Ataques ocorreram após uma estudante ter sido empurrada e xingada por um visitante da feira de barcos de luxo. Em vez de defendê-la, policiais se voltaram contra participantes do ato. Nova manifestação será realizada hoje, último dia do evento

A Polícia Militar utilizou spray de pimenta e bombas de gás para atacar os moradores do Conjunto Residencial da USP (Crusp) que realizavam uma manifestação contra a realização da São Paulo Boat Show (SPBS) na tarde desta segunda-feira (23/11) na Cidade Universitária.

foto: Daniel Garcia

Protesto pacífico em frente à entrada do Boat Show

Os estudantes iniciaram a manifestação no final da manhã em frente à entrada da feira náutica, na Raia Olímpica, quando o evento ainda não estava aberto ao público. Depois seguiram em caminhada até a entrada do bandejão do Crusp, onde o ato teve continuidade.

As agressões ocorreram à tarde, quando os manifestantes tentaram voltar à milionária feira de embarcações, cuja abertura ao público nos dias de semana ocorre às 15h. Os estudantes foram bloqueados pela PM, tendo o seu direito de ir e vir absurdamente cerceado no espaço público e nas vias que utilizam diariamente, uma vez que, mesmo em meio à pandemia da Covid-19, permanecem vivendo nas precárias condições da moradia estudantil.

A PM só deixava passar os motoristas e visitantes que se dirigiam à feira. Os manifestantes então formaram a concentração junto às grades de proteção para dificultar o acesso dos interessados no evento. Querendo entrar na feira de embarcações de luxo, um visitante empurrou uma das estudantes, chamando-a de “vagabunda” e “gente que não quer trabalhar”.

Os manifestantes cobraram uma ação da PM contra o visitante, mas receberam como resposta as agressões com spray de pimenta e bombas, sendo obrigados a se afastar para se proteger. “Eu estava muito perto de um policial, que me olhou e jogou spray direto na minha cara”, contou ao Informativo Adusp um morador do Crusp que ingressou na universidade neste ano. “Tive que sair correndo e alguém me guiou, porque eu não conseguia enxergar nada. Inclusive perdi meus óculos no corre-corre.”

O aluno foi levado para seu apartamento e recebeu cuidados de colegas, porque permaneceu sem conseguir enxergar por algum tempo. “Muitas pessoas passavam pelo ato e nos chamavam de bando de vagabundos e de gente que não quer trabalhar”, conta o estudante, retratando o perfil de parte dos visitantes da feira de embarcações de luxo.

foto: Daniel Garcia

Tenente PM Telles comandou a repressão

A ação da PM foi comandada pelo tenente Telles, o mesmo que se notabilizou em outras ocasiões de repressão a manifestantes, em especial na operação desfechada em 7 de março de 2017 a pedido do então reitor M. A. Zago, para garantir a aprovação pelo Conselho Universitário do seu pacote fiscal ("Parâmetros de Sustentabilidade"). Telles chefia o pelotão PM encarregado da Cidade Universitária, supostamente pelo "Sistema Koban" de "policiamento comunitário".

Depois de se refugiar sob as árvores num dos gramados do câmpus, os estudantes decidiram retornar à entrada da Boat Show e dar continuidade à manifestação, que se encerrou pouco antes das 17h.

Novo protesto será realizado nesta terça (24/11), com concentração na ágora do Crusp e saída para a Raia Olímpica às 14h30min.

Rachas de carros de luxo em pleno câmpus – “realmente estou enojado”, descreve professor do IME

O ato desta segunda, que teve apoio do DCE Livre “Alexandre Vannucchi Leme”, destinava-se a denunciar as péssimas condições em que se encontra o Crusp. Os problemas vão desde a estrutura, com paredes mofadas e cozinhas e lavanderias sem equipamentos ou manutenção, até a falta de internet para os estudantes.

Para agravar a situação, em setembro e outubro os moradores enfrentaram vários períodos com falta de água, às vezes por dois a três dias seguidos – isso num período em que a pandemia exige cuidados redobrados com a higiene.

Na primeira parte do ato, ainda pela manhã, vários oradores relataram os problemas que enfrentam com a precariedade das condições estruturais da moradia. Participantes da manifestação lavaram peças de roupa numa bacia e as penduraram nas grades de proteção na entrada da feira.

Os estudantes também denunciaram as várias contradições que a SPBS escancara: o fato de uma universidade pública sediar um evento voltado a um mercado de consumo de luxo enquanto os moradores do Crusp enfrentam essa precariedade; a isenção de cobrança de IPVA para as embarcações, mesmo iates caríssimos; a inevitável aglomeração que a SPBS proporciona, num momento em que atividades do gênero são absolutamente desaconselháveis – a própria USP, além de cancelar aulas e boa parte do trabalho presencial, realizou neste mês sua tradicional Festa do Livro de forma remota pela primeira vez.

“Em pleno sábado de manhã, a gente sem água, sem cozinha e sem internet, e lá embaixo acontecendo racha de Ferrari e de outros carros que a gente nem conhece”, disse no ato uma moradora do Crusp, referindo-se à movimentação de visitantes da feira de luxo.

A cena foi descrita também pelo professor Eduardo do Nascimento Marcos, docente do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, em mensagem divulgada em suas redes. O professor relatou que no sábado (21/11), antes de ir ao seu escritório na unidade, onde fica isolado, costuma caminhar na Raia Olímpica. Porém, foi surpreendido “por várias coisas” em função da realização da feira:

“1. Metade da pista próxima da raia estava ocupada e fechada, e para estacionar se cobrava 50 reais, e além disso eu não pude usar metade da raia (…). 2. Na outra pista estavam quase uma centena de carros, não entendo de carros mas esses chamavam a atenção, acho que eram Porsches, Mercedes, Camaros, Rolls-Royces, conversíveis, de corridas. Podia parar por aí. Mas eles eram muitíssimo barulhentos e paravam e aí aceleravam creio que de zero a muito mais que 100 km por hora, em segundos e depois continuavam correndo”, escreveu.

O docente diz que o que mais o chocou é que parecia haver conivência da Guarda Universitária. Um guarda com quem foi conversar lhe disse que já havia falado com os motoristas, mas a iniciativa não surtiu nenhum efeito. “Espero que isso não se repita antes que aconteça uma tragédia de um desses carros a 200 km por hora entre numa calçada e mate algum estudante que esteja no ponto de ônibus, ou coisa parecida. Eu realmente estou enojado com esse fato. Espero sinceramente que isso não se repita nunca mais. Espero resposta das autoridades a quem estou enviando a mensagem”, escreveu Marcos.

Ao Informativo Adusp, o professor relatou que enviou a mensagem para o gabinete do reitor, a Ouvidoria da USP, a prefeitura do Câmpus e a direção do IME. “Até agora não deram resposta alguma”, afirma.