Docente do Instituto de Ciências Biomédicas rebate acusações e diz ser vítima de “tentativa de assassinato moral”.Centro Acadêmico Rosalind Franklin (CARF) repudia ações que qualifica como negacionistas, bem como a decisão do CTA de autorizar seu afastamento por dois anos. Associação dos Pós-Graduandos da unidade critica a autorização de afastamento — aprovada por margem apertada de 8 x 6, “para realização de atividades confusas no exterior sem perda de vencimento” — e pede que seja revista. Paralelamente, Zanotto envolve-se em áspera polêmica com Sean Purdy, professor da FFLCH

Foto: Leonor Calasans/IEA-USP

Professor Paolo Zanotto

Na terça-feira da semana passada (22/6), o professor Paolo Marinho de Andrade Zanotto, docente do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, teve seu nome incluído na lista de pessoas que passarão de testemunhas a investigadas na CPI da Pandemia no Senado. O sigilo de suas comunicações telefônicas e telemáticas já havia sido quebrado pela CPI.

No dia 4/6, um vídeo publicado pelo site Metrópoles mostrou a participação de Zanotto numa reunião realizada em Brasília, em setembro do ano passado, com a presença de Jair Bolsonaro, do ex-ministro e deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e da médica Nise Yamaguchi, entre outros, para a discussão de estratégias de combate à pandemia da Covid-19. Na avaliação de integrantes da CPI, o grupo constituiria um “ministério paralelo” responsável por orientar as ações do governo em relação à pandemia.

“Acho que minha participação [na CPI] é importante para esclarecer a natureza de minha consultoria, demandada pelo assessor científico do Executivo (parte de minhas funções de extensão, já cumpridas para governos anteriores) e as distorções nas narrativas divulgadas pelo Metrópoles, que falsificou informação, fazendo uso inclusive de um suposto laudo pericial fabricado pelo professor Nelson Massini [docente de Medicina Legal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro]. Como isso afeta diretamente o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério de Saúde, esse incidente está sendo investigado pelo Ministério da Saúde etc.”, respondeu o docente a questionamento enviado por e-mail pelo Informativo Adusp.

Em entrevista à Rádio Bandeirantes no dia 15/6, Zanotto afirmou que se afastou “totalmente” do governo porque suas recomendações — entre elas, a de organizar um “sistema de avaliação de altíssima qualidade no sentido de defender o povo brasileiro para saber quais eram as melhores plataformas vacinais” — “não tinham sido ouvidas”.

Nesta terça (29/6), o Brasil já ultrapassara a marca de 514 mil mortes causadas pela Covid-19, mantendo-se como o segundo país com maior número de óbitos provocados pela doença, atrás apenas dos Estados Unidos (604 mil).

Não houve “qualquer impedimento” para negar pedido, considera Diretoria do ICB

No dia 9/6, pouco depois da publicação do vídeo da reunião, o Conselho Técnico-Administrativo (CTA) do ICB aprovou pedido de afastamento de Zanotto para atuar no British Columbia Institute of Technology (BCIT), no Canadá. A própria instituição canadense publicou em seu Twitter que Zanotto não seria “professor adjunto”, mas realizaria “uma visita acadêmica de curto prazo, não remunerada e sem ensino, referente a pesquisas relacionadas à purificação de água”.Questionada a respeito, a Diretoria do ICB declarou ao Informativo Adusp que o docente solicitou um “estágio sabático como professor visitante”. Ao Informativo Adusp, Zanotto diz tratar-se de período “sabático”.

A Diretoria do ICB, em resposta a outro questionamento do Informativo Adusp, reiterou a nota anterior e sustentou que na decisão do CTA “não houve qualquer impedimento legal ou técnico que justificasse a negação do pedido”, elencando uma série de dispositivos estatutários que convalidam a aprovação. “O afastamento, sem prejuízo dos vencimentos, está amparado pelo inciso IV, do artigo 40, do Estatuto do Docente da USP (Resolução USP 7.271)”, assim como o afastamento por no máximo dois anos (artigo 41), a inexistência de contrapartida financeira por parte da instituição anfitriã (artigo 42), documentação em conformidade ao exigido (artigo 43) e assinatura, pelo professor, de termo de compromisso “que o obrigará a permanecer na Universidade de São Paulo após seu retorno por prazo não inferior ao do afastamento” (artigo 46).

