Autor da tese de doutorado “Ditadura, agricultura e educação: a Esalq-USP e a modernização conservadora do campo brasileiro (1964 a 1985)”, o professor Rodrigo Molina, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), apresentou os resultados de sua pesquisa em videoconferência levada ao ar no dia 22/7

“Um documento que marcou muito no processo de pesquisa foi referente à ‘entrega’ de um aluno à direção da Esalq [Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz], antes do golpe de 1964, estamos falando do mês anterior. E um estudante da Esalq, chamado Paulo Marcomini, foi sequestrado por veteranos numa prática trotista. Teve seus pertences pessoais apreendidos, de forma claramente ilegal. Os materiais desse estudante foram entregues ao CALQ [Centro Acadêmico Luiz de Queiroz], nessa época hegemonizado por forças de direita, que eram aliadas ao processo golpista em curso. Os materiais pessoais de estudo desse aluno, que era comunista — então tinha livros do Lênin, [e] livros sobre a revolução maoísta — foram entregues ao diretor da Esalq. O diretor entregou esse material pessoal do aluno para a Polícia piracicabana. Então um dos diagnósticos da pesquisa é que o processo de repressão e caça, e as práticas antidemocráticas, estavam a todo vapor muito antes do golpe de 1964”.
 
Esta foi uma das revelações feitas pelo professor Rodrigo Sarruge Molina, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), na videoconferência realizada no dia 22/7, como primeiro evento de um ciclo de debates sobre as consequências da Ditadura Militar na USP organizado pela Frente de Defesa da Democracia Luiz Hirata. Molina graduou-se em História na Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e sua tese de doutorado, defendida na Universidade de Campinas (Unicamp), intitula-se “Ditadura, agricultura e educação: a Esalq-USP e a modernização conservadora do campo brasileiro (1964 a 1985)”.

 

No decorrer do golpe, novas violações aos direitos humanos ocorreram na escola, relatou Molina: “Outro aluno que foi entregue pela direção da Esalq à polícia foi Rodolfo Hoffmann. Ele foi entregue de forma claramente ilegal, sem mandado judicial, sem nenhum processo jurídico. Aqui já estou falando do pós-golpe, então o estado democrático de direito claramente não existia. Este aluno, de forma abusiva, ilegal, foi entregue pelo diretor à Polícia e ficou cinquenta dias encarcerado na prisão de Piracicaba”. (Em 1966, porém, Hoffmann tornou-se docente da Esalq, aposentando-se em 1996 mas continuando a trabalhar, como professor e pesquisador, em regime de voluntariado.)

Convidado pelo mediador do debate, professor Paulo Moruzzi Marques (Esalq), a discorrer sobre as razões que o levaram a escolher a escola como objeto de pesquisa, Molina citou entre elas a Revista Adusp: “A minha motivação, as origens dessa pesquisa, remetem, de uma forma ou outra, à Adusp. Eu lembro que era um adolescente, residia aqui em Piracicaba, e o meu pai me presenteou com uma revista da Adusp, onde existia um estudo de uma jornalista de Piracicaba, Beatriz Vicentini, sobre as questões da ditadura na Esalq, e aquilo ficou na minha cabeça”.

As ligações pessoais, bem como os caminhos trilhados na formação universitária, acabaram por reforçar a curiosidade do pesquisador: “Minha casa ficava do lado da Esalq, tenho familiares que trabalhavam na Esalq. É uma instituição muito presente na cidade de Piracicaba. Sempre fiquei com essa reportagem da [Revista] Adusp na minha cabeça. E o tempo passou, fiz História, durante a graduação em História fiz um estágio como historiador do Museu da Esalq, no campus de Piracicaba. Um dos trabalhos que eu tinha que realizar era a organização do acervo, a limpeza do acervo, conservação, restauração, procedimentos de museologia. E durante esses trabalhos eu encontrava muitas fotografias, documentos, muitas referências à presença da ditadura na Esalq. Essas questões sempre me inquietaram, os motivos disso”.
 
Os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”, instituídas para apurar os crimes e fatos relacionados ao período da Ditadura Militar, também foram citados por ele como fatores de estímulo à sua investigação. “Todo esse caldo de pesquisas, essas influências, essas fontes que eu encontrava, tudo isso motivou a pesquisa, desvender esse passado que até então era nebuloso para mim e para outros pesquisadores”.
 
