A Diretoria da Adusp compartilha e se solidariza com os sentimentos de insegurança e de incerteza, gerados pela pandemia causada pelo novo coronavírus, vivenciados por todas as pessoas, incluindo docentes, estudantes de graduação e de pós-graduação, e funcionárias/os técnico-administrativos estatutários, celetistas e terceirizados.

A situação atual pode trazer prejuízos à saúde física e mental das pessoas e, não raro, pode comprometer a atuação acadêmica e profissional. Tais prejuízos precisam ser evitados a todo custo e espera-se que a USP cuide para que isso não aconteça. A administração universitária tem a obrigação depromover tratamento isonômico de todas/os que garantem o funcionamento da instituição, o que não tem ocorrido.

No que se refere ao ensino, tanto de graduação como de pós-graduação, temos visto muitas mensagens propondo o uso de ferramentas ou plataformas virtuais para continuar seu desenvolvimento neste semestre letivo. Algumas mensagens oficiais induzem a adoção de tal alternativa.

A Diretoria da Adusp vem registrar que nenhuma e nenhum docente pode ser obrigado ou constrangido a ministrar suas disciplinas a distância. A grande maioria dos cursos foram pensados para serem presenciais e a universidade não tem o direito de exigir uma mudança nessa perspectiva, em especial em um momento de tantas incertezas.

Importante apontar que passar a ministrar as disciplinas a distância gera preocupações de várias ordens:

  1. É razoável supor que a imensa maioria das/os docentes não tenha formação para dar aulas a distância, nunca tenha participado de um curso nesses moldes, seja como docente ou estudante, tenha pouca familiaridade ou habilidade com as plataformas para esse fim e, sobretudo, talvez nunca tenha refletido de modo mais detido sobre as diferenças pedagógicas entre um curso presencial e outro  a distância, seus desafios específicos e suas estratégias.
  2. O semestre está apenas iniciando e não se sabe por quanto tempo as aulas estarão suspensas, mas isso não nos autoriza, seja no plano individual ou no institucional, a aderir às plataformas virtuais de imediato, de modo improvisado, sob pena de transformar parte substancial das disciplinas e, consequentemente, dos cursos, em ensino precarizado, pois ensino a distância pressupõe, minimamente, planejamento pedagógico específico e recursos para sua plena execução.
  3. Caso tal decisão seja tomada nas instâncias colegiadas da universidade, tendência vigente, contribuiríamos para potencializar a desigualdade entre as/os estudantes. Estudantes de cursos presenciais na USP têm igual acesso aos materiais e às aulas. Se migrarmos para plataformas virtuais contribuiremos para colocar alguns estudantes em situação de privilégio e outros em situação de precariedade. Pois há estudantes que não têm acesso à banda larga em suas casas e muitos acessam a Internet em lugares públicos que, em tempos de quarentena, provavelmente estarão fechados. Podemos contribuir para ampliar a desigualdade entre estudantes? Deixaremos voluntariamente algumas e alguns para trás?
  4. Defendemos uma perspectiva de proteção generalizada para toda a comunidade universitária e, portanto, não podemos concordar em manter presencialmente na USP funcionárias/os responsáveis pelo suporte técnico e apoio à utilização dos recursos tecnológicos propostos.
  5. É possível supor que nos meses que se seguem, docentes, discentes e funcionárias/os não tenham condições efetivas de participar dessas atividades por estarem sofrendo, direta ou indiretamente, com problemas de saúde e com toda sorte de dificuldades práticas relacionadas a necessidades básicas cotidianas.

A USP deve garantir a construção de um calendário de reposição que contemple a diversidade de estratégias que surgirão durante o período de suspensão de atividades. Tal construção deverá ser ampla e democrática, admitindo-se a participação de todos os setores envolvidos, incluindo estudantes, e considerando, para além da universidade, todos os cenários, locais, nacionais e internacionais. As decisões da universidade devem pautar-se pela preservação da vida e do bem-estar coletivo, da democracia e do respeito aos direitos das pessoas.

A preocupação obsessiva, por parte da Reitoria da USP, com a manutenção do semestre como estava planejado expressa uma completa falta de sensibilidade em relação a uma situação inédita e desconhecida de todas/os. Há que se considerar que talvez, em um futuro próximo, parte da comunidade universitária esteja contagiada ou com pessoas doentes em casa. É necessário que prevaleça a serenidade para, quando possível, viabilizar a preparação da retomada das atividades com um calendário comum que garanta a qualidade das atividades-fim na USP.

Em resumo: a tentativa da Reitoria de impor unilateralmente e de modo açodado a adesão indiscriminada a atividades não presenciais desorganizará por completo a retomada das aulas presenciais, imporá um tratamento desigual e excludente às/aos estudantes, e poderá, eventualmente, legitimar a disseminação do ensino não presencial na universidade, inclusive em situações de normalidade.

A USP precisa agir com sensatez, de modo a cuidar das pessoas, evitando submetê-las a estresses laborais e emocionais num momento que exige precaução, prudência e, sobretudo, a preservação da vida!