Professora Fabiana Jardim, presidente da Comissão de Pesquisa da Faculdade de Educação, entende que a gestão atual pratica “uma espécie de ‘negacionismo ilustrado’, que se acomoda em sentir-se moralmente superior aos que negam a ciência e as evidências, mas que, do ponto de vista prático, responde com ações que justamente negam a dimensão dos acontecimentos”. Professor Antonio Almeida, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, adverte: “O slogan ‘A USP não vai parar’ é uma bravata produtivista. O mesmo produtivismo neoliberal que nos colocou nesta crise imensa em que estamos”

À revelia de qualquer planejamento ou debate mais amplo, a Reitoria da USP está encorajando a oferta de disciplinas a distância como forma de substituir as disciplinas presenciais durante a suspensão das aulas provocada pela epidemia Covid-19. O pressuposto é de que a USP não pode parar. Dentro da narrativa proposta, as ferramentas de ensino a distância (EaD) são o instrumento escolhido para que a universidade não fique estagnada perante a epidemia.
 
A ofensiva, iniciada pelos pró-reitores de Graduação e Pós-Graduação, foi coroada em 19/3 com um comunicado do próprio reitor Vahan Agopyan aos docentes da instituição, no qual ele proclama que as ações da Reitoria “estão norteadas por três premissas básicas”, a saber: “1. As atividades-fim de uma universidade pública de pesquisa não podem ser paralisadas, mesmo em momentos de grande comoção social”, “2. Temos que procurar minimizar os danos na formação dos nossos alunos”, pois “quase 90 mil jovens confiaram seu futuro a nós”, e “3. As colocações acima devem ser atendidas sem colocar a comunidade em risco, garantindo a segurança de todos os atores”.
 
Anunciadas as premissas, o reitor passa a reiterar aquilo que as pró-reitorias já vinham promovendo: exortação ao corpo docente para que improvise atividades não presenciais. “Sua colaboração é imprescindível para a consecução desses objetivos”, diz ele na sua mensagem aos docentes. “Pretendemos oferecer aos nossos alunos a oportunidade de continuar com as atividades discentes, mesmo com a suspensão das aulas presenciais. Pedimos aos responsáveis pelas disciplinas que proporcionem atividades extra-classe, que podem ser desde estudos dirigidos até o uso de ferramentas modernas de EaD. As Pró-Reitorias e diversas unidades estão franqueando o acesso a essas ferramentas aos professores interessados, incluindo seu treinamento”.
 
Durante o período de suspensão, informa a mensagem reitoral, tais atividades didáticas a distância “serão computadas na frequência dos estudantes e valerão créditos para eles e para os docentes”, podendo “substituir parcial ou totalmente as semanas de aulas presenciais não oferecidas” (destaques nossos). “Com isso, após o retorno das aulas presenciais, o período de reposição poderá ser curto, priorizando as atividades práticas e experimentais (destaques nossos). Logicamente, a qualidade é um atributo indiscutível para essas atividades”. Como é impossível saber-se, por ora, por quanto tempo as aulas permanecerão suspensas, cabe indagar: estará o reitor determinando, por conta própria, a duração da futura reposição?
 
Vahan encerrra seu texto solicitando “seu apoio, consideração e colaboração com a Diretoria a Comissão de Graduação e a de Pós-Graduação de sua unidade” para que a iniciativa seja viabilizada, “garantindo que nossos alunos consigam avançar nos estudos e superar este período conturbado”.
 
Assim, na mensagem o reitor reduz a realidade da Covid-19 a um sentimento — “grande comoção social”. A comoção social existe, mas é provocada por evidências como a rapidez do contágio e a letalidade do novo coronavírus em números absolutos, como se constata diariamente na Itália. As declarações de Vahan coincidem, aliás, com o momento em que já se registram as primeiras mortes pelo novo coronavírus em São Paulo e Rio de Janeiro, sendo esta a razão para que o período seja “conturbado”.

“Oportunidade para aperfeiçoamento do ensino não presencial”

O primeiro passo da gestão Vahan Agopyan-Antonio Hernandes para impulsionar o EaD como panaceia para manter a USP em funcionamento foi dado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG) em 16/3, em circular encaminhada aos presidentes de comissões de pós-graduação das unidades (CPGs) e coordenadores de programas.
 