O professor da UFES contou ter feito um estágio de doutoramento na Itália, na Universidade de Turim, para aprimorar os aportes teóricos e metodológicos da pesquisa. “Embora não exista neutralidade do cientista, do pesquisador, a pesquisa não teve nenhum objetivo de depor contra a Esalq, pelo contrário. A ideia é a gente estudar o passado enquanto historiador para compreender o presente e tentar projetar um futuro melhor, aprender com os erros do passado para que possamos caminhar de forma melhor para toda a sociedade. O objetivo foi um estudo crítico, não uma crítica destrutiva, mas propositiva”.

Ciclo de debates iniciado em 22/7 homenageia memória de Luiz Hirata

Criada recentemente em Piracicaba, a Frente de Defesa da Democracia Luiz Hirata propõe-se a discutir as questões da aguda crise social, política e sanitária vivida pelo Brasil, de modo a barrar os retrocessos trazidos pelo avanço do neofascismo e pelo governo Bolsonaro-Mourão. O ciclo de debates iniciado em 22/7 homenageia a memória de Hirata, estudante da Esalq assassinado nas dependências do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), na capital paulista, em 20/12/1971. Ele militava na Ação Popular (AP), grupo político clandestino de origem católica que fazia oposição à Ditadura Militar, quando foi capturado por policiais comandados pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.
 
Ao ser perguntado sobre a questão das fontes históricas, Molina fez referência ao caso de Hirata — a quem sua tese é dedicada — para exemplificar os cuidados que se deve tomar com a documentação disponível. “Eu como historiador se fosse analisar o laudo oficial do Estado sobre a morte de Luiz Hirata, se fosse ler o documento oficial da década de 1970 como a verdade, iria acreditar na versão oficial. Porque o documento histórico, oficial, fala que ele morreu em decorrência de uma fuga. ‘Fugiu da delegacia e foi atropelado por um ônibus’. Esta foi a versão do Estado sobre a morte de Luiz Hirata. Então eu como historiador tenho que fazer a crítica a esse documento”.
 
Os historiadores positivistas, acrescentou, adotam perspectiva oposta, pois tendem a acreditar nos documentos como se fossem a realidade de um tempo histórico. Ele destacou que, bem ao contrário, ao analisar um documento o historiador precisa relacioná-lo a outras fontes históricas. “O laudo do Luiz Hirata, por exemplo, tem uma foto dele assassinado. E aquela foto tem os hematomas no corpo dele. E os médicos constatam que são marcas claras de tortura. Então veja como é complexo o trabalho do historiador: você tem que analisar a fonte de forma crítica, não dá para pegar um documento histórico e acreditar que aquilo é verdade absoluta”.
 
Molina considera que sua tese sobre a Esalq, inspirada no materialismo histórico-dialético, foi testada ao longo de anos, na medida em que foi submetida ao crivo de diversos outros pesquisadores já no processo de investigação, e depois pela banca de doutorado. “Em decorrência dos aspectos teóricos e metodológicos que nós escolhemos, nós compreendemos que estudar a Esalq na Ditadura Militar não bastava. Para entender o que é a Esalq nós precisamos estudá-la desde suas origens até a contemporaneidade. Na primeira parte da pesquisa, que é o segundo capítulo, nós estudamos os 116 anos da Esalq [de 1901 a 2015]. Uma coisa muito ousada, foi muito difícil. Depois de analisar a instituição como um todo, nós analisamos especificamente o recorte cronológico fundamental escolhido, que foi o período de 1964 a 1985 — a ditadura”.
 
Por esse motivo é que os acontecimentos na escola no período anterior ao golpe de 1964 também foram estudados por ele — “como a instituição estava se movendo, quais eram as correlações de forças”. Quando a pesquisa debruçou-se sobre o período da ditadura, uma das questões analisadas foi o que definiu como “intervenção dos EUA na Esalq”, por meio da United States Agency for International Development (Usaid), que montou uma base de professores na Esalq. “Também estudamos como a Esalq colaborou com o programa científico-educacional da política agrária ditatorial. Novos cursos foram criados na época, como Economia Doméstica, Engenharia Florestal. A pós-graduação surgiu no período da ditadura na Esalq, porque o projeto dos militares, junto com as forças civis da época, era fomentar a modernização capitalista do campo brasileiro”.
 
