Organizada pela Frente Luiz Hirata, videoconferência realizada em 8/10 reuniu a professora Clara Araújo (UERJ), primeira mulher a presidir a União Nacional dos Estudantes (1982), e Gilmar Tadeu, engenheiro-agrônomo pela Esalq e ex-diretor do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz

A efervescência do movimento estudantil nos estertores da Ditadura Militar, destacadamente o protagonismo da União Nacional dos Estudantes (UNE) e sua luta pelas liberdades democráticas. O papel exercido pelo Centro Acadêmico Luiz de Queiroz (CALQ) como polo de resistência contra-hegemônica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). A importância política da atuação do então prefeito de Piracicaba, João Herrmann Neto (MDB), e do então reitor da Universidade Metodista (Unimep), Elias Boaventura, no apoio às lutas estudantis e populares desenvolvidas naquele período.
 
Esses e outros temas candentes da memória histórica da fase final do regime militar (1964-1985) foram abordados na live intitulada “A resistência à Ditadura em Piracicaba: os Congressos da UNE em 1980 e 1982”, realizada em 8/10 por iniciativa da Frente Luiz Hirata de Defesa da Democracia e que teve como convidados dois protagonistas do movimento estudantil da época: Clara Araújo, então estudante da Universidade Federal da Bahia (UFBA) eleita presidente da UNE em 1982, e Gilmar Tadeu, então estudante da Esalq e diretor do CALQ. Ambos participaram do histórico congresso de reconstrução da entidade nacional dos estudantes, realizado em Salvador em 1979.
 
Este é o segundo evento desse tipo promovido pela Frente Luiz Hirata, que é constituída por quatro entidades: Adusp Regional, Sintusp, DCE-Livre e APG-Esalq. No primeiro, realizado em 22/7, o professor Rodrigo Sarruge Molina, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), apresentou sua tese de doutorado “Ditadura, agricultura e educação: a Esalq-USP e a modernização conservadora do campo brasileiro (1964 a 1985)”.
 
A atividade de 8/10 foi conduzida pela professora Eliana Tecci (Esalq), membro do Conselho de Representantes da Adusp e ela própria uma ativa participante do movimento estudantil no início dos anos 1980. Então estudante da Faculdade de Direito, Economia, Administração e Contabilidade da Unimep, Eliana foi eleita delegada aos congressos da UNE de 1980 e 1982, ambos realizados em Piracicaba.
 
“Gostaria de fazer aqui um registro de reconhecimento a duas pessoas que foram fundamentais para a realização desses eventos nos anos oitenta: o prefeito João Herrmann Neto, engenheiro-agrônomo formado pela Esalq, que governou a cidade de 1977 a 1982, e o reitor da Unimep, professor Elias Boaventura”, destacou a professora ao abrir a live. “Ambos falecidos, infelizmente, mas tiveram um papel muito importante nessa nossa jornada e na luta contra a Ditadura e pela democracia. Piracicaba aliás neste período era conhecida nacionalmente como a Meca da democracia, em virtude da gestão participativa que o prefeito Herrmann exercia na cidade”.
 
Eliana lembrou que sob a gestão de Herrmann criaram-se os Centros Polivalentes de Educação e Cultura (CPECs), cerca de cinquenta centros comunitários, que tinham forte participação política. “Organizou-se a Federação das Organizações Populares, a Fopop, entre outras ações importantes. Ele incluía na sua gestão os militantes de esquerda, então a cidade fervia em virtude dessa gestão participativa, bastante polêmica também”.
 
Da mesma forma, acrescentou, a Unimep sob a direção do reitor Boaventura “acolhia atividades e eventos de luta e resistência que foram muito impactantes, de alcance nacional e internacional, como os congressos e encontros nacionais dos favelados, era um momento muito importante da luta pela moradia, dos mutuários do BNH [Banco Nacional da Habitação] também, era outro movimento social muito forte”. Ela citou a realização de um seminário internacional de Educação Popular, que contou com a participação de Paulo Freire entre os debatedores, e de um Congresso da Juventude Palestina, entre outros eventos que aconteciam na cidade e na Unimep.
 
Na Unimep, explicou Eliana, havia uma forte articulação estudantil que organizou juntamente com o CALQ a realização dos congressos de 1980 e 1982 da UNE, os quais “prontamente foram viabilizados pelo prefeito João Herrmann Neto e o reitor Elias Boaventura”. Os congressos aconteciam no Estádio Municipal e o prefeito e o reitor garantiam a segurança dos participantes. “Esse momento foi muito importante para a luta democrática e para o movimento estudantil em particular, tanto que despertou a nossa memória”.
 