No documento, a PRPG, tendo em vista “a suspensão das atividades presenciais nas disciplinas de pós-graduação” provocada pela pandemia Covid-19, “reitera que a modalidade de disciplinas não presenciais é prevista no regimento de pós-graduação da USP”, e que “as aprovações das disciplinas nesta modalidade, ou a migração de disciplinas já existentes, serão realizadas pelas Comissões Coordenadoras de Programas (CCPs), dando ciência às Comissões de Pós-Graduação (CPG) e à PRPG, para que possamos manter nos sítios eletrônicos respectivos todos os oferecimentos do semestre”.
 
Após recomendar que “os métodos de avaliação, o calendário de atividades e as plataformas utilizadas sejam explicitadas”, o pró-reitor de Pós-Graduação, Carlos Gilberto Carlotti, autor do comunicado, vai ao ponto, deixando claro que a PRPG pretende pegar carona na pandemia com a finalidade de expandir o ensino a distância (EaD) na USP: “Entendo ser esta situação uma oportunidade para aperfeiçoamento do ensino não presencial na Universidade assim como [para] incorporarmos novas ferramentas. Estimulo [sic] que, além das iniciativas da administração central, os programas realizem treinamento para seus orientadores com as plataformas existentes na USP, como o moodle (e-disciplinas), google classroom e o google meet”.
 
Nos dias seguintes, novos documentos das pró-reitorias e o relato de um diretor de unidade deixaram claro que a iniciativa de Carlotti não é isolada e que conta com o respaldo do reitor Vahan Agopyan. Mais ainda: expressa uma espécie de “agenda antiparalisia” que a Reitoria pretende adotar para mostrar que não foi posta de joelhos pela epidemia. Obviamente, como de costume, os colegiados não foram consultados, Adusp, Sintusp, DCE e respectivas categorias idem.
 
Em apresentação sem data à qual o Informativo Adusp teve acesso, denominada “PRPG e a Covid-2019 – Manutenção das Atividades com Qualidade”, os enunciados do comunicado de 16/3 ganham corpo. A lâmina intitulada “Disciplinas”, que repete o teor do comunicado (“Regimento da PG permite não presencial” etc.), tem como última frase “Efeito positivo quando da volta à normalidade”. A lâmina intitulada “Qualificações, Defesa de Teses e Dissertações” informa: “Regimento da PG permite não presencial e prorrogação. Acrescentamos o aluno e o orientador (presidente da banca) não presencial [sic]”. Arremata, em tom surreal: “Coordenador local – 1 membro da banca USP ou membro da CCP presente garantindo a sessão pública, responsável pelo preenchimento da Ata de Defesa” (destaques nossos).
 
A apresentação, que parece ter servido ao planejamento interno da pró-reitoria para o período de quarentena institucional, dedica uma de suas lâminas, “Administração”, à organização do pessoal. Nela se lê “50% dos servidores não presencial [sic]”, de modo que se pode concluir que metade dos funcionários lotados na PRPG continua trabalhando nas dependências do órgão, apesar da epidemia, embora “seguindo recomendações”. A menção a um “plano estratégico e contingenciamento” inclui três itens, um dos quais é “Planejamento para não presencial”! Ademais, prevê “solicitar plano semelhante para as CCPs e CPGs”!
 
A lâmina “Considerações finais” sugere que existe uma grande distância entre a burocracia da USP e o mundo real. Descreve, em estilo quase pueril, um verdadeiro conto de fadas, como se não estivéssemos entrando no olho do furacão de uma pandemia: “Servidores engajados. Presidentes de CPGs participativos. Orientadores e alunos colaborativos. Significativas atividades serão mantidas. Parabéns para a PG da USP!!!!!” (destaques nossos).

