Organizada pelo Coletivo USP pela Democracia, uma aula aberta reuniu milhares de pessoas no vão dos prédios da História e Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP nesta segunda-feira (15/8).

Fotos: Daniel Garcia

Erminia Maricato abordou desafios da realidade urbana do país
Marilena Chauí defendeu a "reinstitucionalização da República"
"Não nos peçam paciência. Para nós, é tudo urgente", disse Adriana Alves

A aula aberta teve a participação das professoras Marilena Chauí (FFLCH), Erminia Maricato (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo-FAU) e Adriana Alves, do Instituto de Geociências (IGc) e diretora de Mulheres, Relações Étnico-Raciais e Diversidades da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento da USP.

Também participaram o ex-prefeito Fernando Haddad, docente licenciado da FFLCH e candidato do PT ao governo de São Paulo, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT à Presidência da República.

Por medida de segurança, o entorno do prédio de História e Geografia foi inteiramente cercado por tapumes e grades e as aulas foram suspensas na segunda-feira. O acesso do público se deu por apenas uma escada da avenida Professor Luciano Gualberto, e todas as pessoas passaram por revista organizada pela Polícia Federal.

Além da participação de estudantes e representantes de movimentos sociais, compareceram ao evento muita(o)s política(o)s, com mandato ou candidata(o)s na eleição de outubro.

Representantes de várias entidades estudantis, especialmente centros acadêmicos da USP, se manifestaram a partir das 16 h, antes do início da aula marcada para às 17 h. A presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bruna Brelaz, e o presidente da Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG), Vinícius Soares, estiveram entre a(o)s oradora(e)s.

A condução ficou a cargo da professora Sonia Kruppa, da Faculdade de Educação (FE), de Merllin de Souza, doutoranda da Faculdade de Medicina (FMUSP), e de Moisés da Rocha, produtor e apresentador da Rádio USP.

O Coletivo USP pela Democracia lançou um manifesto intitulado “A democracia no Brasil corre risco. Basta”. O texto afirma que “é imperativo que a Universidade pública reafirme o seu compromisso com as políticas que enfrentam a desigualdade social e as discriminações, na defesa do ensino público, gratuito e de qualidade, assim como na manutenção dos programas de permanência e de ação afirmativa sócio-étnica e racial”.

“A democratização dos direitos implica, além disso, o fortalecimento da Educação Básica pública, que assegure a apropriação do conhecimento e o acesso de todos à Universidade”, prossegue o documento. “Nossa ação acadêmica deve se voltar ainda ao direito à cidade, à saúde, à moradia, à segurança pública, ao trabalho digno, à cultura, ao lazer – ao bem viver, em suma, fundamentos de uma sociedade plenamente democrática.”

“A Universidade abriga, como sabido, diversas tendências ideológicas e político-partidárias no seu interior. Mas o momento exige, de todas e todos, a grandeza de reconhecer, como dever moral e político inadiável, o agir em conjunto pela reconstrução da cidadania brasileira”, conclui o manifesto, que segue aberto a adesões.

Outro documento apresentado na ocasião foi um manifesto assinado, inicialmente, por 118 ex-dirigentes –  e dirigentes eleito(a)s mas não empossado(a)s  – de universidades federais, que teve alguns trechos lidos pela ex-reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Soraya Smaili.

A carta menciona “a atmosfera de ameaças que estamos vivendo diante de um contexto de ataques à nossa democracia e ao que conquistamos como Estado Democrático de Direito” e defende o papel das universidades públicas como “instituições voltadas para a construção de uma nação forte, democrática e soberana”, as quais devem ser fortalecidas em seu “caráter público, gratuito, laico, autônomo e de elevada qualidade acadêmica”.

Covardia produz a crueldade”, diz Marilena Chauí

A professora Marilena Chauí descreveu um cenário de fome, desemprego e de mais de 680 mil mortes pela Covid-19 no país. “Isso se chama crueldade”, afirmou. “Um filósofo, há muito tempo, escreveu que a covardia é a mãe da crueldade. O covarde, como tem medo de tudo, precisa sem cessar exibir signos de sinais de força. Armas, milícias, mortes. A covardia produz a crueldade.”

