A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, da Assembleia Legislativa (Alesp), precisou cancelar e adiar por duas vezes consecutivas uma audiência pública sobre o sequestro, assassinato e desaparecimento, em 1974, da professora Ana Rosa Kucinski, do Instituto de Química (IQ-USP). Isso porque a Universidade de São Paulo deixou de comparecer a ambas, em 14/6 e 29/7.

Daniel Garcia
Bernardo Kucinski em ato de 13/8/2012 pela reversão da demissão de Ana Rosa

Diante do descaso demonstrado pela USP, uma convocação oficial do reitor Grandino Rodas, do procurador geral da universidade e do diretor do IQ já foi aprovada na comis­são. Ainda não há data definida para a nova tentativa de realização da audiência sobre o caso. Na mesma ocasião será discutido o caso de Wilson Silva, marido de Ana Rosa, preso com ela e executado pelos órgãos de repressão política na mesma ocasião.

A Reitoria da USP foi convocada a comparecer porque a professora foi demitida pela Congregação do instituto, em 1975, por “abandono de emprego”, quando já havia sido assassinada pelos órgãos de repressão um ano e meio antes, e era voz corrente que seu desaparecimento estava relacionado à sua militância na esquerda clandestina.

O episódio foi relatado em detalhes pelo jornalista Bernardo Kucinski, hoje professor aposentado da ECA-USP, no livro K. A Revista Adusp publicou na sua edição 52 o capítulo dessa obra “A reunião da Congregação”, que trata do assunto, e na edição 53 reportagem detalhada a respeito, apontando a resistência da atual Congregação a rever o caso.

O professor Wanderley Messias dos Santos, superintendente de Relações Institucionais, encaminhou ofício à Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, em 6/6, no qual afirma considerar “prematuro e inoportuno o comparecimento de representante oficial desta Universidade ao referido evento”. Não bastasse o tratamento desatencioso, Messias recorreu às alegações de que 1) a USP criou sua própria Comissão da Verdade, e portanto investigará o caso; e 2) a direção do IQ “já manifestou-se oficialmente a respeito dos episódios envolvendo o caso (...) e as devidas reparações à sua memória”. 

“Subterfúgio”

O professor Kucinski enviou carta à Comissão da Verdade, na qual lamen­ta que a Reitoria da Universidade de São Paulo tenha considerado “inoportuna” a iniciativa da comissão de “esclarecer as circunstâncias da demissão por abandono de função de minha irmã Ana Rosa Kucinski, presa e desaparecida política”. Para ele, é um “subterfúgio” [destacado em negrito no original] a justificativa de que foi criada a Comissão da Verdade da USP: “Essa comissão não iniciou suas sessões, não possui regimento interno e nem cronograma de trabalho”. (Efetiva­men­te, no dia 15/6 o professor Dalmo Dallari, presidente do órgão criado pelo reitor Grandino Rodas, revelou ao Informativo Adusp que até aquela data não contava sequer com uma sala para as oitivas.)

Na carta, o professor reitera a dramática situação vivida pela família, na busca, por décadas, dos restos mortais de Ana Rosa e de uma explicação cabal do seu assassinato: “E o tempo urge. Meu irmão Wulf Kucinski, que tanto batalhou pela localização de minha irmã, faleceu no ano passado aos 80 anos de idade, sem conhecer a verdade dos fatos. Eu já estou na casa dos 76 anos”.

O professor ataca igualmente, no documento, “os inaceitáveis [destacado em negrito no original] termos da declaração da Congregação do Instituto de Química, de 27 de setembro do ano passado, nos quais também se apóia o reitor para justificar o seu não comparecimento”, uma vez que ela diz a certa altura que “se solidariza com a família, amigos e colegas que, na época, não soube­ram das reais circunstância do seu desaparecimento” (de Ana Rosa). “Ora, senhor deputado, o inusitado e escandaloso desse caso, sem paralelo na história da USP, está justamente no fato de que se sabia sim na época, e sobejamente, do caráter forçado e involuntário de seu não comparecimento ao trabalho”. 

Apelo denegado

Ele prossegue afirmando que, quando “a Comissão Processante da Reitoria e a Congregação da Química decidiram pela demissão, em janeiro-fevereiro de 1975, já era amplamente conhecida a condição de desaparecida política de minha irmã, conforme documentos, testemunhos e até notícias de jornal, tudo isso juntado em apelo à Comissão Processante pelo nosso advogado, o falecido dr. Aldo Lins e Silva, em 24 de janeiro de 1975, e denegado (processo 17.499/74/RUSP)”. 

Ainda segundo Kucinski, enquanto “entidades como a Anistia Internacional e a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo já se empe­nha­vam em denunciar a repressão política no Brasil, a Congregação da Química e a Reitoria dessa universidade optaram pelo caminho oposto de legitimar e dar cobertura ao ato criminoso do sequestro e desaparecimento de minha irmã”. 

O professor comenta também o “longo parecer da Assessoria Jurídica da Universidade”, emitido em julho de 1995 em resposta a seu pedido de anulação da demissão de Ana Rosa (Processo 74.1.17459.1.7). Na visão de Kucinski, embora recomendasse ao reitor a aceitação do seu pedido, o parecer “camufla e absolve por trás de uma obscura linguagem jurídica o nefasto papel de coadjuvante de um crime, desempenhado pela instituição USP nesse episódio, em especial por essa mesma Assessoria Jurídica à época. Não há uma palavra de auto-crítica”.

 

Informativo nº 367