Os intelectuais contra a Reforma da Previdência
(PEC 40)
"Esse governo
não pode começar com uma negociata"
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Um
ato de rebeldia: 10/6/2003
O ato contra a
PEC 40 (reforma da Previdência) realizado na USP no dia 10/6,
organizado pelo Fórum das Seis com apoio do Fórum Paulista das
Entidades em Defesa da Previdência Social, reuniu diversos professores
notáveis da USP, Unesp e Unicamp, além de sindicalistas e estudantes.
Reproduzimos aqui
os principais trechos dos discursos dos professores
Aziz Ab'Saber (USP e Unesp), Cândido
Vieitez (Unesp), Fábio
Konder Comparato (USP),
Francisco de Oliveira (USP), Marilena
Chauí (USP), Octávio Ianni (USP
e Unicamp), Warwick Estevam Kerr
(USP, Unesp e UFU), Wilson Cano (Unicamp)
e Ricardo Antunes (Unicamp).
Durante o ato foi
aprovado por aclamação pelos presentes o "Manifesto
de Alarme Contra a Proposta do Governo de Reforma da Previdência",
que exige a retirada do PEC 40 do Congresso Nacional e defende
a Previdência social pública, universal e solidária.
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| FÁBIO
KONDER COMPARATO Professor
titular da Faculdade de Direito da USP. Foi um dos advogados
de acusação no processo de impeachment do então
presidente Fernando Collor e um dos autores de uma ação
contra a privatização da Companhia Vale do Rio Doce. Publicou,
entre outros livros, Para viver a democracia. |
 |
| "Todo
o peso da estabilização recai sobre as camadas mais pobres.
Esta situação, no caso da Previdência, é frontalmente contrária
à Constituição" |
|
Não poderia deixar
de estar presente aqui para manifestar minha opinião. Todos nós
que elegemos Lula, e teimamos em manter até o último minuto a
esperança de que esse governo seja bem-sucedido, não podemos deixar
de lutar contra a colossal contradição que se instalou no governo.
De um lado, é bom que se diga, temos uma política externa independente
e democrática, como jamais ocorreu em toda a história política
do Brasil. De outro lado, todo o peso da estabilização financeira
e monetária recai sobre as camadas mais pobres da população. Esta
situação, especificamente no caso da Previdência Social, é, devo
dizê-lo, frontalmente contrária à Constituição. Infelizmente,
durante muito tempo negligenciamos o aperfeiçoamento desses instrumentos
jurídicos de proteção do povo. Para a maioria de todos nós intelectuais,
isso eram tecnicalidades que não tinham muito sentido. Hoje nós
vemos como o povo está desamparado.
Só vejo dois caminhos,
ambos já minados pelo poder das classes dominantes. Em primeiro
lugar, haveria necessidade de desenvolvermos um processo de referendo
dessa reforma previdenciária. Nós sabemos que o governo tem maioria
no Congresso e provavelmente vai conseguir aprovar na Câmara e
no Senado tanto a reforma tributária quanto a previdenciária,
mas nós deveríamos propor a realização de um referendo popular
para ratificação dessas reformas. Precisamos fazer com que um
terço da Câmara e um terço do Senado proponham a realização de
um referendo para aprovação desses projetos. É preciso entender
que a democracia essencialmente se funda na soberania popular
e no respeito integral aos direitos humanos.
O direito à Previdência,
à segurança social, é um direito fundamental, declarado como tal
na Constituição, portanto nenhum órgão do Estado tem competência
para reduzir as garantias que foram estabelecidas na Constituição.
Se este referendo não prosperar, temos o caminho da Ação Direta
de Inconstitucionalidade. De qualquer maneira, vamos manter sempre
a convicção e a esperança de que devemos atuar ligados ao povo
e nunca a um partido político ou a uma maioria ocasional.
|
| FRANCISCO
DE OLIVEIRA
Um dos fundadores do PT,
foi professor titular de Sociologia da USP e professor
de Economia da PUC-SP até 1998, quando se aposentou. É
coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania
da FFLCH. Publicou O elo perdido e Elegia para uma re(li)gião,
entre outras obras.