A professora homenageou, ainda, a memória do líder revolucionário argentino Ernesto Guevara de la Sierna, conhecido como Che Guevara. “Lutou na Revolução Cubana, fez da sua vida uma missão em prol da libertação, da luta ao lado dos pobres e dos oprimidos da América Latina. Foi preso pelo Exército boliviano nesse mesmo dia, 8 de outubro de 1967. Executado no dia seguinte aos 39 anos de idade”.
 
Depois da exposição inicial dos convidados, Eliana abriu a palavra aos representantes de entidades. Um deles foi o estudante Rafael Milaré, aluno do curso de Biologia da Esalq e diretor do CALQ e do DCE-Livre. “Foi muito emocionante ouvir essas duas falas, principalmente a do Gilmar, que lembrou bastante como o CALQ era nessa época. É importante lembrar que sempre houve resistência na Esalq, por mais que a Esalq tenha esse viés ideológico muito forte, de direita, e sempre atacou muito os estudantes que tentavam fazer a resistência. É bom lembrar que sempre houve gente que foi contra-hegemônica”.

“Herrmann e Elias tornaram Piracicaba ainda mais acolhedora”

Socióloga, professora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e líder do Núcleo de Estudos de Desigualdade e Relações de Gênero, Clara Araújo foi eleita em 1982, no congresso realizado em Piracicaba, a primeira mulher presidente da UNE. Ela fez questão de se juntar às homenagens feitas aos então prefeito municipal e reitor da Unimep: “Herrmann e Elias tornaram Piracicaba ainda mais acolhedora. Foram figuras muito importantes pelo seu compromisso, pelo acolhimento, pelo papel que desempenharam e pela coragem. Deram papel social e político às instituições que dirigiram”.
 
Clara destacou o papel da UNE em momentos passados, naquele momento, na luta pela redemocratização, e posteriormente na luta pela consolidação da democracia. “É importante mencionar essa luta pela consolidação da democracia porque nós estamos vivendo um momento bastante preocupante, e os estudantes no Brasil têm uma tradição muito forte, não é só no Brasil, é um dado da juventude, dos estudantes, esse amor pela democracia, pela liberdade, disposição de participação. É um consenso entre os historiadores o papel que a UNE desempenhou, particularmente naquele momento. Esse papel não foi só o de mobilizar os estudantes, colocar os estudantes na rua, mas como um ator político fundamental na articulação da frente democrática que era necessária para se fazer face à Ditadura, naquele momento, e na reconstrução democrática do país. São esses dois lugares que a UNE teve e desempenhou que são importantes de serem pensados neste momento”.
 
A seu ver, sua participação no movimento estudantil, “incluindo a UNE, que foi o ápice dessa participação, não só marcou a minha vida pessoal, a minha vida política, mas de certa forma foi o fio condutor para o desenvolvimento posterior da minha trajetória, das minhas atividades, das escolhas que eu fiz”. Ela ingressou na UFBA em 1977, quando se iniciavam o processo de reconstrução da UNE. “Meu pai era político da Arena [Aliança Renovadora Nacional] na época, político conservador, de uma cidade do interior. Mas minha família era grande, de oito irmãos, e meus irmãos mais velhos eram atuantes no movimento estudantil, eu vivenciava aquela efervescência dentro da minha própria casa. De modo que quando entrei na universidade em 1977 coincidiu com uma certa simpatia de antemão, mas também tentativas de reconstrução da UNE”.
 
A participação de Clara se iniciou no mesmo ano de 1977, em que se tentou realizar um encontro nacional de reconstrução da UNE em Belo Horizonte, para o qual ela saiu delegada da UFBA. “Naquele momento eu fui presa, foi minha primeira experiência, eu tinha quatro meses de universidade. Entrei com todo gás. Fui presa, naquele momento ainda tinha a Lei de Segurança Nacional, abriram processo. E eu tinha dois embates, o embate contra essa perseguição geral e na minha casa também, meu pai era prefeito dessa cidade do interior. Mas ao mesmo tempo havia um certo respeito nesse processo todo. Eu nunca fui desestimulada a participar”.
 
