Não é segredo para ninguém: desde o dia 15/1, quando anunciou o início da vacinação contra a Covid-19 em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) vem intensificando sua pré-campanha eleitoral com vistas às eleições presidenciais de 2022. Produzida pelo Instituto Butantan, a Coronavac é o “passaporte” de Doria, que desde o início da pandemia procura apresentar-se como contraponto confiável ao seu principal adversário no espectro político-ideológico da direita: o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A mídia comercial já vinha registrando os lances do que chegou a ser chamado de “guerra das vacinas”. Em outubro de 2020, o jornalista Diogo Shelp publicou artigo no UOL intitulado “Bolsonaro e Doria fazem campanha antecipada às custas da saúde pública”, no qual, após relatar a evolução das escaramuças envolvendo os dois governantes e o Instituto Butantan, concluiu: “Estamos a dois anos das eleições presidenciais e em meio à pior crise de saúde pública dos últimos 100 anos. Não é hora de fazer proselitismo eleitoral às custas de vidas brasileiras”.

Outro aspecto importante da campanha são os ataques explícitos a Bolsonaro, cuja atuação desastrosa e irresponsável frente à pandemia constitui um alvo óbvio para o governador paulista. A gravíssima crise sanitária de Manaus permitiu a Doria fazer proselitismo ao vivo e a cores na coletiva de imprensa de 15/1, quando, informado por uma repórter da necessidade de transferência de sessenta bebês para outras capitais, de imediato se disse disposto a receber todos em São Paulo, anunciou o envio de respiradores desenvolvidos pela USP e mostrou preocupação com a trágica situação vivida pela população do Amazonas.

Manaus é resultado da política caótica da saúde pública do governo federal”, declarou na ocasião, dizendo ainda ter impressão de que “o governo Bolsonaro gosta do cheiro da morte”. Porém, embora tais afirmações correspondam à realidade, não eximem o governo Doria das suas próprias responsabilidades em matéria de saúde pública em geral e Covid-19 em particular, pois o Estado de São Paulo já superou a marca dos 50 mil óbitos provocados pela doença sem que haja qualquer reorientação no eixo do chamado “Plano São Paulo”, que é exatamente manter a economia em funcionamento.

Não há como esquecer que Doria, que busca neste momento capitalizar as conquistas da ciência e apresentar-se como defensor da saúde pública, acaba de extinguir a Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) e alguns meses atrás almejava a extinção de outros órgãos estratégicos, como a Fundação para o Remédio Popular (FURP). O retorno às aulas anunciado pela Secretaria da Educação desconsidera o próprio Plano São Paulo. Além disso, o funcionalismo público vem sofrendo um grande arrocho salarial.

Assim, quando o governador esteve no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP), no câmpus da USP, nesta terça-feira (19/1), para “pegar carona” no primeiro dia da vacinação de profissionais de saúde daquela cidade com a Coronavac, ao descer do carro foi surpreendido com um protesto de servidores da saúde, que entoaram o refrão “Se é essencial, por que paga mal?”, além de “Fora Doria!”. O grupo compareceu ao prédio com faixas nas quais reivindicam reajuste salarial para a categoria.

“Como sabíamos da visita do governador para fazer campanha com a vacina, apesar de ter sido de última hora reunimos alguns trabalhadore(a)s para fazer um protesto no HCFMRP. Não somos heróis, somos trabalhadore(a)s que merecem valorização, melhores condições de trabalho e salário digno”, disse Edson Carlos Fedelino, diretor regional do SindSaúde, que representa a categoria. “E também vacina, pois todos estão expostos ao vírus”.

Fedelino repassou ao Informativo Adusp o holerite de uma técnica de enfermagem do hospital, cuja remuneração total não chega a R$ 1.400. “Hoje os trabalhadores do HCFMRP em sua maioria recebem o piso do Estado, que está no valor de R$ 1.200,00. Mas com um detalhe: recebem esse valor porque o governo não pode pagar menos que o piso do Estado, é feito um reajuste complementar para chegar ao piso. Estamos há mais de 15 anos sem reposição de inflação”, explica o dirigente salarial. “Trabalhadores na sua maioria fazendo dupla jornada para complementar salário e ficando doentes por passar muito tempo no ambiente hospitalar que é insalubre, e o governo nunca sinaliza qualquer negociação com a categoria”.

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