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 |
| "É preciso
dizer a que vem essa reforma da Previdência: se trata de
negócios, companheiros! Deixemos de mistificações ideológicas,
trata-se de negócios" |
|
É inacreditável
que tenhamos que voltar a este terreno da USP, como voltar à praça
pública, para defender o direito básico de trabalhadores. E eu
cobro da CUT, aqui neste momento, o fato de que os trabalhadores
públicos estão sendo demonizados como inimigos da Nação. É uma
ironia amarga que tenha sido um governo saído do Partido dos Trabalhadores
aquele que vai demonizar um dos pilares fundamentais da República
no Brasil, que são os funcionários públicos.
É um milagre das
oligarquias brasileiras que tenham transformado o funcionário
público no demônio da desigualdade, quando ele é exatamente o
contrário: se algo de igualitarismo e de república existe no Brasil,
deve-se em muito aos funcionários públicos, ao esforço de construir
uma esfera pública na qual os interesses de classe são submetidos
aos interesses comuns, ao bem estar geral.
Para ser breve,
é preciso dizer a que vem essa reforma da Previdência: se trata
de negócios, companheiros! E deixemos de mistificações ideológicas,
trata-se de negócios. A Previdência vale mais do que todas as
privatizações realizadas pelo governo Fernando Henrique. É disso
que se trata. E trata-se de uma ironia mais amarga que tenha sido
um governo do Partido dos Trabalhadores aquele que vai jogar o
destino dos trabalhadores públicos nas mãos do capital financeiro,
sujeito à volatilidade e à especulação. É nossa obrigação voltar
de novo a estes gramados, voltar de novo às ruas, fazer todos
os movimentos, inclusive as sugestões do professor Fábio Comparato,
para evitar esse verdadeiro assalto contra a República. É nossa
obrigação e aqui eu espero que seja o início de uma caminhada
que deve ser vitoriosa.
|
| RICARDO
ANTUNES Professor
titular de Sociologia do Trabalho na Unicamp. Foi
visiting research fellow na Universidade de Sussex
(Inglaterra). Entre os livros de sua autoria estão
Neoliberalismo, trabalho e sindicatos e Os sentidos
do trabalho. |
 |
| "Esta
contra-reforma está impondo a ampliação do tempo de trabalho,
ao invés de enfrentar o problema do desemprego"
|
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É um momento importante,
nem os mais críticos do atual governo poderiam ter idéia
de que os descaminhos do governo nos primeiros meses seriam de
tal envergadura. Nós não estamos à frente de uma reforma da Previdência.
Nós estamos na verdade à frente de uma contra-reforma da imprevidência.
No seu sentido privatista dos fundos de pensão, no seu sentido
de arrocho no conjunto, na média que se fará, da qual resultará
o salário ao final de um período, tudo isso configura um quadro
muito triste. Eu vou dar um ou dois exemplos só, para colaborar
pra gente poder entender como seria possível um sistema alternativo.
Temos no mundo
hoje uma situação explosiva de desemprego. A população humana
que trabalha é de 4 bilhões de pessoas. Um terço delas se encontram
precarizadas, realizando trabalhos parciais, temporários, e uma
parcela - que a OIT fala em 185 milhões de pessoas mas que
é muito mais do que isso - se encontra desempregada. Qualquer
governo que queira contrapor-se a esta questão, a esta barbárie
que é o desemprego, qualquer governo que queira minimamente obstar
esse projeto de quebra da dignidade humana, pois que não ter trabalho
no mundo atual é a perda completa da dignidade humana, que faria?
Lutaria, como lutam os sindicatos e os trabalhadores em escala
ampliada, pela redução da jornada e do tempo de trabalho.
O que é que esta
contra-reforma da imprevidência está nos impondo? É o contrário,
é a ampliação do tempo de trabalho. As classes trabalhadoras devem
trabalhar mais tempo, as mulheres devem trabalhar mais tempo,
os homens devem trabalhar mais tempo, de modo que o desemprego
aumente, e os lucros que decorrem dos investimentos da Previdência
se beneficiem, o capital volátil, este que o Chico de Oliveira
acaba de nos mencionar. Foi dito também aqui que se há um espaço
que dignifica e que traz cidadania, essa palavra é tão usada,
tantos setores falam tão livremente em cidadania, pois se quer
desmontar talvez o único espaço de prática de um trabalho de cidadania.