CPG-FE recusa conversão de disciplinas presenciais e suspende bancas

A Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Educação (CPG-FE), reunida em 19/3, deliberou pela suspensão de todas as bancas de defesa e qualificação agendadas a partir de 23/3, por entender que não há condições materiais para tanto, em razão da epidemia. Além disso, a CPG-FE não aceitou a conversão, proposta pela PRPG, de disciplinas presenciais em disciplinas a distância, considerando que “os/as estudantes se matricularam em disciplinas presenciais cuja natureza é bastante diversa de uma disciplina planejada para oferta a distância”, e que “nem todos/as os/as docentes e discentes dispõem de condições e acesso adequado à internet para participação online, assim como a sala pró-aluno permanecerá fechada”.
 
No tocante às bancas, a CPG-FE levou em conta os seguintes fatores:
 
“1. O tratamento isonômico a funcionários, docentes e estudantes, considerando que a efetivação de bancas presenciais ou a distância demanda presença de funcionários da Seção de Pós-Graduação, Stife [Seção Técnica de Informática], Audiovisual e Limpeza”;
“2. A inexistência de condições sanitárias adequadas para evitar contaminação pelo Covid-19”;
“3. A incerteza da disponibilidade de recursos e conhecimentos técnicos necessários para garantir a qualidade de arguições a distância, o que prejudicaria o componente formativo da experiência”; e
“4. A possibilidade de reajustes de prazos, indicada pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação, não comprometendo a conclusão dos cursos de mestrado e doutorado e assegurando a qualidade das defesas”.
 
Quanto à proposta da PRPG de conversão de disciplinas presenciaís na modalidade a distância, a CPG reconhece a importância da manutenção do vínculo entre alunos/as e professores/as, que no seu entender pode ser mantida “pelo contato frequente por e-mail, sugestões de leituras, atividades programadas, etc., sem que isso represente a substituição da carga horária presencial” (destaques nossos). Por último, a CPG reitera que está resguardado o direito de credenciamento de disciplinas a distância.
 
O Informativo Adusp pediu à professora Fabiana Jardim, presidente da Comissão de Pesquisa da FE, que comentasse as posições emanadas da Reitoria. “Em relação aos comunicados que nos têm sido enviados, e falando desde a posição de docente, confesso que sua reiteração e insistência são bastante incômodos e me fazem imaginar que a proposta de ‘seguir em frente’ esteja tendo muita resistência na comunidade uspiana”, diz ela. “Tenho inteira concordância quanto ao princípio de que precisamos manter vínculo com estudantes devido a todas as delicadezas e riscos que essa situação que vivemos gera, em especial devido à angústia e ao isolamento social. Mas a insistência em operar o lema ‘a USP não vai parar’ me parece absurda e fora da realidade, pois não contribui para dar aos fatos a dimensão que têm: diante de algo sem precedente, que pode gerar mortes em uma escala imensa, qual o sentido de insistir em operar como se nada estivesse, de fato, acontecendo?”.
 
Fabiana entende a narrativa reitoral “como uma espécie de ‘negacionismo ilustrado’, que se acomoda em sentir-se moralmente superior aos que negam a ciência e as evidências, mas que, do ponto de vista prático, responde com ações que justamente negam a dimensão dos acontecimentos”. A partir daí, faz questionamentos incisivos: “Depois de anos de precarização dos trabalhadores da limpeza — primeiro com a terceirização, depois com o corte de verbas para as unidades, que resultou na diminuição das equipes e no sobretrabalho às trabalhadoras remanescentes — como querer que confiemos que as condições sanitárias estarão garantidas? Se docentes e estudantes são dispensados das atividades presenciais, como entender que não haja uma discussão mais transparente e democrática sobre o que é, de fato, atividade essencial? Em nome de que colocar pessoas e suas vidas em risco?”
 
No contexto em que estamos, prossegue a docente da FE, essencial é apenas o que está ligado à reprodução e à produção da vida. “Se continuo propondo atividades didáticas a meus estudantes não é para cumprir um calendário — a catástrofe é por definição um corte no tempo do calendário; por ora aparece para nós como um tempo em suspenso, mas se trata de um corte e não sabemos o que perderemos pelo caminho. Continuo propondo atividades a eles para ajudá-los na produção de vida — encontro, acolhida, pensamento para além da angústia. É para estarmos juntos, não para nos mantermos sob a ilusão de que a vida segue; essa ilusão é perigosa e, nesse momento, produz morte”. 

