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Parte da delegação da Adusp durante votação: docentes Kimi Tomizaki, Maria de Fátima Simões, Flávio Tavares e Arsênio Peres. Abaixo, Sérgio Souto

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O 29º Congresso do Andes/SN, realizado em Belém entre 26/1 e 1/2, reuniu 305 delegados e 38 observadores, que representaram 58 seções sindicais de universidades federais, estaduais e particulares. “Contrarreforma universitária, ataques à carreira e ao trabalho docente: desafios do Andes-SN na luta em defesa da Universidade Pública” foi o tema central dos debates. A Adusp participou com 11 delegados eleitos e um indicado pela diretoria.

Na avaliação do professor Sérgio Souto (FZEA), um dos delegados, o Congresso foi “bastante profícuo em discussões sobre importantes assuntos para a categoria docente”, pois foram abordados “temas relativos à política educacional e universitária, à carreira docente e precarização do trabalho docente, aos benefícios sociais e previdenciários, à organização sindical dos docentes universitários, à organização geral dos trabalhadores, às políticas afirmativas e de cotas e às estratégias de ação para 2010”.

No entender de Sérgio, a centralidade das ações do Andes-SN foi o principal tema de discussão. “Definiu-se como prioritária a intensificação da relação entre as direções sindicais e sua base, a fim de fomentar a reflexão, entre os docentes, sobre sua própria atuação, em contraponto ao individualismo, à alienação, fruto das políticas meramente produtivistas impostas pelos governos”, explica.

“A maior aproximação ou reaproximação das bases apareceu como bandeira decisiva para fortalecer o Andes-SN e para melhor batalhar pela hercúlea construção de uma nova central sindical”, define outro delegado, o professor Flávio Tavares (Esalq).

Mescla

A professora Rosângela Sarteschi (FFLCH) considerou produtiva a participação da entidade. A composição da delegação concorreu para esse resultado, na sua opinião. “Os delegados eram de origens bastante diversas: campi do interior, São Paulo, várias áreas do saber, o que foi bastante rico, expressa diversidade, heterogeneidade. Mesclou gente de bastante experiência com quem ainda não tinha participado, como eu”.

Garantiu-se assim, diz ela, uma troca de experiências: “Tínhamos uma dinâmica interessante ao longo da semana: no começo da manhã a gente se reunia, trocava impressões, agíamos realmente como um corpo”. Neste processo, assinala a professora, uma das descobertas foi a de que “temas que dizem respeito à nossa Universidade também estão sendo problematizados pelos colegas das federais, municipais e mesmo as particulares (em menor número), as questões são as mesmas”.

Rosângela acredita que o Congresso visa dar uma certa unidade ao movimento: “Seu desafio é construir essa unidade na heterogeneidade. Pensar essas questões no âmbito nacional é fazer com que se atinja uma unidade mínima sem escamotear as particularidades de cada universidade ou segmento (federais, estaduais, municipais, privadas). É um problema bastante complexo, exige um trabalho gigantesco. Fiquei impressionada”, admite.

Depoimento semelhante faz o professor Manoel Fernandes (FFLCH): “Aos docentes que puderam participar como delegados das atividades congressuais, como grupos mistos e plenárias, discutindo as teses de maneira ampla, o sentimento que se tem é de rico aprendizado e, nesse sentido, o Congresso teve um relevante papel na minha formação política”.

Carreira e cotas

“A Adusp apresentou importante contribuição para o debate, através de um texto de apoio, fruto das discussões que tivemos em 2009 quando da modificação da carreira docente na USP”, informa Sérgio Souto. “As discussões apontam para uma carreira vinculada a uma progressão academicamente justificada por formação continuada/titulação, isonômica e paritária com os aposentados”.

“A carreira interfere de maneira direta no cotidiano do trabalho de professoras e professores, desde aspectos relacionados à autonomia intelectual e aos salários, bem como elementos pertinentes à seguridade social e previdência”, observa Manoel Fernandes. “As resoluções congressuais apontam para os princípios sobre os quais se deve construir uma carreira única, que represente as melhores garantias ao exercício do trabalho diário e segurança aos docentes e seus dependentes. O debate sobre a carreira tem um sentido social amplo, que passa pela preservação e qualificação da universidade pública, capaz de produzir e disseminar ciência e tecnologia para resolver graves problemas da sociedade brasileira e da humanidade”.

Porém, a grande novidade do Congresso foi a mudança na política de cotas, que a professora Rosângela considera um avanço em tema tão polêmico: “Aprovou-se documento favorável às políticas afirmativas e políticas de cotas em âmbito nacional. Aponta para a necessidade de que essa discussão seja retomada no âmbito da USP. Esse debate tem que entrar na agenda da USP e da Adusp”.

Sérgio Souto, por sua vez, revela sua surpresa com a reviravolta ocorrida: “Sobre este tema, o Andes-SN alterou sua posição contrária à política de cotas. Surpreendeu-me esta deliberação devido à polêmica sobre o tema, à ‘rapidez’, em comparação aos vários congressos em que o assunto foi pautado antes da decisão do Andes-SN contrária à política de cotas, e ao fato de o texto para discussão ter sido apresentado somente na abertura do 29º Congresso”.

“Demandas”

Ao refletir sobre o Congresso, o professor Flávio se disse “inicialmente preocupado com o caderno de textos, que sinalizava dificuldade de apreciar temas que pareciam representar um ‘senso comum’ e temas que pareciam distantes da realidade do trabalho docente superior”.

Para ele, certas questões, embora relevantes no plano político mais geral, “aparentavam destoar dos problemas da vida docente e da carreira, da exclusão produtivista, dos problemas para educar jovens com outros valores e atitudes, da capacitação docente para enfrentar as duras condições de trabalho nas instituições públicas e, principalmente, nas particulares”.

A evolução dos trabalhos ajudou a perceber, diz ele, “que nas discussões estavam presentes questões subjacentes, de domínio de iniciados, indicativas de que muito há que se aprender e entender sobre as correntes políticas abrigadas no Andes”. Mas... “de repente, brotaram das discussões, como prioridade, lutar pelo registro sindical e as demandas da vida docente atual, com destaque para a carreira, os salários e as condições de trabalho”. Segundo Flávio, esses temas devem ocupar as duas chapas concorrentes à direção do Andes-SN.

 

Matéria publicada no Informativo nº 300