Sintusp refuta argumento de que democratização
da USP reproduziria demandas corporativas
Diretor do sindicato afirma que titulares são os que praticam
coorporativismo ao deterem a maioria das vagas nos colegiados
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| Aníbal Cavali acredita que a democratização da USP trará benefícios para a sociedade como um todo |
Aqueles que são contra mudanças na estrutura de poder da USP sob o argumento de que colegiados paritários reproduziriam demandas corporativas de docentes, funcionários e estudantes, na verdade, exercem um corporativismo na universidade. É o que afirma o diretor do Sintusp Aníbal Cavali em entrevista ao Informativo Adusp. Cavali, que é funcionário da Tesouraria da Faculdade de Direito, falou em nome da entidade sobre as relações de poder na USP sob o ponto de vista dos funcionários.
“Se a grande maioria dos que comandam [a universidade] são os [professores] titulares, o corporativismo está na mão deles”, constata Cavali, numa referência ao fato de os docentes com a referida titulação comporem a maior parte das vagas nos colegiados da universidade. Para o funcionário, a participação de toda a comunidade nas decisões quebraria esse corporativismo.
“Toda a rotina de trabalho da universidade não fica apenas nas mãos dos docentes. Tem um corpo que dá toda uma base para que o ensino seja de fato aplicado”, diz Cavali. Dentre os funcionários, ele cita que há aqueles que trabalham em áreas essenciais para que a universidade desempenhe suas funções (ensino, pesquisa e extensão), como os técnicos de laboratório e os bibliotecários, por exemplo.
Cavali, porém, ressalta que todos contribuem para que a USP funcione, “desde a copeira que faz café para levar para uma reunião até um responsável por estar movimentando recursos de uma determinada unidade ou departamento”. Assim, é ilógico que as decisões na USP sejam tomadas apenas por uma “fatia” dos membros da comunidade, deixando de lado os professores associados e os doutores, os funcionários e os estudantes. “Quer dizer: o resto não contribui para a universidade?”.
“Fica como se a gente não fosse parte da engrenagem”. A constatação de Cavali talvez traduza o sentimento dos funcionários quanto à atual estrutura de poder da universidade. Afinal, segundo informações do Anuário Estatístico da USP (http://sistemas.usp.br/anuario), em 2003, o número de servidores não-docentes chegava a quase 15 mil, três vezes mais que o número de professores (aproximadamente 5 mil). Por outro lado, o Conselho Universitário (Co) apenas conta com três representantes dos funcionários, enquanto os titulares são 83 dos 108 membros com direito a voto, o que corresponde a 76% do total.
Os próprios estudantes, cuja participação limitada nos colegiados é justificada sob o argumento de que são pessoas que estão na universidade por um curto período, possuem mais representantes no Co que os funcionários: são oito de graduação e quatro de pós-graduação.
Estranhos no ninho
“Nós não somos mais nem menos”, protesta Cavali. O tratamento dispensado aos funcionários nos colegiados fica evidente com o relato de situações vividas por eles e aponta uma situação em que os limites a sua atuação em tais fóruns decorrem, além do baixo número de representantes, de um preconceito contra a categoria, ainda que enrustido, principalmente por parte dos docentes.
“Quando a gente ia se pronunciar, os professores às vezes chegavam a debruçar no encosto da cadeira onde estavam e olhar para trás para ver quem estava falando. E a gente percebia com o olhar de um e de outro um certo ‘pouco-caso’”, relata Cavali sobre sua experiência na Congregação da Faculdade de Direito, da qual foi membro de 2001 a 2003. “Depois, é lógico, com o tempo, com a atuação dos representantes [dos funcionários], a gente já notava que os olhares começavam a mudar um pouco”. Os funcionários, conta Cavali, não eram mais vistos como “estranhos”. “Quer dizer, estranhos no ninho sempre somos, mas [depois de um tempo] não somos mais vistos com total desconsideração”.
Desconsideração que parece ser recorrente. Em reportagem publicada na edição 190 do Informativo Adusp (17/6/2005), um outro diretor do Sintusp, Magno de Carvalho, relata que muitos docentes tratam os funcionários da universidade como se fossem seus empregados e conta que os representantes da categoria no Co ocupam as últimas fileiras na sala do conselho, tendo dificuldades para expressarem suas opiniões. Isso se torna mais grave se considerado o fato de que os três representantes dos funcionários correspondem a menos de 3% desse órgão deliberativo.
Há uma tendência de que essa estrutura de poder se reproduza nas unidades. Cada uma delas possui um Conselho Técnico-Adminsitrativo (CTA), ou órgão equivalente, responsável por tomar decisões acerca da carreira dos funcionários. Na medida em que os CTAs são compostos em sua maioria por professores, as decisões tendem a ser contrárias a interesses dos servidores não-docentes, argumenta Cavali.
No entanto, ele destaca que a falta de democracia é mais do que isso. “Não é o fato de, em um dado momento, sermos prejudicados por estarmos representados de forma desproporcional. Fica na questão de não participarmos de fato das decisões [em geral]”, afirma Cavali, que também aponta a falta de transparência como prejudicial ao funcionamento dos colegiados. Informações, como calendários e cronogramas, ficam, segundo o funcionário, nas mãos de poucos indivíduos. Já que, como ele diz, não há “uma divulgação ampla” desses dados por parte dos integrantes dos órgãos deliberativos, muitos acabam perdendo os prazos para a apresentação, por exemplo, de recursos contra decisões já tomadas.
Mas Cavali acredita que os benefícios da democratização da USP não serão sentidos apenas por seus colegas, tampouco ficarão circunscritos nos territórios delimitados pelos muros e cercas dos campi. Ele afirma que a participação de todos os segmentos que contribuem para o funcionamento da universidade na definição de seus rumos resultaria em resultados positivos para a sociedade como um todo.
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