CPG-FFLCH determina que bancas de defesa sejam 100% online

Em 20/3, a Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (CPG-FFLCH) emitiu comunicado no qual determina que “a partir do dia 23/3/2020 todas as defesas, sem exceção, serão feitas exclusivamente a distância com a participação de 100% dos membros e do candidato”. Orientação que difere tanto da recomendação da PRPG (defesa online, mas com um membro presencial), como da decisão firmada por sua congênere da FE de suspender todas as bancas.
 
De acordo com a CPG, a plataforma preferencial na FFLCH é o Whereby. “Os funcionários terão como ‘abrir’ as salas de suas residências, possibilitando o início da defesa. Outros meios como o Hangouts Meet do Google poderão ser utilizados. Todos os membros da banca devem utilizar a mesma plataforma”.
 
Ao final das arguições, explica a CPG, o aluno ficará offline para as deliberações da banca, mas “retornará online para a proclamação dos resultados”. A ata será assinada pelo presidente da banca “quando retornarem as atividades presenciais”.
 
O comunicado admite, como alternativa, o adiamento da defesa presencial: “O orientador que não se sentir à vontade com a sessão online deverá, desde já, cancelar a defesa agendada, que será remarcada oportunamente”. A Secretaria do Serviço de Pós-Graduação, esclarece, está conseguindo prorrogar o prazo de defesa até meados do mês de junho para os alunos que depositaram as teses entre janeiro e fevereiro de 2020 e tiverem suas defesas canceladas nesse período. “Havendo a necessidade de um prazo maior, receberemos os pedidos após a normalização dos trabalhos presenciais”.

Carta à Comissão de Graduação da FFLCH aponta riscos

Também a Pró-Reitoria de Graduação (PRG) emitiu comunicado no qual estabelece diretrizes gerais para atividades não presenciais. “Considerando a interrupção das aulas presenciais de graduação a partir de 17 de março, em virtude da pandemia Covid-19, a Pró-Reitoria de Graduação vem estimular às atividades didáticas a distância e o uso de todas as ferramentas de ensino disponíveis”, diz o documento a que tivemos acesso. “Essa determinação objetiva reduzir os impactos dos programas de ensino, ao mesmo tempo em que se atende às demandas de restrição de mobilidade e aglomeração relacionadas ao contingenciamento da transmissão do Covid-19. Para as tarefas extraclasse, o docente pode utilizar desde estudos dirigidos até o emprego de ferramentas de ensino a distância”.
 
“As atividades didáticas à distância durante o período de suspensão serão computadas na frequência dos estudantes e valerão créditos para os estudantes e para os docentes”, estipula a diretriz 9 do documento da PRG. “No período de reposição, após o retorno das aulas presenciais, deverão ser priorizadas as atividades práticas e experimentais”.
 
As recomendações da PRG receberam a oposição dos cursos de Licenciatura em Letras da FFLCH, que levantou, em ofício enviado à presidenta da Comissão de Graduação (CG) da unidade, uma série de objeções, que podem ser assim resumidas: os docentes não estão habituados a oferecer cursos a distância, e parte deles não é usuária de tecnologias de ensino; os alunos matricularam-se em um curso presencial e não a distância — e não necessariamente possuem os meios apropriados, inclusive acesso à Internet; muitas das disciplinas exigem contato e interação presenciais; o cenário criado pela Covid-19, com dramas que envolverão até mesmo a sobrevivência física dos alunos e suas famílias, não é adequado à ministração de disciplinas a distância. 
 
“Veja o item 9”, exemplifica a professora Vanessa Martins do Monte, coordenadora da Comissão Coordenadora dos Cursos (CoC) de Licenciatura em Letras e autora do ofício encaminhado à CG. “As disposições são muito lacunares. Como contaremos créditos? Cada docente decide? Se haverá reposição depois, como o item deixa entrever, por que isso não fica explícito no restante do documento? Atribuir créditos às atividades sem estabelecer critérios claros para isso mostra que estão querendo resolver tudo a toque de caixa”. 
 