“O Metrópoles provocou uma enxurrada de mensagens no Twitter do BCIT, com uma grande quantidade delas incluindo ‘replying to @caio_barbieri’ [Caio Barbieri, repórter do site]. Muitas destas mensagens dizem que a instituição não poderia receber um ‘genocida’”, ressaltou Zanotto ao Informativo Adusp. “Isso causou uma situação constrangedora para a instituição canadense, que havia me enviado uma carta convite para exercer a função de professor visitante (não adjunto, como dito pelo Metrópoles) no dia 12 de maio, em função de trabalhos sendo feitos com pessoal de lá desde o começo do ano.”

“A informação sobre meu pedido de afastamento na USP, posterior ao convite, vazou do nosso conselho departamental, levando o chefe de nosso departamento a fazer uma declaração oficial de repúdio. O Metrópoles usou essa informação vazada para construir a narrativa falsa de que eu estava tentando fugir para o Canadá para evitar a CPI”, prossegue.

A declaração à qual Zanotto se refere foi divulgada no dia 15/6 pelo professor Edison Luiz Durigon, chefe do Departamento de Microbiologia do ICB. Nela, Durigon afirma que o departamento “não encaminhou nenhuma nota sobre o afastamento do professor Paolo Zanotto como professor visitante no BCIT para a coluna Janela Indiscreta [assinada por Barbieri] do Metrópoles no dia 7/6 de 2021”. “As informações divulgadas eram oficiais e estavam em tramitação na instituição, não podendo ser divulgadas antes da reunião do CTA em 9/6/21. Essa divulgação foi um ato irresponsável, isolado e não representa o Instituto e o Departamento”, prossegue Durigon.

“O pedido de afastamento do professor Paolo Zanotto foi aprovado por unanimidade no Conselho do Departamento de Microbiologia e por maioria de votos no CTA. O estágio sabático como professor visitante no BCIT, não remunerado e por curto prazo (até 24 meses), é com o objetivo do professor Zanotto de realizar pesquisas dentro de sua linha de atuação no departamento. Em nenhuma documentação apresentada há menção de que ele irá exercer a função de professor adjunto no BCIT”, continua a nota, concluída com os dados já mencionados acima pela Diretoria do ICB quanto aos dispositivos estatutários referentes ao afastamento.

A aprovação do pedido segue “pendente”, de acordo com o BCIT. “Dada a condição atual, afetada por matéria no [jornal canadense] Vancouver Sun, baseada em informação falsa fabricada pelo Metrópoles, não me cabe comentar sobre a instituição canadense”, diz Zanotto.

Perguntado pelo Informativo Adusp se já havia se vacinado e se acreditava que essa questão pudesse influir na decisão do BCIT sobre o pedido, o docente respondeu: “Em nenhum momento a instituição canadense considerou esta questão. A vacinação depende do que é proposto pelo governo do Canadá.” Na entrevista à Rádio Bandeirantes em 15/6, mesmo dia da divulgação do comunicado de Durigon, Zanotto afirmou que ainda não tinha sido vacinado contra a Covid-19, entre outras razões, por ter dúvidas quanto à homologação no Canadá das vacinas utilizadas no Brasil, especialmente a Coronavac.

Discussão sobre ciência envolve perfil negacionista do Holocausto

Entre as muitas críticas públicas que Zanotto recebeu desde a divulgação do vídeo da reunião do Planalto estavam as dirigidas pelo professor Sean Purdy, docente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e atual membro da Diretoria da Adusp. Por meio de sua conta no Twitter, Purdy, que é canadense, fez comentários e críticas que considera “normais e nada fora do usual”, como definiu ao Informativo Adusp.

Uma de suas postagens reproduziu o tuíte do BCIT no dia 9/6 em relação ao pedido de Zanotto. Antes de mencionar especificamente o caso do professor brasileiro, o BCIT afirma que “apoia fortemente e encoraja o uso de vacinas aprovadas” pelas autoridades do país e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como “uma das ferramentas mais fortes na luta contra a Covid-19”, comentário ressaltado por Purdy.

“Critiquei a ciência dele [Zanotto], mesmo não sendo da área, porque tenho estudado as coisas que se referem à Covid-19 e fiz postagens contra o tratamento precoce, o uso de ivermectina, o fato de ele publicar gráficos muitas vezes sem autoria, descontextualizados e não atualizados mostrando relações entre queda de casos de Covid-19 e tratamento precoce”, relata Purdy. “É verdade que não sou da área, mas sei ler um gráfico.” Na avaliação de Purdy, Zanotto não desmente aqueles que o consideram médico, “não entendendo a diferença entre ser médico e doutor” [em virologia]. “E ele não corrige. Picaretas todos”, escreveu no Twitter no dia 24/6.