No entender da Usaid, “fomentar a modernização capitalista do campo brasileiro era uma forma de você combater a miséria”, e combatendo-se a miséria evitava-se o socialismo. “Só que não deu muito certo, porque a miséria continua até hoje”, pontuou o professor da UFES. “Na cabeça das forças civis e militares que apoiavam a ditadura, implantar a modernização capitalista do campo era uma forma de você industrializar o campo, avançar a economia capitalista do campo, e assim na concepção deles o Brasil iria atingir um estado de país desenvolvido, de país imerso no progresso. Foi um projeto que não deu muito certo, pois a gente vê as consequências até hoje desses problemas sociais”.

Latifúndio e concentração de renda aumentaram na Ditadura Militar

Molina reconhece, no entanto, que esse projeto foi vitorioso. “Ocorreu a modernização capitalista, eles foram bem sucedidos de certa forma, no entanto foi uma modernização conservadora. Você modernizou o sistema produtivo, a Esalq colaborou com pesquisa científica, com educação, com extensão, você modernizou o modo de produção no campo brasileiro, mas ao mesmo tempo você fez com que as estruturas coloniais, arcaicas, ficassem intactas. Na ditadura o latifúndio aumentou, a concentração de renda aumentou. Teve uma grande expropriação camponesa: muitos camponeses expulsos, tendo que morar nas periferias das cidades”.
 
De acordo com o pesquisador, o processo de desenvolvimento capitalista do campo brasileiro levado a cabo pela Ditadura Militar, e que incluiu a ocupação da Amazônia, foi desastroso, resultando no assassinato de grande número de indígenas, entre outras consequências. “Então conseguiram modernizar do ponto de vista capitalista, especialmente o Centro-Sul. Tinha até uma proposta, não sei se posso dizer isso, pedagógica da instituição [Esalq], que era criar um agrônomo que soubesse trabalhar nos dois sistemas: o moderno e o arcaico. Então a Esalq formava o agrônomo para trabalhar em Piracicaba, por exemplo, com um sistema imerso na modernização tecnológica, mas esse agrônomo também teria que estar preparado para trabalhar na Amazônia, onde não tinha modernização tecnológica naquele período”.
 
O agronegócio não existiria sem apoio estatal, frisou ao responder a uma pergunta, lembrando a importância das pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e das universidades federais no processo de modernização capitalista do campo: “Eles querem desmontar o Estado, só que foi o Estado que criou o agro”. Ainda de acordo com o professor da UFES, a articulação da Esalq com o ruralismo foi fundamental para a implantação do projeto político agrário dos militares e da burguesia, que apoiava o regime ditatorial e foi beneficiada com volumosos financiamentos e subsídios.
 
As resistências à Ditadura Militar dentro da Esalq, bem como as perseguições a docentes e estudantes que se opunham ao regime ditatorial, são examinadas no capítulo final da tese de Molina. “Toda hegemonia se confronta com uma contra-hegemonia. A hegemonia na instituição na época, assim como hoje também, era ligada ao poder econômico, ao capitalismo. Alunos e professores que propunham outra forma de sociedade, que tinham propostas divergentes do projeto da ditadura, sofreram muitas dificuldades, como perseguição, como prisão, pois não era um regime democrático. Numa ditadura não é possível haver divergência, quando tem divergência você é perseguido, é cassado, é preso”, salientou ele na videoconferência.
 
“Um documento mostra que o diretor da Esalq à época, Salim Simão, entregou para o DOPS professores que tinham uma proposta crítica, que denunciavam e criticavam a ditadura em classe de aula. Professores que eram favoráveis à reforma agrária também foram denunciados”. Em 1975, Simão delatou os docentes Ondalva Serrano, Oriowaldo Queda, Roberto Moreira e Rodolfo Hoffmann, havendo ainda “uma infinidade de outros professores e estudantes que eram vigiados, que estavam sob monitoramento”, disse o professor da UFES. “O Escola sem Partido funcionava muito bem naquela época”, ironizou.
 