E se quer enfrentar o desemprego - o atual governo falava
em criar 10 milhões de empregos - como, ampliando o tempo
de trabalho? Então nós estamos numa situação em que, primeiro,
é possível mostrar que há alternativas. Por essa mesma batalha
lutam hoje os trabalhadores na França, por essa mesma batalha
ontem fizeram manifestações até os trabalhadores na Áustria.
É muito importante
que, além desses embates travados nas esferas política e jurídica,
ressurja um movimento popular forte, um movimento dos funcionários
públicos, aliado com outros setores importantes que vão se prejudicar.
Essa reforma não é uma reforma nem universal, nem digna, nem generalizante
para o conjunto dos trabalhadores. Ela acaba precarizando uma
grande parte também do trabalhador assalariado. Falava-se
tanto na teoria do pêndulo no governo passado, nós sabemos que
no governo passado o pêndulo nunca mudou de lado. O que nos assusta
é que nesse governo o pêndulo continue estancado, no mesmo lado
direito. Só com luta social, só com pressão popular, só com manifestação.
É triste não vermos
os 30 deputados, que nós apoiamos. Eles não estão aqui hoje porque,
dizem os jornais hoje, o José Dirceu está incumbido de reprimir
os deputados que apoiarem a ação do funcionalismo público, está
na Folha de S. Paulo de hoje. Só pressão popular, só massa de
trabalhadores, nós professores, nós funcionários, nós estudantes,
e tentando, como na campanha pelo SOS Universidade, conseguir
o apoio popular. Nós queremos sim uma reforma da Previdência que
seja digna, que seja ampla, e que seja universal, e isso que está
aí é um engodo de reforma da Previdência e a ela nós temos que
dizer não.
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| OCTÁVIO
IANNI Professor
emérito de Sociologia da Unicamp e da USP. Professor honoris
causa da Universidade Federal do Paraná e da Universidade
de Buenos Aires. Autor de vários livros, entre os quais
Estado e planejamento econômico no Brasil e
Imperialismo na América Latina. |
 |
| "Todos
devemos estar preparados para a tempestade que se anuncia
com esses ventos" |
| |
Faz tempo que nós
estamos lutando pela democracia e por justiça social. Alguns de
nós estamos nesta batalha desde o declínio do Estado Novo, desde
as lutas contra o nazi-fascismo e a ironia da história é que nós
continuamos na mesma situação. Precisamos nos organizar, nos mobilizar
e nos conscientizar para que os nossos direitos precários ainda
sejam preservados e outros novos direitos sejam conquistados.
Em todo o mundo
as conquistas sociais estão sendo desbaratadas. O Estado do Bem-Estar
Social está sendo mutilado no Brasil, em países da América Latina,
Europa e Estados Unidos, sem esquecer é claro a Ásia e a África.
No caso do Brasil estamos assistindo a um processo de desmonte
radical do projeto nacional.
Todos sabemos que
durante os anos 30-64 se montou no Brasil um vigoroso projeto
nacional. Não é o projeto dos meus sonhos e certamente não é o
projeto dos sonhos de muitos aqui. Mas foi um poderoso projeto
nacional, simbolizado, por quê não?, em Celso Furtado, em Juscelino
Kubitschek, com a participação de muitos setores sociais que contribuíram
para que este projeto alcançasse realizações excepcionais.
Pois bem, desde
a ditadura militar, e agora pelos governos civis, estamos assistindo
a um sistemático desmonte do projeto nacional. A Previdência é
um dos capítulos do processo de desmontagem do projeto nacional
e claro, do Estado de Bem-Estar Social muito precário que se havia
alcançado.
E é lastimável,
é de fato uma profunda e grave decepção que nós estejamos aqui
reunidos para protestar contra as providências que este governo
está adotando e que significam na minha maneira de ver uma das
fases finais, se não a fase final, de desmonte do projeto nacional
e do desmonte do Estado de Bem-Estar Social.
Mas a triste realidade
é que também este governo já se entregou gostosamente às diretrizes,
às práticas e à ideologia do neoliberalismo.