Ela continuou no movimento estudantil, passando a fazer parte do Centro Acadêmico de Ciências Sociais. “O movimento estudantil na UFBA era muito vivo. Depois fui para o DCE, que deu muitos quadros, muitas pessoas para o movimento político do Brasil. Eu  cito por exemplo a atual deputada [federal] Lídice da Mata, com quem eu compartilhei uma gestão do DCE. Que foi presidente do DCE, foi a primeira prefeita de Salvador, foi senadora. A deputada [federal] Alice Portugal, também da minha época, da gestão. O ex-deputado [federal] Javier Alfaya, ex-presidente da UNE”.

Luta contra expulsão de Javier Alfaya virou campanha nacional e internacional

Em 1979, no congresso de reconstrução, Clara integrou a comissão de reestruturação. “Foi um processo lindíssimo, os registros existem, e eu me envolvi sempre com muita vontade, muita garra, Naquela época eu participava do Centro Acadêmico, e considero um privilégio ter participado do congresso da reconstrução. Em 1980 também fui delegada nesse congresso de Piracicaba e em 1981 fui eleita, era a única mulher da chapa do então presidente Javier Alfaya. E fui eleita presidente no congresso de 1982. Eu vinha de uma participação estudantil muito intensa. No congresso de 1981 a Ditadura estava nos estertores, e o grande debate era a luta pelas liberdades democráticas, Constituinte, Anistia, e a UNE começou a ter esse papel”.
 
Clara explicou como teve seu nome cogitado para dirigir a UNE, num período em que quase não havia mulheres na direção nacional da entidade. “Eu fui eleita na gestão do Javier para o Departamento  Feminino. Eu era a única mulher da chapa, já era militante, participava, mas foi o que me coube naquele momento. Depois, como o Javier era espanhol e pedia naturalização, o governo entrou com um pedido de expulsão do Javier. Ele foi obrigado a se retirar mais, se precaver, fazer essa luta — e foi uma luta muito importante da UNE, porque era a luta por liberdades democráticas e por participação. A luta contra a expulsão do Javier virou um processo de mobilização não só nacional mas internacional. Isso foi uma coisa muito importante. E naquele processo eu acabei assumindo um papel na coordenação da UNE, dessa ação, desse momento, então meu nome surgiu dentro disso para o congresso de 1982”.
 
Ela também comentou a dimensão pessoal dessa experiência de participação no debate público que se fazia na época. “Claro, houve vários outros momentos importantes, mas aquele foi o momento de construção de uma frente democrática. O movimento estudantil era muito intenso, muito mobilizado, a presença era muito grande. Nós não tínhamos recursos, precisávamos muito do apoio dos estudantes como um todo, da população. E os debates eram muito acalorados. Então essa experiência tem um significado grande, ao lado de ter sido a primeira mulher presidente. Isso me levou a conviver também com a experiência de preconceito, mesmo de discriminação em alguns casos, não dentro do movimento estudantil mais atuante, mas certas atitudes que revelavam esse tipo de preconceito”.
 
Essa trajetória acabou influenciando suas escolhas posteriores, revelou. “Continuei participando, fui da União da Juventude Socialista, até o período em que eu pude participar, e depois disso tanto meu mestrado quanto meu doutorado acabaram indo dentro desse fluxo, porque eu fui fazer uma dissertação sobre participação sindical das mulheres, participação política, e depois fiz o doutorado sobre mulheres na política”. A desigualdade de gêneros passaria a ser uma de suas preocupações. “Então as duas coisas se juntaram: a experiência do lugar da política, do papel da política, e ao mesmo tempo a experiência de ter descoberto que embora a luta juntasse todo mundo, estivéssemos todos juntos, todos lutássemos por igualdade, na prática política e social a gente ainda tinha, como tem ainda, um conjunto de preconceitos, discriminações, na história das mulheres e inclusive da presença política das mulheres. Não à toa, eu era a única mulher da primeira diretoria que eu participei, e depois de mim levou algum tempo para uma segunda, e agora é que nós temos mais mulheres no movimento estudantil”.
 
“O papel do movimento estudantil, de quem participou daquele processo, é esse de um debate político intenso, muito amplo, nós estávamos ali para debater todas as questões. E ao mesmo tempo de construção de uma frente política e de uma frente democrática. E isso nos dava um sentido de unidade muito grande, mas ao mesmo tempo a luta e a experiência como mulher me levou a perceber que não necessariamente essa unidade significava que não existissem outras formas de preconceito, de desigualdade”, relatou. “E eu acabei me envolvendo com outra forma que também está associada, que é a universidade. Entrei na universidade, me tornei professora, pesquisadora. A universidade continua sendo um espaço muito importante, com um potencial muito grande. Realmente precisamos pegar essa experiência para pensar esse momento”.