O teor do ofício, frisa Vanessa, reflete o consenso do grupo de professores que atuam na Licenciatura em Letras. “Transformar todos os cursos em EaD do dia para a noite seria uma temeridade”, diz a coordenadora. Ao elaborar o documento, ela levou em conta questionário que enviou a seus alunos calouros do curso de Letras, relativo à eventual participação deles em aulas não presenciais. “Apenas 81 responderam à pesquisa, de um universo de quase 120 alunos. Isso já parece indicar bastante sobre o parco acesso deles à Internet e à sua pouca familiaridade com as ferramentas institucionais”, explica. Também apoiou-se parcialmente em texto da professora Rebecca Barrett-Fox, da Universidade Estadual de Arkansas

“Reitor enfatizou que atividades de ensino não sejam interrompidas”

Outros aspectos da narrativa criada pela Reitoria podem ser encontradas em relato do diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), Luis Carlos Ferreira, em mensagem encaminhada aos funcionários da unidade sobre a “reunião de dirigentes” realizada em 17/3 (e citada por Vahan na sua mensagem aos docentes). “Retornei há pouco da reunião com o reitor e pró-reitores sobre posicionamentos relacionados à epidemia do coronavírus”, principia Ferreira. “O reitor enfatizou sua posição em defesa de que a universidade não paralise totalmente suas atividades. Temos um papel importante junto à sociedade e, mesmo nas atuais restrições de mobilidade, devemos mostrar a todos que estamos contribuindo para a superação da crise”. 
 
Ainda segundo o relato do diretor do ICB, as “atividades básicas acadêmicas, administrativas e financeiras devem ter continuidade, mas em novo formato” de modo a reduzir os riscos de contaminação. “Ele [o reitor] enfatizou que as atividades de ensino não sejam interrompidas e que alunos de graduação e pós-gradução possam continuar sua formação por meio de disciplinas à distância ou por outros mecanismos (leitura de material didático, artigos, elaboração de trabalhos, etc). Cabe a cada docente, em comum acordo com as respectivas comissões de graduação, dar essa continuidade” (destaques nossos). 
 
Ferreira reproduziu, na sua mensagem, as exposições feitas na reunião por cada um dos pró-reitores. Três deles enfatizaram o ensino não presencial, como se constata no resumo a seguir. 
 
Edmund Baracat (Graduação): “Recomendação que as atividades de ensino à distância sejam aplicadas a todos os alunos de graduação, seja por meio de disciplinas montadas em plataformas já disponíveis (e-disciplinas) seja por meio de trabalhos e leitura de material enviado pelos docentes. A princípio não se planeja alterar o calendário escolar e, portanto, todos os docentes deverão se engajar para que os alunos mantenham-se envolvidos em atividades relacionadas às disciplinas em curso. A situação poderá mudar em função dos acontecimentos nas próximas duas semanas. As aulas práticas deverão ser repostas quando a crise terminar mas, sempre que for possível, usar recursos que permitam, pelo menos em parte, substituí-las por atividades à distância”. 
 
Maria Aparecida Machado (Cultura e Extensão Universitária): “Ampliação do treinamento de docentes em montagem de disciplinas à distância. Contratação de novas ferramentas para a realização de salas de aula virtuais”. 
 
Carlos Carlotti (Pós-Graduação): “Enfatizou que o atual regimento da PG permite atividades não presenciais. Caberá a cada CPG definir o melhor uso de ferramentas para que disciplinas possam ser ministradas à distância. Destacou a importância do treinamento de docentes para uso das inúmeras ferramentas hoje disponíveis para a montagem de aulas à distância”.
 
Ainda conforme o relato, Sylvio Canutto, da Pró-Reitoria de Pesquisa, foi o único pró-reitor a não falar em EaD, preferindo ater-se à questão dos laboratórios: “Recomendação para redução no número de pessoas presentes nos laboratórios de pesquisa (50% ou mais em determinado momento). Recomendação para que se evite novos experimentos até que a situação se normalize. Exceção para pesquisas diretamente relacionadas aos coronavírus”. 