O que o governo
está semeando é uma tempestade. Todos devemos estar preparados
para a tempestade que se anuncia com esses ventos. Essa será,
muito provavelmente, a ocasião em que os diferentes setores, classes
e grupos sociais subalternos, organizados e atuantes, encarregar-se-ão
de "educar duramente o Estado", criando um novo e transparente
metabolismo entre as tendências predominantes na sociedade civil
e um outro e novo Estado.
|
| CÂNDIDO
VIEITEZ
Sociólogo,
professor aposentado da Faculdade de Filosofia e Ciências
de Marília (Unesp), da qual também foi diretor. Autor
dos livros Trabalho Associado - Cooperativas e Empresas
de Autogestão e Reforma Nacional-Democrática e
Contra-Reforma: a política do PCB no coração do ABC Paulista/1956-1964. |
 |
| "É
preciso apelar para o povo trabalhador, é preciso nos organizarmos
tantas vezes quantas sejam necessárias, e lutar contra esse
tipo de reforma" |
|
A CUT é um sindicato
que emergiu no país com uma proposta nova, sobre a qual se gastaram
rios de tinta de louvor dizendo da sua importância, da renovação
que ela traria ao sindicalismo brasileiro. E hoje nós vemos com
alguma perplexidade a CUT não se posicionar, não se colocar como
imaginávamos que o faria. Com relação à reforma da Previdência,
como já foi colocado por outros colegas da mesa, vemos esse assalto
aos direitos dos trabalhadores desde os anos 70. Me parece um
movimento mundial. Direitos que nós imaginávamos que já fariam
parte da civilização, que estariam consolidados, que estariam
incorporados na sociedade. E no entanto vemos que isso não é verdade
e parece que a gente volta sempre ao mundo de partida.
Esperávamos - muitos
de nós, mesmo não sendo petistas, esperávamos - que a posição
do PT face a esse tipo de problemas, reforma da Previdência, saúde,
legislação trabalhista, fosse de outra natureza. A reforma da
Previdência proposta, como já foi dito, absolutamente não parece
um problema de orçamento, mas um problema político, um problema
de criar negócios, um problema de transferir renda, não para o
trabalho, mas para o capital, uma violenta transferência de renda,
mais uma. É uma coisa realmente muito triste de verificar que
um governo que tem se dirigido aos trabalhadores, e que certamente
pôde chegar onde chegou devido ao voto popular, agora esteja nesta
posição que de popular obviamente não tem nada.
É complicado, porque
nos perguntamos para onde vamos, quais são as organizações que
nos representam, quais são as organizações nas quais poderemos
confiar. Obviamente não tenho a resposta, mas é preciso persistir,
é preciso apelar para o povo trabalhador, é preciso nos organizarmos
tantas vezes quantas sejam necessárias, e lutar contra esse tipo
de reforma, e outras virão, se as coisas continuarem nesse pé,
virá uma reforma trabalhista, já se diz disso, que também não
terá um teor absolutamente popular, mas muito pelo contrário.
Então penso
que precisamos usar a imaginação, mas resistir, nos organizarmos
pela base, e seguir o exemplo do Fórum das Seis, conclamar os
brios da CUT e os demais sindicatos, no sentido de que possamos
resistir, se possível evitar esse prejuízo que está posto e outros
que provavelmente virão se as coisas continuarem assim.
|
| WILSON
CANO Professor
titular de Economia na Unicamp. Foi professor titular
em cursos da Cepal, de 1966 a 1980. Publicou os livros
Soberania e Política Econômica na América Latina
e Reflexões sobre o Brasil e a Nova (Des)Ordem Internacional. |
 |
| "Não
é verdade que a questão da reforma tenha como objetivo a
resolução de um problema fiscal imediato. Isto é um engodo"
|
|
Ao invés de estarmos
hoje vivendo o sonho da reconstrução, estamos vivendo como que
um verdadeiro pesadelo. As finanças públicas constituem um saco
de mágico. Durante todos esses anos, os vários governos foram
tirando os coelhos possíveis. E sobraram dentro desse saco só
coelhos muito complicados de serem tocados. O grande chama-se
receitas vinculadas, saúde e educação, e o governo não pode meter
a mão nesse dinheiro. Tem outro dinheiro sagrado, intocável, que
é o dinheiro dos juros dos banqueiros. E o que no passado nós
imaginávamos que dificilmente seria tocado, que é o dinheiro do
pagamento dos funcionários públicos da ativa e inativos. Na verdade
só restou ao governo agora passar o caco de telha nos gastos da
Previdência pública federal. É o que sobrou. Não há mais coelhos
nessa cartola.