Na avaliação da professora, é necessário “recuperar a República, reinstitucionalizar a República, reinstitucionalizar todas as áreas do Poder Executivo, refazer todo o campo dos direitos sociais” e encontrar um caminho pelo qual a reforma política faça do Legislativo um poder “sem compra e venda”.

“É preciso que haja uma reinstitucionalização que recupere a independência do Judiciário, que desde a Lava Jato se tornou uma questão de luta para nós. E preciso refazer o Brasil”, afirmou.

A professora concluiu sua manifestação citando o filósofo Étienne de La Boétie, que aos 17 anos de idade escreveu o Discurso da Servidão Voluntária . “Ele perguntava: como é possível que os seres humanos que nasceram para a liberdade e a vida em comum tenham aceitado a tirania?”

De La Boétie dizia que o corpo físico do tirano é ampliado pelo corpo político, que hoje chamamos de Estado. “Os membros do corpo político somos nós, povos insensatos que damos a ele os nossos olhos para que nos espione, nossas mãos para que nos esgane, nossos pés para que nos pisoteie, nossos filhos, nossa honra e a nossa vida. Somos nós que fazemos o poder do tirano porque embarcamos na servidão voluntária. Agora, nunca mais servidão voluntária!”, afirmou.

Conhecimento deve servir ao interesse público e ao bem comum

A professora Erminia Maricato ressaltou que nos últimos anos a universidade pública passou a incluir parte da população que a sustentava, mas não tinha acesso a ela. “Em quarenta anos em que dei aula nesta universidade, tive um colega negro e um aluno negro. Agora são oitenta na Faculdade de Arquitetura”, enfatizou.

Maricato defendeu o papel da extensão, “que vai fazer com que a universidade mergulhe na solução dos problemas concretos que vive o nosso povo”.

Na avaliação da professora, é preciso trazer a questão urbana para a agenda política nacional, porque mais de 80% da população vive em cidades, quando no início do século 20 esse percentual era de apenas 10%.

“Houve um processo avassalador de urbanização que concentra 30% da população em algumas metrópoles. E de que jeito essa população vive? Sem Estado, sem mercado formal, sem esgoto. Cem milhões de brasileiros não têm coleta de esgoto, e 40% do que é coletado não é tratado”, afirmou. Essa realidade é “predatória socialmente em relação à saúde das pessoas e também predatória ambientalmente.”

Viver sem Estado, considera a professora, redunda na existência de periferias violentas, dominadas pelo crime organizado, “por igrejas que fazem parte de uma verdadeira máfia” e pelas milícias, “que têm na produção de moradias um grande negócio”.

Maricato concluiu afirmando que o conhecimento histórico, científico e técnico precisa se voltar para o bem comum e o interesse público. “Mãos à obra!”, conclamou.

A professora Adriana Alves apontou as discrepâncias entre a proporção de negros e negras na sociedade brasileira e sua representação nas esferas de poder e da academia.

“É hora dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário seguirem o mesmo caminho”, disse, referindo-se às políticas de ação afirmativa adotadas nas universidades públicas. “Por favor, não nos peçam mais para silenciar, não nos peçam mais para termos paciência. Para nós, é tudo urgente.”

A professora afirmou que os próximos anos serão “de redemocratização” e “reconstrução da nossa política” e conclamou a(o)s futura(o)s governantes a compor equipes que representem de fato “a diversidade de corpos, mentes e realidades do Brasil”.

“Que não cometamos os mesmos erros dos últimos anos, sob pena de perdermos aquilo que nos é mais caro: o Estado Democrático de Direito. Como muito bem nos lembra a campanha da Coalizão Negra por Direitos: enquanto houver racismo, não haverá democracia”, concluiu.

Expansão do ensino superior e adoção das cotas

Inclusão, adoção de cotas e criação de novas instituições federais de ensino superior foram ênfases na fala de vária(o)s oradora(e)s, incluindo as de Haddad e Lula, no final da aula, que se estendeu até por volta de 20h30min.

