Nesta segunda-feira (2/5), o cineasta João Wainer publicou artigo na Folha de S. Paulo em que, ao manifestar sua preocupação com a aguda crise política nacional e as crescentes ameaças às liberdades democráticas — “pessoas nas ruas pedindo a volta da ditadura, o fechamento do Congresso e o fim do STF”, “jovens pretos e pobres continuam sendo assassinados, igualzinho a todos os dias no genocídio gradativo que a maioria prefere não ver”, “garimpeiros estupram meninas indígenas e a própria floresta sob aplausos de um presidente que já deixou bem claro para quem quiser ouvir que vai dar um golpe assim que perder a eleição” —, evocou um episódio de sua infância, relacionado a uma publicação da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) que se tornaria histórica.
 
“Em dezembro de 1978, meu avô Samuel Wainer escreveu nesta Folha uma coluna sobre um livro que considerou o mais importante daquele ano. A obra, publicada pela Adusp sob o título de O Livro Negro da USP, falava sobre o controle ideológico nas universidades durante a ditadura e seus efeitos nefastos”, escreveu João. “Por não ser uma edição comercial, ele pediu ao amigo Perseu Abramo três cópias do livro, para presentear a cada um de seus três netos, todos ainda muito pequenos, e escreveu uma dedicatória para cada um”.
 
O Livro Negro da USP tinha a finalidade de denunciar e deixar registradas as perseguições da Ditadura Militar (1964-1985) ao corpo docente da universidade. Em 2004, decorridos quarenta anos do golpe militar, a Adusp lançou uma edição revista e ampliada desse dossiê, sob o título O Controle Ideológico na USP (1964-1978), que descarta conotações de discriminação racial inadvertidamente suscitadas pelo título original. Uma edição conjunta com a Editora da USP (Edusp) veio à luz em 2018, por ocasião do cinquentenário do Ato Institucional nº 5 (AI-5, de 1968).
 
No artigo publicado pela Folha, o cineasta reproduz a dedicatória do avô, célebre jornalista, para quem “lutar pela liberdade é lutar pela coisa mais importante da vida do homem”, e relata o sentimento por ela provocado: “Me lembro do alívio ao ler isso pela primeira vez, muitos anos atrás, por sentir que finalmente vivíamos em um país livre graças à luta de muitos que defenderam com unhas e dentes a liberdade e a democracia durante o regime militar para que pudéssemos chegar até aqui. Com a democracia garantida, sentia que a luta da minha geração deveria ser pela inclusão social, distribuição de renda e igualdade de oportunidades, o que não é pouca coisa”.
 
João, que abre o artigo saudando o nascimento de sua terceira filha, diz ainda que, ao reler a dedicatória de Samuel 44 anos depois, nunca imaginou que “tudo o que foi conquistado” pela geração do seu avô estivesse mais uma vez sob ameaça. “Não é apenas o fato de [Jair] Bolsonaro ser presidente, mas sim saber que minha filha nasce em um país cujo povo é capaz de eleger um fascista depois de tudo o que passamos”.

Além de perseguir e espionar, Ditadura Militar prendeu e assassinou opositores

Não bastassem as perseguições de natureza funcional, administrativa e legal desfechadas contra docentes, estudantes e funcionários(as) técnico-administrativos(as), devidamente registradas no dossiê de 1978 da Adusp, a Ditadura Militar espionou, prendeu e torturou grande número de estudantes — e também alguns docentes — por envolvimento, real ou suposto, com grupos clandestinos de oposição ao regime.
 
Quarenta e sete pessoas vinculadas à USP foram assassinadas pela Ditadura Militar, entre elas cinco docentes: Ana Rosa Kucinski (Instituto de Química), Heleny Guariba (Escola de Artes Dramáticas), Iara Iavelberg (Instituto de Psicologia), Norberto Nehring (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) e Vladimir Herzog (Escola de Comunicações e Artes). Heleny e Ana Rosa permanecem desaparecidas desde 12 de junho de 1971 e 22 de abril de 1974 respectivamente.
 
Ana Rosa Kucinski chegou a ser demitida pela Congregação do IQ, em outubro de 1975, por “abandono de função”, quando já havia sido assassinada por agentes do I Exército (Rio de Janeiro), provavelmente na chamada “Casa da Morte” de Petrópolis. Em solenidade realizada em 22 de abril de 2014 no IQ, exatos quarenta anos após seu sequestro e desaparecimento, Luis Henrique Catalani, diretor da unidade, descerrou um memorial em homenagem à professora, anunciou que a Congregação decidira, dias antes, anular a demissão, e pediu desculpas à família.
 
A Revista Adusp publicou extensos dossiês a respeito dos crimes cometidos pela Ditadura Militar na USP em 2004 (edição 33) e 2012 (edição 53). Em 2018 a Comissão da Verdade da USP publicou seu relatório final. Uma esclarecedora entrevista com a professora Janice Theodoro, que presidiu os trabalhos da comissão, está disponível aqui.
 
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