O governo contou
com o velho preconceito da classe média, e incutiu esse preconceito
muito bem na classe operária, nos comerciários, nos bancários,
tentando mostrar sempre o funcionário público com aquela imagem
do estúpido barnabé ou da gostosona, da Maria Candelária. Por
isso a condução da reforma da Previdência, ao contrário do que
desejaríamos, está avançando a passos largos, e vai ser extremamente
difícil para nós fazer algum retoque substancioso nesse maldito
projeto.
Mas esse reajuste
será insuficiente, dado que não é verdade que a questão da reforma
tenha como objetivo a resolução de um problema fiscal imediato.
Isto é um engodo. O crescimento adicional de renda que ela vai
proporcionar ou está automaticamente comprometido com os novos
aumentos da aposentadoria, ou gerará um pequeno acréscimo na receita
incapaz de dar ao menos um respiro. Vai sobrar o quê? Vai sobrar
passar àquelas verbas vinculadas de uma forma camuflada. Qual
é a forma camuflada? É a "focalização", que já vem recebendo
documentos oficiais do Ministério da Fazenda. Tentando implantar
no Brasil o receituário do Banco Mundial. E com isso eu afirmo
perante a opinião pública que continuo a realizar gastos sociais.
O que tem essa
reforma de verdade e o que tem essa reforma de mentira? Primeiro
se infligiu à mídia o número astronômico de que o gasto era de
R$ 75 bilhões. Esse é o primeiro engodo. Esse número tem que ser
dividido em três partes: R$ 17 bilhões eles atribuem ao INSS,
R$ 39 bilhões atribuem ao governo federal, e o restante aos governos
estaduais e municipais. São três os problemas, e de naturezas
diversas. É portanto uma impropriedade este governo e esta mídia
juntarem esses três animais em uma só jaula. Se metade da dívida
de R$ 160 bilhões fosse cobrada, e se a ela fossem aplicados os
juros que damos prazerosamente ao sistema financeiro (26,5%, que
é um escândalo), daríamos ao INSS mais R$ 22 bilhões por ano.
Mais ainda, com
o artifício da desvinculação das receitas orçamentárias federais,
que faz o governo? Ele separa 20% de tudo o que entra no Tesouro
Nacional, seja dinheiro marcado, seja dinheiro não marcado. No
final do ano, ele transfere ao INSS, rotulando esse dinheiro como
transferência do governo federal, como se estivesse tapando o
buraco da Previdência Social. Ora, meu Deus do céu! O orçamento
da Previdência Social foi superavitário no ano passado em R$ 33
bilhões, e esses R$ 33 bilhões deveriam ser aplicados portanto
na Previdência, não para déficit, porque não existe sistema previdenciário
no planeta que seja superavitário. Seria aliás um contra-senso,
que existisse sistema previdenciário que fosse superavitário.
Esse déficit portanto é um engodo.
Ontem estive num
debate com o Ministro, e tive o prazer de dizer a ele: "Ministro,
cuidado, porque no projeto vocês elevaram o teto do INSS mas não
constituiram nenhum fundo de acumulação. Vocês vão fazer com esse
dinheiro como todos os governos anteriores, que nunca constituíram
um fundo de acumulação para o INSS?", e aí dei a receita:
"Ministro, pegue esse dinheiro e aplique durante 14 anos,
pague a ele apenas um terço do que vocês pagam aos banqueiros,
ou seja, dê 5% de juros reais, que em 14 anos acaba o 'déficit'
do INSS. Sem fazer nenhuma reforma. Sem mexer na Previdência pública
federal".
Estamos caminhando
infelizmente para um projeto de reforma previdenciária que, se
vingar do jeito que está, estaremos produzindo um novo sistema
perverso de regressão na distribuição de renda nesse país. Uma
figura fantasmagórica, Robin Hood às avessas, travestido, que
não rouba dos ricos para dar aos pobres, que não tira da classe
média para dar aos pobres, mas que vai tirar da classe média para
dar ao sistema financeiro a absoluta garantia de que todas as
dividas serão pagas.
|
| WARWICK
KERR Biólogo
geneticista, foi professor da USP, Unesp, UFU e UFMA.