Esse episódio é que foi objeto da reportagem da Revista Adusp citada por Molina como motivação inicial da sua pesquisa de doutorado. O então chefe do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas, Joaquim Engler, reforçou as denúncias de Simão ao DOPS. Posteriormente, Simão e Engler alegaram ter assinado sob coação depoimentos que não correspondiam ao que realmente declararam.
 
O pesquisador citou no debate, ainda, um fato paradoxal: “a Esalq, em articulação com outras instituições de Piracicaba, como a Unimep, conseguiu, na década de 1980, organizar dois congressos da UNE [União Nacional dos Estudantes], os de 1980 e 1982”. Os congressos contaram com o apoio do prefeito João Hermann Neto e de estudantes e docentes da Esalq e, segundo Molina, foram bem-sucedidos na rearticulação do movimento estudantil e sindical, apesar das ameaças de grupos terroristas de direita, como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC). “Podemos dizer que embora a Esalq tenha apoiado a ditadura, ela também lutou contra a ditadura. Ao mesmo tempo que deu bases científicas, educacionais, de extensão, para fomentar o projeto político e econômico dos militares, muitos professores, muitos estudantes da Esalq combateram a ditadura. Então foi um momento contraditório”.
 
A trajetória de Luiz Hirata, abordada num dos tópicos do último capítulo da tese, foi comentada pelo professor da UFES na videoconferência. “É uma pessoa que iniciou seus trabalhos políticos dentro da Igreja católica, na JUC (Juventude Universitária Católica), e posteriormente ingressou na AP, Ação Popular. Enquanto fazia seu trabalho de estudante de agronomia, também fazia trabalho de base nas periferias de Piracicaba, por meio de alfabetização. O Brasil ainda tem muitos analfabetos, e na época não era diferente. Hirata, enquanto militante de esquerda, fazia esse trabalho de base nas periferias, e sob os olhos da ditadura isso era um crime. Você ser de esquerda era crime, imagine só você ser de uma organização popular e fazer trabalho de base alfabetizando miseráveis”.
 
Molina destacou o caráter pacífico das atividades desenvolvidas pelo então aluno da Esalq. “Alfabetizar uma pessoa é terrorismo? Lutar pela democracia num sindicato é terrorismo? Na visão deles [militares e apoiadores civis da Ditadura] tudo era terrorismo. O crime dele foi esse”. Em decorrência da repressão policial, explicou, Hirata não pode participar da festa de formatura na Esalq. “Relatos de pessoas que não quiseram se identificar mostram que um dia uma ambulância parou na frente da casa de uma ex-namorada, procurando ele, para interná-lo porque era louco, imaginem só. Ele já estava trabalhando de certa forma na clandestinidade, e mesmo fazendo parte da comissão de formatura não colou grau, embora posteriormente conseguiu obter seu diploma de engenheiro agrônomo”.
 
Ao que parece, Hirata não chegou a exercer a profissão que escolheu. “Ele praticamente teve que fugir de Piracicaba, e passou a trabalhar como metalúrgico na capital paulista, atuando no sindicato. E foi pego nesse período, quando trabalhava em São Paulo”, explicou Molina. “Segundo documentos, estudos, relatos, ele ficou vinte dias sendo torturado na sede do DOPS, pela equipe do temido delegado Fleury. Não resistiu e faleceu no Hospital das Clínicas em São Paulo”. Voltando a citar o suposto “atropelamento” do militante da AP por um  ônibus, o pesquisador afirmou que a Ditadura forjou versões falsas para muitos assassinatos de militantes de esquerda, a exemplo do “suicídio” atribuído ao jornalista Vladimir Herzog (professor da ECA-USP).
 
Duas familiares, Helena Hirata e Filomena Yoshie Hirata, acompanharam a videoconferência e foram saudadas pelos participantes da atividade. “Luiz Hirata, meu primo, era um dos onze filhos do meu tio, que só podia mandar um filho para a universidade”, comentou Helena no chat do You Tube.
 
Ana Carolina de Lima, da Associação de Pós-Graduandos (APG-Esalq), Ony Rodrigues de Campos, do Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp) e Rafael do Diretório Central dos Estudantes (DCE-Livre) também participaram do debate.