De acordo com o docente da FFLCH, Zanotto passou a responder de forma cada vez mais hostil e agressiva aos tuítes e também a desqualificar seu desempenho acadêmico.

Um dos episódios em que a temperatura da discussão subiu ocorreu quando Purdy compartilhou reportagem do jornal O Estado de S. Paulo segundo a qual o médico Francisco Eduardo Cardoso Alves, especialista em infectologia pelo Instituto Emílio Ribas e diretor-presidente da Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência Social (ANMP), indicado pelo governo para defender o tratamento precoce na CPI da Pandemia no dia 18/6, “é investigado pelo INSS e pelo Ministério da Economia por suspeitas de irregularidades no recebimento de auxílio-doença entre 2019 e 2021”.

O próprio Cardoso respondeu no Twitter de Purdy no dia 21/6: “O que um historiador babaca como você entende de cloroquina, estudos médicos ou de medicina? Se liga, imbecil”.

Outro episódio citado por Purdy ocorreu quando Zanotto respondeu em alemão a um tuíte de um perfil revisionista e negacionista do Holocausto que se assina “Rabi-Cóh”. No dia 7/6, por exemplo, “Rabi-Cóh” postou: “Alguém conheceu um Tribunal de justiça mais suspeito do que aquele de Nuremberg?”. Em 20/4, publicou uma foto de Adolf Hitler rindo e escreveu: “Olhem só quem está fazendo aniversário” (o líder nazista nasceu em 20/4/1889).

Em sua mensagem endereçada ao perfil, Zanotto escreveu: “Rabi, es scheint, das Sean Purdy von unseren Leuten bezahlt wird, um Politik zu spielen, nicht um zu erziehen. Schauen Sie sich seine akademische Leistung an” (“Rabi, parece que Sean Purdy é pago por nosso povo para fazer política, não para educar. Confira o desempenho acadêmico dele”).

Sem ter entendido o porquê da resposta em alemão ao perfil do negacionista, Purdy diz ter perguntado a Zanotto por duas vezes, em português e em inglês, se o professor do ICB negava o Holocausto, “mas ele não respondeu”. “A última coisa que ele colocou sobre mim antes de me bloquear [no Twitter] era que eu estava atacando médicos que estão salvando vidas no Brasil”, aponta.

No dia 27/6, Zanotto publicou um tuíte dizendo: “Radicais devem ser bloqueados. Não deem espaço para @MiuTheCat1 [o endereço de “Rabi-Cóh]. Não é aceitável termos esse tipo de absurdo em nosso meio. Já basta os que estão nos matando hoje pela mentira e coerção contra tto, reeditando a barbárie nazista. Chega!”. Em mensagem ao Informativo Adusp, o professor diz ter bloqueado e denunciado o perfil revisionista.

No mesmo dia, “Rabi-Cóh” postou: “Não irei censurar o Dr. Zanotto, pois é evidente o peso do politicamente correto sobre pessoas públicas. Somos contra qquer tipo de violência gratuita”.

Zanotto reage a “continuada tentativa de assassinato moral”

Questionado pelo Informativo Adusp sobre a discussão com Purdy, Zanotto respondeu não ver “pertinência ou relevância nesta pergunta sobre este professor no contexto da CPI e USP e do sabático”. “No entanto, cabe esclarecer que em resposta à agressão dele e sua veemência, inclusive no Canadá (do que fui informado por colaboradores lá), fui verificar o currículo e entendi que ele não tem nenhum treinamento em assuntos relacionados com Covid-19 e segue o viés da narrativa do Metrópoles de forma acrítica e irresponsável”, diz.

Ademais, prossegue, “ele faz difamação e calúnia de forma sistemática de médicos que estão dando tratamento imediato, salvando vidas pelo Brasil”. “O mais acintoso tem sido as postagens deste professor com relação ao Dr. Francisco Eduardo Cardoso Alves. O Dr. Cardoso, sob auxílio do Estado, em afastamento por estar com sequelas neurológicas, continuou sob dificuldade a atender milhares de portadores do SARS-CoV-2 e está sendo processado. Este tem sido um padrão recorrente com muitos dos que estão tendo a postura dele de consideração pela vida humana. Isto foi tratado pelo Prof. Purdy como caso de corrupção”, considera Zanotto.