Foi reitor da UEMA, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas
da Amazônia (Inpa), presidente da SBPC e o primeiro diretor
científico da Fapesp. É membro da National Academy of
Sciences (EUA). |
 |
| "Para
onde vai esse dinheiro que vão tirar da gente, será que
é para os mais pobres? Não. A proposta do Lula é altamente
capitalista" |
|
Queria fazer aos
caros colegas uma confissão. Eu votei no Lula três vezes. Se continuar
como está não voto a quarta. O resultado grande, maléfico e terrível
que eu vejo com a privatização da Previdência é que ela acaba
com a aposentadoria integral. Mas isso será bom? Estamos assistindo
a um processo de preparo de aposentadorias que, se consumado,
fará drenar cérebros daqui para fora ou para a inatividade. É
a destruição de uma parte importante do pensamento brasileiro.
A Previdência era
integral e além disso qual é o contrato que o Lula fez com a gente?
O que ele encontrou? Encontrou a Previdência integral e a paridade
entre ativos e aposentados. Isso aí me tem feito um bem que vocês
nem imaginam, não parei de trabalhar um minuto. Depois dos 70
anos, a aposentadoria é compulsória. Mas várias universidades,
e a minha também, e aqui também, fizeram um negócio lindo. Se
o professor quiser trabalhar, ele pode usar as instalações, mas
tem que usar um documento de que ele jamais requererá o dinheiro
do seu trabalho. Ele trabalha de graça mesmo. É o meu caso. Que
gostoso que é trabalhar de graça. Aposentei-me aos 70 anos, ou
seja, estou há 11 anos com trabalho de graça para a universidade.
E assim estão muitos outros, já ouvi falar do Aziz, Pavan, Frota-Pessoa
etc, são pessoas que trabalham de graça há bastante tempo.
A pergunta que
a gente faz é para onde vai esse dinheiro que vão tirar da gente,
será que é para os bolsos dos trabalhadores mais pobres, para
resolver os enormes problemas sociais do país? Não. A proposta
do Lula é altamente capitalista. Vai para fundos de capitalização
organizados por banqueiros ou sindicatos, mas em ambos os casos
o dinheiro irá para a especulação financeira mais rentável, quer
dizer, aquela que mais explora os trabalhadores e o país. E de
vez em sempre a especulação leva à quebradeira e os fundos de
pensão também viram pó. É o caso da Capemi. Se a gente pusesse
aqui seriam 20 exemplos. Os Estados Unidos têm um monte. A Enron
foi um negócio formidável.
|
| AZIZ
AB'SABER Professor
emérito de Geografia da USP, professor honorário do Instituto
de Estudos Avançados da USP, presidente de honra da SBPC.
Atuou como conselheiro de Lula nas Caravanas de Cidadania
da campanha presidencial de 1989. Autor de Amazônia
- do discurso à práxis, entre outros livros. |
 |
| "Querer
que a gente vá para debaixo da ponte é crime nacional, e
uma tragédia econômica. Os governantes são idiotas!"
|
|
Em primeiro lugar,
tenho a maior dificuldade para falar para a juventude brasileira
e sobretudo para a juventude que está reunida aqui. Nós tínhamos
um ideário da verdadeira democracia, tínhamos um ideário da universidade
formando pessoas das mais diversas áreas para servir ao país,
reorientar o país em tudo o que fosse necessário, e de repente
parece que tudo se acabou. E as chamadas reformas do governo estão
de tal maneira atabalhoadas e de tal maneira sem confiança da
população, dos intelectuais, dos cientistas, que nós não temos
mais nada a dizer a não ser protestar. E eu queria lembrar aos
jovens aqui presentes que há muitos anos houve um movimento de
jovens muito bonito, extraordinário, em que se reviu o conceito
de universidade e passou-se a entender a universidade como uma
espécie de templo do saber mas muito mais do que isso, uma universidade
critica, uma universidade capaz de observar, de meditar, de criticar
as coisas erradas, de defender as coisas certas e sobretudo pensar
no país como um todo e não no detalhe.
Dentre as coisas
que eu posso lhes dizer, que vêm acontecendo, e que nos deixam
mais do que indignados, eu pessoalmente não posso me indignar,
uma vez eu fui ouvir uma palestra sobre a Amazônia e tinha um
representante do Fernando Henrique num canto, e o último a falar
foi ele. Ele então se virou para as pessoas que falaram coisas
muito boas e disse o seguinte: "Eu ouvi falar muito em índios,
será que vocês não têm capacidade de ensinar economia auto-sustentável
para os índios?" Depois dessa eu saí da sala e cheguei
em casa e já tinha perdido um olho, uma trombose.
