Nota da Diretoria da Adusp

O lema “vidas negras importam”, que ganhou força mundial recentemente em razão do intolerável assassinato de um homem negro, George Floyd, pela polícia nos EUA, tem um significado muito mais abrangente do que essa tragédia particular. O lema que agora ecoa nas ruas de várias cidades do mundo retrata com contundência uma indignação frente à enorme desigualdade que é vivenciada pela população negra em diferentes sociedades ditas democráticas, livres e desenvolvidas. Desigualdade ainda mais aguda e evidenciada durante a pandemia de Covid-19.
 
O fato é importante ainda porque obriga a voltarmo-nos para o cenário brasileiro, em que o genocídio da população negra é uma trágica realidade e que precisa ser enfrentada sem subterfúgios e/ou adiamentos. As mortes recentes das crianças Miguel Otávio Santana da Silva (cuja queda do alto de uma torre luxuosa no Recife foi provocada por total negligência da patroa de sua mãe) e João Pedro Mattos Pinto (baleado em casa durante operação policial em São Gonçalo-RJ), além do abandono de comunidades quilombolas enquanto população vulnerável à Covid-19, são eventos reveladores, entre muitos outros, do desprezo no Brasil por “vidas negras”.
 
A cor da pele não deveria ser objeto de classificação social, política ou econômica. No entanto, qualquer indicador social brasileiro – seja de renda, de mortalidade ou de nível de escolaridade, entre outros – demonstrará que, na prática, tal pressuposto é uma falácia. Vivemos numa época em que há uma forte concorrência entre discursos de igualdade de um lado e de ódio, de outro, envolvendo indivíduos, comunidades, religiões, nações. É preciso não só combater o discurso do ódio, como é o caso do discurso racista, mas também transformar o discurso da igualdade em realidade social.
 
Assim, as Universidades e, no caso  brasileiro, a Universidade de São Paulo, em particular – por seu importante papel na formação profissional e na produção de conhecimento que simbólica ou fisicamente permeiam toda a sociedade brasileira –, têm uma tarefa muito importante no sentido de adensar o debate e contribuir para a efetiva elaboração de políticas públicas, entre outras medidas, que visem ao combate do racismo, que é estrutural em nossa sociedade.
 
Se, no acesso à graduação, a Universidade já adotou a política de cotas, fazendo com que se note – ainda que timidamente – uma maior diversidade étnico-racial de seu corpo discente, no tocante ao seu corpo docente e à pós-graduação, o mesmo ainda não aconteceu. A universidade per si deveria ser o lugar da diversidade – de pensamento, de obras, de projetos acadêmico-pedagógicos – que, evidentemente, configura-se a partir da diversidade das pessoas. Para tanto, é importante garantir igualdade de representatividade no meio universitário dos grupos que constituem nosso corpo social.
 
Como promover pesquisa que produza conhecimento socialmente referenciado, sem entender as particularidades da condição social do negro no Brasil? Como alcançar tal finalidade e assumir o efetivo compromisso de educar para a diversidade, no tocante à formação de professores e professoras, se essa forma de pensar não está de fato presente na produção da ciência? Como combater o racismo da estrutura universitária se os negros  praticamente não participam da comunidade científica? Em pesquisa de 2017, apenas  8,2% dos alunos e 4% dos professores da USP eram negros, lembrando que a participação de negros na população em São Paulo era de 39%. Certamente isso não mudou expressivamente nos últimos três anos.
 
Como a extensão universitária pode atingir comunidades de forma legítima e participativa se não há identidade entre nossa tradição universitária, de forte cariz europeu e norte-americano, e a maior parte da população que deve ser atendida por esse tipo de atividade, de tradição afro-brasileira?
 
Essas questões não são perguntas retóricas feitas para abrilhantar o verniz politicamente correto tolerado pelo padrão de meritocracia adotado pela USP. São perguntas que iluminam o real papel de instituição pública de ensino, de pesquisa e de extensão que, por princípio, deveria atender ao conjunto da sociedade que a financia. Quando propomos o debate sobre a questão racial e seus impasses no seio da Universidade, assim fazemos com o objetivo de reivindicar a identificação mais estreita da Universidade com o conjunto total da sociedade.
 
A negação histórica do negro no âmbito da Universidade, sob o discurso da meritocracia, só reflete o racismo estrutural presente em todos os aspectos da sociedade brasileira. Deve-se combater a injustiça histórica desse modelo falsamente meritocrático, lembrando ainda que, nos dias de hoje, não basta acreditar que não se é racista: é necessário ser antirracista. Cabe a nós, docentes, atuar cotidianamente de forma antirracista junto a nossos colegas, aos nossos alunos, aos nossos gestores.
 
Este enfrentamento – dentro e fora da USP –  deve ser cotidiano. A universidade, por sua vez, deve pensar formas de promover um maior e efetivo acesso por negros e negras à pós-graduação, aos seus quadros de docentes e de funcionários técnico-administrativos.
 
A violência policial não é maior e nem mais importante e significativa do que a violência produzida pela exclusão de pessoas no acesso à educação de qualidade, à saúde de qualidade e à alimentação de qualidade. O Estado que permite uma polícia que se caracteriza pela impunidade é o mesmo que gera cidadãos e cidadãs considerados de segunda categoria. Assim, temos nós, das universidades públicas gratuitas e de qualidade, o dever de romper com esse ciclo.
 
Por todas estas razões, a Adusp repudia toda forma de violência, preconceito e discriminação e convida todas e todos colegas a acompanhar as atividades que promoveremos para discussão do racismo, como também reivindicamos que a administração da universidade faça o mesmo.
 
Vidas negras importam todos os dias.