“Coronavírus pode testar estratégias de dispensa de professores”

“Todos aqueles que sonham com uma universidade sem professores, que o mesmo é dizer, uma universidade sem pensamento, têm na pandemia do Coronavírus a possibilidade de radicalizar esta tese”, observou em artigo sobre a Covid-19 o professor Moisés de Lemos Martins, da Universidade do Minho. “Porque o Coronavírus pode funcionar como um laboratório, onde sejam testadas estratégias atrevidas de dispensa dos professores, precarizando-os, com contratos a termo, e mesmo uberizando-os”. E acrescenta: “aquilo que ocorre, hoje, por razões de emergência, pode converter-se amanhã no quotidiano normalizado dos professores”.
 
Advertência pertinente, em especial quando se sabe que o MEC acaba de publicar a Portaria 343, de 17/3, por meio da qual o ministro Abraham Weintraub autoriza, “em caráter excepcional, a substituição das disciplinas presenciais, em andamento, por aulas que utilizem meios e tecnologias de informação e comunicação, nos limites estabelecidos pela legislação em vigor, por instituição de educação superior integrante do sistema federal de ensino”.
 
A propósito das pressões da Reitoria, a Diretoria da Adusp emitiu a nota intitulada “O momento exige máxima prudência para a preservação da vida”, na qual registra que “nenhuma e nenhum docente pode ser obrigado ou constrangido a ministrar suas disciplinas a distância” e que os cursos, na sua grande maioria, “foram pensados para serem presenciais e a universidade não tem o direito de exigir uma mudança nessa perspectiva, em especial em um momento de tantas incertezas”. Diz ainda a nota: “A preocupação obsessiva, por parte da Reitoria da USP, com a manutenção do semestre como estava planejado expressa uma completa falta de sensibilidade em relação a uma situação inédita e desconhecida”. 
 
O professor Antonio Almeida, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), expressa concordância com o teor da manifestação da Diretoria da Adusp: “Aprovei, acho que o slogan ‘A USP não vai parar’ é uma bravata produtivista. O mesmo produtivismo neoliberal que nos colocou nesta crise imensa em que estamos. No caso da pós-graduação, manter os prazos é algo insano. Meus alunos têm trabalhos de campo, entrevistando pessoas em bairros pobres. Como fazer isto neste clima de epidemia?”. 
 
O professor Eduardo Morettin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA), cumprimentou a Adusp pela nota: “Parabéns! Estamos sendo bombardeados com mensagens das prós-reitorias sobre a continuidade do semestre. Eu acrescentaria a demanda da Pró-Reitoria da Pós-Graduação de que as bancas se realizem com a presença de um membro da banca ou da Comissão Coordenadora do Programa no departamento/unidade, ‘respeitando-se as recomendações das autoridades sanitárias vigentes’. Quais seriam as medidas de segurança a serem adotadas de maneira prévia pela USP no que diz respeito aos espaços físicos? Os prédios, por exemplo, estão sendo higienizados? É um risco hoje exigir o comparecimento de alunxs, funcionárixs e docentes na unidade quando a recomendação é ‘fique em casa’.
 
Considero o EaD, no formato que está sendo proposto, um instrumento que acentua as desigualdades (nossa comunidade tem acesso à banda larga e/ou computadores?), sem contar que os cursos foram pensados para serem realizados no formato presencial”.
 
A atitude da Reitoria é de insensibilidade frente à grande crise humanitária que se aproxima, indica o professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp. “Levando-se em conta a pressão das pró-reitorias e de várias direções de unidades por aulas online, a afirmação do comunicado do reitor de que a reposição poderá ser curta soa como mais uma pressão para que os docentes aceitem a política de que ‘a USP não vai parar’. A USP precisa de um plano de contigenciamento e o momento exige medidas prudentes”. 
 
Ainda segundo o presidente da Adusp, a conversão de cursos presenciais em online, “sem preparação nenhuma, independentemente da boa vontade dos docentes, discentes e funcionários, não vai dar certo, pois não existem condições sociais para a manutenção da dedicação as atividades didáticas nas próximas semanas, quando estaremos no meio de uma tragédia de proporções inimagináveis”. O mínimo que se poderia esperar, diz Ricupero, seriam a suspensão do semestre e o estudo das possibilidades disponíveis, ao mesmo tempo que se avalia a evolução da pandemia. “As únicas prioridades que a USP deveria ter hoje são a proteção de sua comunidade e o auxílio ao esforço geral de conter ou minimizar a epidemia”.