Há um mês algumas
pessoas, entre elas um representante de uma ONG tradicional de
São Paulo, retiraram um velho projeto do Fernando Henrique de
concessão de área na Amazônia para grupos nacionais e estrangeiros,
leia-se ONGs, que quisessem vir para a Amazônia e fazer economia
sustentável para o governo. E no governo Fernando Henrique se
pensou em 50 milhões de hectares. Provavelmente poucas pessoas
entre nós sabem que 1 milhão de hectares é 10 mil km quadrados
de área. 50 milhões de hectares são 500 mil km quadrados de área,
duas vezes o Estado de São Paulo.
Mas agora retiraram
o projeto e falaram em 25 milhões de hectares, que continua sendo
uma somatória igual ao Estado de São Paulo. Fizeram um jantar
aqui em São Paulo para a pobre Marina, eu gosto muito dela, mas
ela é simplória e atenciosa e gostou muito que o pessoal se reunisse
para fazer um jantar para ela, e alguns entregaram ao governo
os seus ideais de ONG. E mandaram para a Suíça um senhor chamado
Tarso, aparentemente Tarso de Carvalho. É o único nome que eu
gostaria de citar aqui criticamente, sobre quem eu tive as informações
dos professores de Piracicaba e do Horto Florestal de São Paulo.
Uma pessoa apenas falante, que não sabe coisa nenhuma de Brasil
e da Amazônia, e ele foi enviado para a Suíça para negociar as
áreas da Amazônia, esses 25 milhões de hectares que na verdade
no projeto estão como 50 milhões de hectares. E nós protestamos,
eu fui um que protestei, e a Marina mandou parar com o processo.
Pois bem, esse
moço estava lá em Genebra para oferecer áreas quando a Marina
percebeu que existiriam muitas críticas, e o resultado foi que
ela bloqueou o processo. E aí o cidadão que comandava o processo
de uma ONG famosa de São Paulo disse o seguinte: "Nós vamos
realmente retirar o processo, mas não vamos abandonar a idéia,
vamos apenas melhorá-lo". Quer dizer, vão reduzir um pouquinho
dos 25 milhões de hectares ou dos 50 milhões de hectares e vai
continuar assim.
Então, para os
jovens que estão aqui presentes, e as pessoas que são da nossa
amizade, da nossa consideração e da nossa confiança, eu devo dizer
que nós da universidade vamos ter que ter uma necessidade nova.
Escolher professores sem pré-indicações de um ou de outro componente
do departamento, como acontece aqui dentro da Universidade de
São Paulo, coisa absurda. Eu queria dizer a vocês que uma das
melhores pessoas que saíram de Rio Claro, formada em biologia,
depois fez pós na Alemanha, é uma competentíssima pesquisadora,
não foi aceita na USP, foi para a Austrália. Ficou dois anos
lá, e parece que ela não era apreciada por alguns membros do departamento
ao qual eu servi por 36 anos. Então essas coisas desagradam, não
podemos mais deixar que aconteçam coisas como essa.
É a hora de meditar,
de pesquisar, de criticar os governantes, não no nível pessoal,
mas no nível de idéias erradas, de propostas erradas, de
reformas absurdas. As pessoas que já falaram aqui mostraram
que a reforma pode dar em nada. Tirar um pouco de dinheiro de
alguns de nós que fizemos uma carreira de 36 anos e trabalhamos
há 54 anos na universidade não é nada, podem tirar. Mas querer
que a gente vá para debaixo da ponte, e que eles façam do dinheiro
o que eles queiram é crime, crime nacional, não há como aceitar
estas coisas.
Por outro lado,
do ponto de vista econômico é uma tragédia, porque professor,
classes médias profissionais, ganham para poder comprar as coisas,
as coisas que as indústrias fazem e que a zona rural produz. Ninguém
tem dinheiro para mandar para o exterior, é aquilo que movimenta
o mercado, e isso não está na cabeça dos governantes. Eles são
idiotas, idiotas e idiotas no meu modo de ver!
