Órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, a Orquestra da USP (Osusp) existe há 33 anos e é uma reconhecida orquestra profissional do país. Noticiada recentemente, a demissão em caráter definitivo do maestro Carlos Moreno trouxe às vistas uma realidade trabalhista que parece completamente descolada do sucesso artístico da orquestra e revela mais um espaço de precarização do trabalho na Universidade de São Paulo.

Audino Nuñes é violinista e chefe de seu naipe, o dos segundos violinos. Nuñes é parte da história da Osusp desde sua fundação, em 1975. “A nossa orquestra foi criada como orquestra profissional, não didática”. Essa vocação específica destoa daquilo que é vivido pelos músicos: “Faltam instrumentos. Não temos ajuda para conservação de instrumentos”, relata Nuñes lembrando que, caros e de qualidade, os instrumentos são de propriedade dos músicos. “A USP não fornece nem sequer material como cordas”, completa o violinista.

Para o músico, falta o entendimento de que a orquestra “é diferente de qualquer departamento”, pois “não é didática, é artística” e tem, portanto, necessidades diferenciadas. Antes de vir para a Osusp, Nuñes integrava a Orquestra Sinfônica do Estado (Osesp). “O problema é que realmente a orquestra precisa de uma carreira para nós [os músicos]. Deveria ter uma carreira como na Unicamp já tem, de professor artista”, avalia.

Baixos salários

O estopim da saída do maestro Carlos Moreno foi o enquadramento funcional dos músicos na USP. Moreno teve seu pedido de autorização para uma viagem em que pretendia celebrar parceria com uma orquestra japonesa negado pela direção da Osusp, sob a alegação de que não havia meios oficiais de fazê-lo. Contratados como celetistas pela universidade, os integrantes da orquestra e demais funcionários, incluindo os cargos de direção, recebem cerca de R$ 3 mil mensais.

O ex-maestro aponta que um salário tão baixo, e a inexistência de remuneração diferenciada para as posições profissionais no corpo artístico, transformam a Osusp em uma exceção entre as orquestras profissionais; em algumas, um espala pode ganhar até R$ 12 mil. “A universidade, por várias razões, não atende uma realidade de mercado. A orquestra reflete a estrutura salarial da universidade”, declarou ao Informativo Adusp.

“O desafio para a universidade é ter um modelo de orquestra universitária”, pensa Moreno. Para ele, isso foi alcançado de certa forma, mas de um modo desequilibrado. “A gente cresceu muito artisticamente. Falta uma situação contratual ajustada à realidade do músico”, acrescenta.

Reconhecimento

Moreno espera que sua saída ajude a repensar a situação da Osusp na universidade: “Essa estruturação, esse estudo de como funciona uma orquestra já foi muito discutido com os pró-reitores. Tudo depende da vontade e do reconhecimento político. É tudo dentro do razoável o que está sendo pedido”.

Até o fechamento desta edição, o DRH não respondeu aos questionamentos da reportagem.

 

Matéria publicada no Informativo nº 267

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