“O Prof. Purdy emite manifestações agressivas e toscas, sempre maculando a reputação daqueles que contrariam suas ideias, não baseadas em ciência ou evidências factuais. Isso é lastimável e lesivo à saúde pública. Ademais me surpreendeu muito um docente com produção científica limitada, até na área de atividade dele, desabonar colegas e usar argumentos cientificamente estapafúrdios e apresentar artigos de jornal não científico para contrapor dados sobre o impacto de tratamento na redução de hospitalização e mortalidade no México, Índia, Eslováquia, Senegal, Cuba, China, Rússia etc., o que perfaz quase 54% da população da Terra. Crucialmente o Prof. Purdy, de forma não solicitada, se refere a mim como ‘gado’, ‘genocida’ etc., usando de sarcasmo raso e difamatório de forma brutal e impune”, continua.

Em relação à resposta dirigida em alemão ao perfil “Rabi-Cóh” e ao questionamento sobre eventuais afinidades políticas e ideológicas com o revisionismo, Zanotto afirma não conhecer o “avatar”. “Respondi a uma colocação feita por ‘ele’ ao Prof. Purdy. O uso da língua alemã foi em resposta à colocação dele em alemão, não sendo de cunho racista ou antissemita. Caso você veja no uso desta língua uma alusão de afinidade ao nazismo, coloca milhões de pessoas que falam alemão em uma situação de repúdio imediato à sua insinuação. Ademais, dada a situação atual, centenas de pessoas visitam minha conta do Twitter e não teria condição de verificar cada um ou a procedência e valores desses avatares”, ressalta.

“Meu pai e avô quase foram mortos pelos nazistas, vários parentes lutaram na guerra e muitos familiares e amigos perderam parentes e amigos no período. Esta insinuação enviesada é revoltante e insultante à minha história de vida e família e me causa muita preocupação, dada a continuada tentativa de assassinato moral sendo conduzida pelo Metrópoles, DCM [Diário do Centro do Mundo], Brasil 247, Folha de S. Paulo etc., à qual espero a não adesão do Informativo Adusp”, afirma.

CARF questiona se docente foi devidamente liberado para prestar consultoria ao governo federal

Na semana passada, foram publicadas duas manifestações oriundas de discentes do ICB que questionam tanto a participação de Zanotto na reunião com Bolsonaro em Brasília quanto a decisão da CTA de aprovar seu pedido de afastamento.

No dia 21/6, o Centro Acadêmico Rosalind Franklin (CARF), da(o)s aluna(o)s do ICB, publicou nota na qual expressa repúdio “às ações tomadas pelo docente Paolo Marinho de Andrade Zanotto durante a pandemia de 2021 e à decisão tomada pelo Conselho Técnico Administrativo de deferir seu pedido de afastamento por 2 anos”.

O CARF aponta “desrespeito” do docente para com os funcionários do instituto e postura inadequada por fazer “declarações inapropriadas durante as suas aulas”. Na avaliação da entidade, continuamente o instituto “livra” o docente das consequências dos seus atos, “atribuindo a essas condutas o caráter de ‘opinião pessoal’ que não deve ser desrespeitada e, com isso, a lista de ações irresponsáveis apenas aumenta”.

“Vimos agora, com o advento da pandemia de Covid-19, as proporções que uma ‘opinião pessoal’ pode tomar, fomentando e embasando o discurso negacionista responsável por mais de 500 mil mortes de brasileiros, e, ainda por cima, como pode colocar em jogo a reputação de uma instituição reconhecida pela excelência na produção de ciência”, prossegue a nota.

O CARF também questiona afirmações de Zanotto em carta-resposta ao site Metrópoles e em postagens em suas redes sociais (em 10/6) de que tenha prestado “consultoria” ao governo em questões referentes à pandemia — termo também utilizado em sua resposta ao Informativo Adusp.

A entidade solicita ao CTA e à Congregação do ICB que esclareçam se o docente pediu autorização para prestar essa consultoria, conforme determina o artigo 20 do Estatuto do Docente da USP: “O docente em RDIDP credenciado poderá realizar atividades de assessoria, tais como elaborar pareceres científicos e responder a consultas sobre assuntos especializados, realizar ensaios ou análises, exercer atividades de consultoria[…]. § 3º- As atividades de assessoria devem ser submetidas à autorização, de maneira individualizada, a cada evento, pelo Conselho do Departamento e Congregação ou CTA”.

“Nós, alunos de graduação do ICB-USP, acreditamos somente na ciência e em suas comprovações: a eficácia das vacinas no combate à pandemia, o distanciamento físico e o uso de máscaras. Não há tratamento precoce para a Covid-19 e, ainda que sua ineficácia já tenha sido comprovada, o governo vigente utiliza este e outros discursos negacionistas para dar continuidade à sua política de morte em massa da população brasileira”, continua a nota.

