmos arroz, leite e pão, entre outros itens.
Muitos intercambistas brasileiros procuram voltar ao Brasil e acabam sendo impedidos por conta de ausência de voos, entre outros fatores.
 
Espero que as medidas implantadas pelo governo argentino sejam suficientes para evitar que o país sofra demasiadamente com o coronavírus, tendo em vista que o governo agiu rapidamente para fechar fronteiras e determinar a quarentena nacional.”

“Ninguém sabe quando a universidade vai reabrir”

Rebeca Pak, brasileira, mestranda em Artes Visuais e Curadoria na Nuova Accademia di Belle Arti, na Itália:
 
“Uma das primeiras ordens do governo foi uma quarentena de uma semana que depois foi se estendendo. A data prevista de reabertura da universidade é, por enquanto, o dia 4/4, mas já se fala em prorrogação.
 
Desde o início da quarentena, temos feito as aulas de forma online. Tudo segue sendo feito a distância, até porque ninguém sabe quando a universidade vai reabrir. Mesmo antes dessa paralisação, já recebíamos muitos e-mails com orientações e cuidados a tomar. Aqui em Milão há muitos estudantes estrangeiros, principalmente chineses, e a minha faculdade mandou e-mails em chinês para eles, procurando dar as orientações da forma mais clara possível.
 
Estávamos em período de provas e defesas de tese, e muitas apresentações foram postergadas. Na semana retrasada recebi um e-mail perguntando sobre qual a minha preferência: fazer a defesa remotamente, por Skype, ou então adiar para o período entre abril e junho, em data a ser definida pela universidade. Uma terceira opção seria adiar para julho, no início de um novo ano acadêmico, mas sem ter que pagar as taxas de inscrição (a universidade é privada). A tentativa é de adaptar caso a caso, porque algumas pessoas já tinham começado a trabalhar em novos empregos e precisavam do diploma o quanto antes. Já as provas, como são orais, vão continuar a ser feitas por Skype.
 
A minha defesa teria sido no dia 18/3. Optei por adiar, porque meu trabalho é muito visual e eu não queria que certos aspectos se perdessem numa apresentação a distância.
Não sabendo qual vai ser o dia de amanhã, acabei freando a procura por um trabalho/estágio. Estou terminando, sem pressa, a minha apresentação da tese e o meu portfólio de projetos para quando acabar esse período de isolamento.”