Promovido em 2/3 por centros acadêmicos, com a participação de dois especialistas no tema, o evento “Giro Político” foi alvo de deboche e ameaças. No câmpus de Ribeirão Preto, a criação de uma base da Guarda Universitária ao lado do restaurante universitário gera desconfianças de estudantes e do Sintusp de que o local seja na realidade destinado à PM — a Reitoria nega

Na noite desta terça-feira (2/3), militantes bolsonaristas tumultuaram a realização do evento virtual “Giro Político – PM no câmpus e modelos de segurança”, que debatia, em especial, as questões relativas à construção de uma base fixa da Polícia Militar na Cidade Universitária do Butantã. Os organizadores foram obrigados a transferir a atividade para outra sala digital.
 
Atualmente quase concluída, a base foi erguida em frente ao antigo prédio da Administração, onde a Reitoria funcionou por vários anos e que hoje integra o Conjunto Residencial (Crusp). A presença da PM no câmpus central da USP foi ampliada e oficializada na gestão do reitor J.G. Rodas, supostamente na forma de “polícia comunitária” (sistema Koban), e ganhou novos contornos nas gestões de M.A. Zago e V. Agopyan, provocando inúmeros incidentes, prisões ilegais e truculências.
 

Evento virtual atacado por militantes de extrema-direita

Participaram do debate, promovido por entidades estudantis de quatro unidades, a professora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, do Núcleo de Antropologia do Direito (Nadir) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), o tenente-coronel PM reformado Adilson Paes de Souza, doutor pelo Instituto de Psicologia da USP, e representantes dos centros acadêmicos dos institutos Oceanográfico (IO), de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), de Matemática e Estatística (IME) e de Física (IF).
 
“Mal nos apresentamos e o tenente-coronel reformado começou a fazer críticas à formação dos PMs no estado de SP e à falácia de uma ‘polícia comunitária’ na USP, pessoas começaram a entrar na sala do Google Meet e a projetar imagens de Bolsonaro (por exemplo, ofendendo a deputada Maria do Rosário) e músicas com palavrões”, relatou no dia seguinte a professora, que no início da gestão Zago assumiu a Superintendência de Prevenção e Proteção (SPP), responsável pela Guarda Universitária.
 
“Vozes masculinas debochavam de todos que estavam na sala e faziam ameaças”, registrou Ana Lúcia no correio eletrônico do Fórum de Docentes da FFLCH. “Foi preciso que as organizadoras do debate abrissem outra sala, para a qual migramos, para prosseguirmos com o evento. Sei que essa notícia não é novidade, mas não nos acostumemos com o horror da censura, da truculência e dos necroprojetos dessa extrema-direita que, sem qualquer pudor, desrespeita princípios elementares de civilidade”.
 
Ana Lúcia foi exonerada da SPP, em janeiro de 2015, por haver se recusado a atender às pressões do então reitor Zago, que desejava que ela desse maior liberdade de ação à PM dentro da Cidade Universitária.

Base para Guarda Universitária em Ribeirão Preto seria “fachada” para a PM

Em Ribeirão Preto, a Prefeitura do câmpus está construindo, próximo ao restaurante central (Bandex), uma base alegadamente destinada à Guarda Universitária, composta exclusivamente por servidores da USP. Porém, segundo o Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp), “os estudantes receberam de diversas fontes, inclusive associação de moradores, a informação de que na verdade ali vai funcionar uma base da Polícia Militar”.
 
O reitor estaria prestes a viajar para Ribeirão Preto e selar essa parceria com a PM. O comparecimento do reitor Vahan Agopyan é esperado no câmpus nesta sexta-feira (5/3) e ele deverá participar de reuniões. Porém, consultada pelo Informativo Adusp por meio de sua assessoria de imprensa, a Reitoria negou tanto a parceria como a criação de uma base da PM naquele câmpus.
 
“No cenário nacional atual, onde paira inclusive ameaça de golpe, colocar a PM dentro do câmpus sem uma boa discussão com toda a comunidade é um ato temerário e bem complicado, para dizer o mínimo”, diz a regional de Ribeirão Preto do Sintusp. “Em seus fóruns de discussão como reuniões, assembleias e congressos, os trabalhadores da USP através de seu sindicato por várias vezes já se manifestaram contra essa perigosa proximidade da Reitoria com a PM. A história é recheada de exemplos dessa complexidade”.
 
O grupo denominado “Frente Estudantil Contra a EaD USP-Ribeirão Preto” emitiu nota de repúdio segundo a qual a construção de uma base da PM na universidade seria “expressão do processo de militarização e criminalização das lutas populares, em geral, e da luta em defesa da universidade pública, em particular”. Não à toa, acrescenta o texto, a base “está sendo construída em frente ao Bandex, local onde os estudantes se encontram para fazer suas reuniões, assembleias e convocações de atos, entre se alimentar e descansar”. “Ou seja, a base serve unicamente para vigiar e perseguir estudantes comprometidos com a luta”.
 
No entender da Frente, a instalação da base da PM na USP representaria uma ameaça tanto à autonomia como à democracia universitárias, ambas já “frágeis”, é equivalente ao “processo de nomeação de reitores interventores nas universidades federais levado a cabo pelo governo Bolsonaro e generais”, e além disso “não serve de maneira nenhuma para garantir a segurança aos estudantes, professores e funcionários do câmpus, pelo contrário, visa garantir através da força que sejam impostos os interesses privatistas para a universidade”.
 
A nota dos estudantes lembra ainda que o número de mortes pela PM em 2020 é recorde em São Paulo, segundo dados publicados pelo portal G1. “Mesmo durante a pandemia, a população vem sofrendo com perseguições, mortes, ameaças e despejos pela PM”, diz. “A PM não representa segurança!” De acordo com os estudantes, a placa que informa a construção de uma base da Guarda Universitária no local é um artifício para evitar a reação da comunidade universitária.