Haddad lembrou que, como ministro da Educação (2005-2012), teve “a felicidade de acompanhar o Lula pelo país inaugurando universidades e institutos federais” em cidades do interior. “Era uma coisa muito bonita de ver o brilho nos olhos das pessoas quando a gente ia numa cidade de cem mil ou duzentos mil habitantes levar oportunidades para o filho da classe trabalhadora”, afirmou.

Haddad também se referiu ao processo de inclusão na USP, que “sempre foi uma instituição muito elitista”. “Eu não tinha um colega negro na Faculdade de Direito, e hoje vejo até esta instituição se transformar. Mais lentamente do que deveria, mas certamente seguindo o exemplo do governo federal sob a batuta do presidente Lula”, disse.

Num pronunciamento de cerca de 45 minutos, sem poder se dizer candidato à Presidência – pois a campanha só começou oficialmente nesta terça-feira (16/8) –, Lula comparou indicadores sociais e econômicos de seu período de governo aos atuais. Em outubro, afirmou, será “nossa responsabilidade dizer que país a gente quer”.

O ex-presidente mencionou vária(o)s docentes da USP que o acompanharam em diferentes momentos de sua trajetória política desde a década de 1970.

Lula também citou muitos indicadores e programas na área da educação – por exemplo, que o Brasil chegou à décima-terceira posição entre os países que mais publicam artigos científicos no mundo. “Antes de nós entrarmos no governo, universidade era coisa de rico. Não tinha negro, não tinha gente da periferia. Hoje nós percebemos que mudou a cor da universidade e precisa mudar mais, porque é esse o país real, o país que nós temos que construir, cada vez mais diversidade na universidade e na cultura”, afirmou.

Diretoria da Adusp se pronuncia sobre sua participação no evento

A Diretoria da Adusp, na pessoa de sua presidenta, Michele Schultz, recebeu por e-mail, no dia 11 de agosto, convite para participar da “Aula Aberta – Universidade Pública e Democracia, ministrada pelas professoras Adriana Alves, Ermínia Maricato e Marilena de Souza Chaui, juntamente com os professores Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad”.
O convite dizia que “ O Coletivo USP Pela Democracia formou-se há três meses, para propor a vinda de Lula e Haddad ao campus Butantã-USP, num momento decisivo para a democracia no Brasil. A visita ocorrerá no próximo dia 15 de agosto às 17h, no prédio da História e Geografia da FFLCH. Devido aos procedimentos de segurança, recomendamos que cheguem às 16h. A entrada dos convidados será pela Travessa 12 da Av. Linneu Prestes ” .

Prontamente, a Diretoria passou a considerar o convite e a debater sobre sua presença no evento a partir de posição tomada em maio último, expressa na nota intitulada “#BolsonaroNuncaMais” .

Considerando o posicionamento assumido sobre as eleições até este momento, a Diretoria declinou do convite e se manifesta por meio da nota a seguir.

Nota da Diretoria da Adusp sobre o ato realizado na FFLCH em 15 de agosto de 2022

A Adusp tem posição histórica de não assumir apoio a quaisquer candidaturas, prezando pela autonomia e independência da entidade, e respeitando a pluralidade da categoria a qual representamos.

Todavia, é importante registrar que a entidade, desde 2018, posiciona-se pelo Ele Não e pelo Fora Bolsonaro, e tem estado em todas as manifestações e atos que denunciam as arbitrariedades do atual governo. Enfaticamente, a Adusp não se eximirá, como não o fez ao longo de sua história, de defender e lutar pela democracia, apoiando iniciativas que contribuam para a mobilização dos diversos setores da universidade e da sociedade na defesa das liberdades democráticas, do processo eleitoral e do Estado Democrático de Direito.

Lutamos irrestrita e persistentemente pela defesa da democracia em todos os âmbitos de governo e administrações, inclusive aquela da USP. Acreditamos que a democratização é o caminho para que as minorias se façam ouvir e para a retomada da conquista por direitos.

Considerando que a atividade proposta teve forte caráter de apoio às candidaturas de Lula e de Haddad, a Diretoria da Adusp entendeu ser mais adequado, neste momento, não se fazer representar enquanto tal.

Continuaremos na luta para DERROTAR BOLSONARO NAS RUAS E NAS URNAS!

 

Diretoria da Adusp

São Paulo, 17 de agosto de 2022

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