Na época, os estudantes da Esalq se dividiam entre “vermelhos” e “azuis”

Engenheiro-agrônomo formado pela Esalq, secretário de Mobilidade Urbana de Sorocaba, Gilmar Tadeu foi delegado estudantil da Esalq no congresso de reorganização da UNE, realizado em Salvador em 1979. “Iniciei minha participação no movimento estudantil a partir da eleição do centro acadêmico, o CALQ. Naquela época, a Esalq tinha um conservadorismo, não sei se hoje ainda persiste, mas era muto forte, de forma que os estudantes se dividiam, eram tachados de ‘vermelhos’ e ‘azuis’, em função do posicionamento político mais progressista ou mais conservador. Na época nós organizamos uma frente ampla. O centro acadêmico era muito estagnado, com baixa participação dos estudantes. E nós montamos uma chapa com as bandeiras de participação, democracia, de ativação das várias esferas do centro acadêmico: área cultural, debates, mesmo em relação ao ensino, tinha um espectro de abordagem de temas progressistas, questionando o status quo. E a nossa chapa ganhou”.
 
Foi uma experiência muito importante, relembrou. “Nós ativamos as várias esferas do Centro Acadêmico. Claro que estávamos num período efervescente do movimento estudantil, eu entrei na Esalq em 1976, em 1977 nós tínhamos aquelas grandes passeatas do movimento estudantil em São Paulo, e aquilo contagiava todo o movimento estudantil, para o interior, para outras faculdades, e não foi diferente na Esalq. Tinha um clima efervescente de resistência, de transição, no final da Ditadura. Naquele período na cidade nós organizamos também o Comitê Brasileiro de Anistia. Esses comitês se organizaram no país inteiro”.
 
De acordo com Gilmar, o governo Herrmann possibilitava a participação ampla de vários setores democráticos, de esquerda, era “bastante amplo, bastante participativo”, e o reitor Boaventura também teve importante papel naquele cenário. “Além de outras lideranças do município, do movimento popular, das pessoas que participavam da administração que também tinham um perfil bastante democrático e progressista para aquela época, para a realidade que vivíamos em Piracicaba. Tínhamos um clima geral de ascenso desse movimento de redemocratização, num certo período o movimento operário teve a sua participação também, as greves de 1978, tudo isso e o movimento estudantil teve um grande protagonismo nesse processo de redemocratização do nosso país”, avaliou.
 
Em 1979, no congresso de Salvador, ele vivenciou o auge do processo de reorganização da UNE. “Nós reunimos todos os delegados de Piracicaba — tinha delegados da Esalq, da Unimep e da Faculdade Municipal de Engenharia — e fomos para Salvador num ônibus. O Congresso foi bastante participativo. Eu lembro que até para resolver problemas de alojamento, na cidade de Salvador as famílias cediam as suas casas para receber delegados que vinham de fora do município. Então também existia uma receptividade da população”. A UNE, afirmou Gilmar, sempre esteve à frente dos movimentos de redemocratização, de liberdade, de avanços da sociedade brasileira.
 
“Tanto nesse congresso como depois, no congresso de Piracicaba [1981], teve uma certa tensão, nós estávamos ainda numa fase de transição em 1979, os ônibus eram parados no meio do caminho, era uma viagem demoradíssima por conta de toda essa tensão existente na época. No caso dos congressos de 1980 e 1982 foi fundamental a atitude do prefeito. Numa cidade que tinha um conservadorismo grande, as elites conservadoras caíam em cima do prefeito, críticas, era bastante polêmica aquela situação”.
 
Mesmo depois que terminou o curso, em 1981, Gilmar participou ativamente dos movimentos sociais de Piracicaba. “Lembro que organizamos um movimento para reduzir o preço das passagens dos ônibus: em 1981, se não me falha a memória, organizamos um movimento para baixar as tarifas. Coletamos 30 mil assinaturas, na época Piracicaba deveria ter uns 200 mil habitantes, e nós reunimos 30 mil assinaturas para reduzir a tarifa. O prefeito era o João Herrmann Neto, ele voltou atrás na tarifa e criou um conselho tarifário para discutir a questão do transporte de forma mais ampla, não só a questão da tarifa. Demonstrando essa capacidade de dialogar, de discutir, e às vezes de voltar atrás em medidas que ele havia tomado”.