“Sentimos enormemente o peso das 500 mil vidas perdidas que poderiam ter sido salvas com o auxílio da ciência e é nossa missão enquanto futuros cientistas visar o benefício da humanidade em detrimento de benefícios próprios. Cada vida perdida pertencia a um colega, um parente, um amigo, um amor, e, por isso, esperamos que os responsáveis pelo quadro lamentável do Brasil sejam devidamente punidos, visto que, ainda que as vidas perdidas não possam ser trazidas de volta, novas mortes podem ser evitadas”, conclui a manifestação.

Pós-graduandos apontam “processos administrativos não completamente elucidados”

Já a Associação de Pós-Graduandos do ICB (APG-ICB USP) publicou carta aberta com abaixo-assinado no dia 24/6 na qual afirma que a liberdade de expressão não pode violar “outros direitos igualmente importantes, como o direito à vida”.

Referindo-se à pandemia, o documento sustenta que “a propagação intencional de conceitos negacionistas como ‘imunidade de rebanho’ por infecção e tratamentos precoces por medicamentos cientificamente ineficazes para Covid-19, como defendida por alguns membros da comunidade médica e científica, sem o respaldo de evidências foi diretamente responsável pelo atual descontrole da pandemia no Brasil e atraso na campanha nacional de imunização, levando à morte de mais de 500.000 pessoas sob a face de uma política genocida”.

A entidade afirma que outras condutas do governo têm se caracterizado pelo prejuízo à ciência no Brasil, como os “cortes de verba e planos de desmonte das universidades públicas”, ameaçando a conclusão de projetos de pesquisa. “Portanto, pontuamos a responsabilidade das comissões responsáveis e principalmente, da diligência institucional do ICB em não permitir que a defesa da liberdade de expressão sirva de instrumento para o descumprimento dos princípios éticos e legais aos quais estão submetidos os servidores públicos associados à Universidade de São Paulo”.

De acordo com a carta, a “decisão favorável ao afastamento do Prof. Dr. Paolo Marinho de Andrade Zanotto para realização de atividades confusas no exterior por 2 anos sem perda de vencimento e benefícios aprovada recentemente no Conselho Técnico-Administrativo do ICB entra em total dissonância com diversas considerações veiculadas a este indivíduo, além de ter sido uma votação de caráter claramente não unânime vide a margem de 8-6 votos a favor”.

Acrescenta: “A existência de processos administrativos não completamente elucidados relacionados à sua falta de conduta institucional, descumprimento de deveres em sala de aula, defesa pública de informações negacionistas não respaldadas por evidências científicas sob nome desta universidade e sugestões de práticas não recomendadas pela OMS são algumas delas. Fora o seu atual envolvimento em trâmites relacionados a práticas que o levarão a inquérito público parlamentar na CPI da Covid-19 e foge do âmbito institucional”.

De acordo com a carta, Zanotto não só desrespeita o ICB, “como também demonstra falta de compromisso para com a posição de prestígio que a Universidade de São Paulo tem perante a opinião pública nacional e internacional”. Os signatários expressam seu “extremo descontentamento” com a decisão do CTA, solicitam a “revisão da aprovação do afastamento do docente” e cobram “os devidos esclarecimentos das suas condutas institucionais com a transparência e clareza que o corpo acadêmico deste instituto merece”.

No dia 7/6, a Diretoria do ICB havia publicado comunicado no qual afirma que “opiniões e condutas dos membros da sua comunidade, docentes, funcionários ou alunos, são de responsabilidade estritamente pessoal, não refletindo, necessariamente, um posicionamento acadêmico institucional” e que “uma das funções mais importantes da Universidade é defender a liberdade de expressão e a diversidade de opiniões, cláusula pétrea de qualquer democracia”.

A repercussão do comunicado obrigou a Diretoria a emitir nota no dia seguinte, publicada em suas redes sociais, na qual, “diante das dúvidas levantadas quanto ao teor do comunicado anterior”, reitera que “o ICB-USP tem CONSTANTEMENTE defendido ações baseadas em critérios científicos e rechaça VEEMENTEMENTE qualquer tipo de abordagem anti-científica e/ou ideológica no combate à Covid-19 ou a qualquer outro assunto de ordem pública” (destaques conforme o original). “Este sempre foi e será o nosso posicionamento institucional”, conclui a direção da unidade.

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