Uma comissão de sindicância, constituída pela Pró-Reitoria de Pesquisa, está investigando uma acusação de fraude científica contra o diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP), professor Rui Curi. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também abriu uma investigação.

Em razão das denúncias, publicadas originalmente no blogue ScienceFraud (mantido por um pesquisador norte-americano), Curi mandou despublicar um artigo seu de 2007, “Regulation of interleukin-2 signaling by fatty acids in human lymphocytes”, publicado no Journal of Lipid Research.

O professor Curi nega que tenha havido fraude, mas reconhece erros nas imagens que ilustram o artigo. “São erros que nós não vimos. Asseguro que não houve má-fé”, disse à Folha de S. Paulo o diretor do ICB. “Não houve fraude e sim erros na montagem das figuras”, declarou a O Estado de S. Paulo. Ele atribuiu os enganos à sua ex-aluna Renata Gorjão, orientanda de doutorado. Outros ex-alunos seus, como Sandro Hirabara e Rafael Lambertucci, também são coautores do artigo despublicado.

O caso chama atenção por algumas semelhanças com episódio ocorrido em 2009, quando veio a público denúncia de plágio contra um grupo de pesquisadores do qual fazia parte a então reitora Suely Vilela (vide Informativo Adusp 296). O líder do grupo, professor Andreimar Soares, da Faculdade de Ciências Farmacêu­ti­cas de Ribeirão Preto, seria demi­tido pela USP em 2011, após pro­cesso administrativo.

Na época, Soares também responsabilizou sua orientanda, uma das coautoras do artigo questionado, e (como no presente caso) por escolha indevida de imagens: “Deixo claro que não houve plágio, e sim que ocorreu um lamentável erro de substituição de figu­ras pela minha ex-aluna de douto­rado”, declarou ao Informativo Adusp. Ela teve seu título cassado pela USP.

Produtivismo?

Há fortes evidências de que o caso atual, como os demais episódios de má conduta científica ocorridos na USP, tenha como pano de fundo a exacerbação do produtivismo acadêmico.

O diretor do ICB tem o impressionante número de 503 artigos publicados, além de 475 resumos apresentados em congressos. Os dados constam do currículo Lattes do professor, atualizado em maio de 2012. Outro número muito expressivo: dos 503 artigos, nada menos do que 98 foram publicados desde 2009, portanto no período em que ele está à frente do ICB.

Quer dizer que, em apenas quatro anos — exatamente no período em que vem exercendo a direção do ICB, com todos os encargos administrativos que essa função acarreta — o professor publicou quase 20% da sua própria produção científica, iniciada há 30 anos. Note-se que alguns pesquisadores de prestígio na área, colegas seus com perfil acadêmico semelhante, têm pouco mais do que uma centena de artigos publicados ao longo da carreira.

No dia 4/2, o Informativo Adusp encaminhou ao professor Curi perguntas sobre o caso. Até o fechamento desta edição, em 7/2, não recebemos suas respostas.

Solidariedade

Movimentação inusual vem ocorrendo no ICB, tão logo se anunciou que o caso seria investigado. Os professores Luiz Roberto Britto, ex-diretor da unidade, e Benedito Corrêa, vice-diretor da atual gestão, fizeram circular um documento de solidariedade a Curi, no qual destacam a idoneidade “absolutamente inquestionável” do colega e afirmam que “uma denúncia de potenciais problemas em alguns poucos artigos publicados não pode destruir” o que chamam de “uma sólida carreira acadêmica”. 

O professor Esem Cerqueira, também do ICB, questionou a “insistência” de Britto e Corrêa em “enviar-nos mensagens eletrônicas cobrando adesão aos seus intentos”, e pedindo aos docentes da unidade que “não se omitam” na defesa de Curi. “Como assim, ‘não se omitam neste momento’? Desde quando somos obrigados a uma tomada de posição em favor (ou contra) de quem quer que seja?”, reagiu Cerqueira. “E neste caso, em favor de um colega, antes mesmo dos resultados das investigações prometidas pela Reitoria, Fapesp e CNPq?”

Informativo nº 357

Notas da Diretoria

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