Outra coisa que
eu queria lhes dizer para completar está relacionada com a tragédia
da CPI. Agora ficou caracterizado que houve a saída por parte
de pessoas bem aquinhoadas, que tiveram grandes riquezas, de 30
bilhões de reais ou dólares, não se sabe bem, para os EUA, e o
governo não quer fazer a CPI desse fato, mas querem fazer
a reforma da Previdência e outras reformas inúteis. Às vezes eu
tenho a impressão de que não está havendo nada em relação ao futuro
do país.
|
| MARILENA
CHAUÍ Professora
titular de Filosofia da USP. Foi secretária municipal
de Cultura da Prefeitura de São Paulo entre 1989 e 1992.
O que é Ideologia, Brasil - mito fundador
e sociedade autoritária e Conformismo e Resistência
estão entre os diversos livros de sua autoria. |
 |
| "Precisamos
impedir o colapso, o fracasso e a direitização de um governo
de esquerda que está lá porque nós o construímos"
|
|
A exposição do
Wilson Cano foi decisiva porque muito impressionante. Podemos
levantar duas questões. A primeira é por quê, não sendo necessária
esta reforma (uma reforma sim, mas não esta), e sendo inconstitucional,
por que é que ela está sendo feita. E levar em conta o que diz
o Chico de Oliveira, que essa reforma rende mais do que qualquer
privatização feita no governo Fernando Henrique e portanto está
ligada a uma negociata. Isso para nós petistas é de uma gravidade
sem precedentes, porque nos força a deslocar a discussão do campo
econômico e do campo político e do campo ideológico para o campo
ético puro e simples. Quando me preparei para dizer o que ia dizer,
o Wilson Cano e o Chico ainda não tinham falado. Mas não mudei
de opinião quanto a algumas coisas que vou dizer aqui.
Podemos dizer que,
do ponto de vista de um governo petista, o primeiro equívoco foi
tomar como prioritário um tema que pertencia à agenda do Fernando
Henrique. Você não poderia, do ponto de vista da política entendida
como operação com símbolos, propor como primeira reforma do seu
governo aquilo que era a agenda prioritária do governo adversário
que você derrotou.
Há um segundo equívoco
gravíssimo. Ao propor esta reforma o governo abriu uma brecha
que tende a se tornar um verdadeiro abismo que o separa de uma
base social e política fundamental. Essa base política construiu,
junto com outros, o Partido dos Trabalhadores e se organizou como
oposição no interior da sociedade. Elegeu esse governo e está
sendo afastada desse governo. Então, a reforma produz um corte
político entre o governo e uma base de sustentação essencial,
que será de gravíssimas conseqüências para o futuro.
O terceiro equívoco
é de timing, na medida em que o governo nos diz que ao encontrar
o país se desmanchando como uma geléia e uma expectativa nacional
e internacional de que o país estava acabado de maneira mais terrível
do que a Argentina, e que os coveiros disso seriam os petistas,
houve a decisão de fazer o que eles chamam de reversão de expectativas,
e demonstrar que o país não quebraria nas mãos do PT. Sabemos
o preço de fazer isso, todos nós sabemos. Ora, no instante mesmo
em que o governo julga necessário reverter expectativas dos organismos
internacionais e da classe dominante brasileira, ele não pode
fazer uma proposta de reforma previdenciária na qual anula o pólo
antagônico, isto é, o pólo trabalhador.
Esta reforma é
um enorme equívoco do governo. Abre uma contradição entre a sua
proposta afirmada de inclusão e cidadania e uma proposta efetivada
de exclusão. Então eu penso que mais do que nunca nós estamos
convocados a uma ação política, temos a tarefa política de fazer
isso para que efetivamente o governo de esquerda que nós elegemos
possa se realizar. Penso que nossa tarefa de crítica, de contestação,
de esclarecimento, de informação, de retomada no plano racional,
político e técnico dessa questão é um dever histórico que temos,
é uma tarefa política indeclinável, porque da nossa ação com relação
a essa primeira exposição social do governo, do resultado da nossa
ação, depende o que vai acontecer com o restante desse governo.
É uma hora muito grave, estou sugerindo a nossa responsabilidade
histórica de impedir o colapso, o fracasso e a direitização de
um governo de esquerda que está lá porque nós o construímos. Esse
governo não pode começar com uma negociata. Não foi para isso
que trabalhamos durante 30 anos.