“O passado deve servir para fortalecer nossa luta presente e futura”

Ele também citou o movimento dos mutuários do BNH contra os aumentos das prestações da casa própria, mencionado pela professora Eliana. “Na Unimep tinha um professor, Roberto Aguiar, ele nos ajudou a fazer todo um movimento para que as pessoas não perdessem suas casas num conjunto habitacional importante de Piracicaba, o Conjunto Balbo, que fica a 10 quilômetros do centro da cidade. Naquela época, 1981-82, tinha um desemprego muito grande no país, e os operários, os trabalhadores não conseguiam pagar as prestações e estavam permanentemente ameaçados de perder sua moradia, suas casas, e a gente participou desse movimento. E aquilo foi contagiando outros conjuntos habitacionais que também estavam na mesma situação”.
 
A luta por moradia estudantil foi outra questão abordada no seu depoimento. “Quando eu fui para Piracicaba fui morar na Casa do Estudante. Existia um movimento de resistência da moradia estudantil. Os reitores, as universidades, sempre no sentido de cortar despesas, cortar gastos, queriam cortar também esse direito que era a moradia estudantil. E a gente fez um movimento grande, reuniu casas de estudantes de São Paulo, São Carlos, Ribeirão Preto, de outras cidades do interior para fortalecer a moradia estudantil. E fomos vitoriosos, a casa estudantil de Piracicaba foi prosperando, melhorando suas condições, graças à resistência e à luta dos estudantes”.
 
Ele citou o depoimento de Clara Araújo para revelar que, também no seu caso, a participação no movimento estudantil marcou sua trajetória, “como se fosse um batismo de sangue”. Todo aquele envolvimento “abriu o mundo”, disse. “Eu era do interior, morava em Bauru antes de entrar na faculdade. Entrei na Esalq e dali para frente, naquela situação, naquele clima geral de redemocratização, de debates, de polêmicas, aquilo foi conformando a minha trajetória, o meu pensamento. A abertura da cabeça das pessoas, de abrir uma panorâmica, uma visão de mundo, foi naquele período. Então essas figuras de fato devem ser homenageadas, e talvez muitos anônimos que a gente aqui talvez não consiga registrar, mas que participaram ativamente de todo esse processo”.
 
Na avaliação de Gilmar, frente à conjuntura atual do país existe a necessidade “de segurar tudo aquilo que se conquistou nessas últimas décadas”, porque está havendo uma regressão até de debates, de perspectivas. “Quando relembramos desse passado, ele deve servir para fortalecer a nossa luta presente, a nossa luta futura”.
 
Ele também recordou a primeira campanha política de que participou, em 1978, pelo então Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a única legenda de oposição autorizada pela Ditadura Militar. “Levamos para Piracicaba um operário metalúrgico de São Paulo chamado Aurélio Peres. E a dobrada dele era Irma Passoni, ligada à Igreja. E nós não tínhamos inserção na cidade. Eu vinha de fora e passei a morar na cidade. Mas a gente ia todo final de semana, juntava os estudantes, ia nos bairros populares distribuir o folheto do Aurélio Peres e da Irma Passoni”. Eram todos apoiadores voluntários, que saíam pichando muros e distribuindo material de casa em casa nos finais de semana. “Era outro momento, de discussão política, de processo político no país. Só fomos ter eleição para governador em 1982. Não de capitais, mas já existia eleição de prefeitos. E a eleição presidencial só foi ocorrer no Colégio Eleitoral, e a primeira eleição [direta] foi em 1989”.
 
“Eu estudei Agronomia, mas mais do que o curso, a experiência da participação política, de visão de mundo, foi um outro curso mais importante do que aquele. Quem não teve a oportunidade de participar, como eu, desse processo perdeu, acho que ‘perdeu o bonde’, quer dizer, ficou [somente] no curso”, enfatizou Gilmar. “Eu podia ter estudado mais no meu curso, ter uma formação maior, mas mais do que isso eu adquiri o conhecimento da luta política. A questão do debate da universidade: às vezes a gente estava de férias, juntava dez estudantes para discutir a universidade que queríamos. Pegava um monte de livros, diversos autores e tal. Tudo isso foi muito mais do que fazer o curso apenas”.
 
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