A participação do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), em ato público de natureza golpista realizado em Brasília no dia 19/4 — no qual os manifestantes pediram “intervenção militar”, reedição do Ato Institucional 5 (AI-5), atacaram o Supremo Tribunal Federal e o Congresso — foi objeto de repúdio de professores, pesquisadores e funcionários técnico-administrativos do Departamento de Medicina Social (DMS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), divulgado nesta quarta-feira (22/4) na página oficial do DMS.

De acordo com o manifesto, assinado por 21 dos 26 docentes do DMS, a Covid-19 “está colhendo grande número de vidas, empurrando muitas famílias para a pobreza extrema e colocando à prova os valores e a resiliência das sociedades”, sendo fundamental, neste momento, “que a sociedade brasileira esteja unida para enfrentar a Covid-19 e que resista às ameaças contra a democracia e contra princípios maiores de nossa organização social”.

O DMS, prossegue, “está plenamente engajado no esforço de resposta à pandemia, com ações específicas de pesquisa, ensino e assistência à saúde das pessoas nas esferas de atenção primária à saúde, pronto atendimento de pessoas com sintomas respiratórios, vigilância epidemiológica, e em ações sociais na comunidade, reafirmando seu compromisso com a sociedade”.

Neste contexto, continua o manifesto, “nós, professores, pesquisadores e funcionários do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo abaixo assinados, registramos nosso veemente repúdio à participação do Excelentíssimo Senhor Jair Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil, nas manifestações de afronta à Constituição e à democracia no último dia 19 de abril e nossa preocupação com suas repetidas ações de desrespeito às recomendações de distanciamento social do próprio Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde”.

O documento apela ao próprio Bolsonaro, e em especial ao ministro da Saúde, Nelson Teich, e aos governadores e prefeitos, para que pautem suas ações de enfrentamento à epidemia de Covid-19 de acordo com princípios científicos. “Reforçamos a importância da política de distanciamento social horizontal e recomendamos que o grau de isolamento seja modulado de forma gradual e de acordo com três parâmetros principais: (1) grau de imunidade adquirida pela população (percentual de pessoas com anticorpos contra o vírus SARS-CoV-2), (2) grau de ocupação de leitos hospitalares, (3) suficiência de meios para o enfrentamento da epidemia no sistema de saúde, incluindo os recursos humanos e materiais (por exemplo, equipamentos de proteção individual para profissionais de saúde e ventiladores)”.

Solicita, ainda, “máxima agilidade e maior amplitude das políticas governamentais de proteção à população de maior vulnerabilidade e de menor renda”, encoraja a sociedade civil por sua resposta à crise social e humanitária decorrente da pandemia, e convida “os governos municipais a reforçarem a coordenação da resposta da sociedade civil”, auxiliando a identificação de prioridades e reduzindo a duplicação de ações. “Por fim, apresentamos um voto de louvor aos trabalhadores da saúde, da segurança e de setores essenciais por sua atuação durante a crise”.