Uma Nova Andes é Possível: Plural e de Luta
(Maria Aparecida Ramos de Meneses, candidata à presidência do Andes pela Chapa 2)
Quais
os grandes desafios que a Universidade Pública enfrenta atualmente?
De começo, seria ocioso lembrar que a instituição universitária
vive, em plano mundial, e já de algum tempo, uma crise de identidade
de largo fôlego. O primeiro elemento estruturante dessa crise é que,
na condição de instituição muito antiga surgida na Europa
Ocidental na passagem da alta idade média para a baixa idade média
, a Universidade é um pouco anterior inclusive ao movimento histórico
de formação dos Estados nacionais e do adensamento da forma social
de produção de riqueza que denominamos de capitalista. Ora, como
instituição anterior a eles (e felizmente sobrevivente), a autonomia
da Universidade é freqüentemente acossada tanto pelo Estado como
pelo mercado. A contenda entre a autonomia da Universidade e os
vetores do Estado e do mercado é o fulcro da crise contemporânea da
vida universitária.
No
caso brasileiro, podemos aduzir uma outra determinação: o problema
histórico da dependência brasileira. Darcy Ribeiro, que formulou a
infame LDB que aí está, mas também produziu reflexões críticas
importante sobre a Universidade, falava, nas situações de dependência,
de uma Universidade reflexa, ou seja, a Universidade-moda, cópia
das últimas novidades de fora, mas ao mesmo tempo superficial e cosmética.
Não creio que as instituições públicas universitárias brasileiras
sejam cosméticas existente densidade científica e intelectual
entre nós , mas, ao mesmo tempo, a luta entre duas tendências é
permanente. Dessa maneira, temos no Brasil uma crise universitária de
três vetores somados o Estado, o mercado e a dependência.
O
sistema brasileiro de universidades públicas, federais e estaduais,
foi uma criação fantástica, unificam o Brasil do Acre ao Rio Grande
do Sul num padrão mínimo de excelência em ensino, pesquisa e extensão.
Aqui reside uma diferença fundamental entre o que pensamos e o
projeto universitário do governo FHC. As iniciativas desse governo,
no lugar de, a partir desse padrão mínimo existente, atingir um
patamar de padrão unitário, vai exatamente no sentido oposto
destruir o padrão mínimo. Haja irresponsabilidade!
Vejamos
o projeto mais articulado ungindo no atual governo, a proposta de
Bresser Pereira de transformar as universidades públicas no que ele
denominava de instituições sociais. Entre outros defeitos, a
proposta da organizações sociais demonstra uma ignorância
impressionante de história do Brasil e da trajetória das instituições
públicas no país, porque busca copiar a forma de organização da
sociedade civil nos países de tradição anglo-saxônica,
principalmente os EUA. Mais uma macaqueação. O logro da proposta de
Bresser é que a forma histórica que o pública assumiu no Brasil
salvo pontuais exceções foi a estatal. A presente que temos é
publicizar as universidades financiadas com o fundo estatal, torná-las
transparentes, e não transformá-las em instituições privadas, mas
que sob o rótulo, aparentemente charmoso, de público não-estatal.
Recordo
um debate que crivou o movimento docente brasileiro há quatro anos, e
hoje está um pouco esquecido: se deveríamos, naquele momento, partir
para regulamentar o artigo 207 da Constituição (que consagra o princípio
da autonomia universitária). Somos pela auto-aplicabilidade, mas o
sistema universitário brasileiro precisa de regulações que garantam
princípios de uma verdadeira autonomia universitária: a qualidade do
ensino, a liberdade de cátedra, a pesquisa voltada para o
desenvolvimento social, etc. A perversidade dos últimos anos é que o
artigo 207 foi usado tão somente como biombo para os lucrativos negócios
de credenciamento de novas universidades particulares, a maioria de
qualidade duvidosa.
A
nova diretoria da Andes deve retomar o debate sobre a autonomia
universitária e argüir a necessidade de uma regulação
verdadeiramente pública do sistema de ensino superior brasileiro. O núcleo
da regulação da autonomia não deve ser os escalões do MEC, nem o
Conselho Federal de Educação com seus lobbies, esquemas e
negociatas , mas um conselho das universidades públicas e setores
da sociedade civil, que teria inclusive responsabilidade sobre o
controle da qualidade, do credenciamento e da liberdade de cátedra
extensivo à esfera do ensino superior privado, e não somente do público.
Como
enfrentar o monopólio que a Instituições Privadas vêm constituindo
com a cumplicidade do Ministério da Educação? Os colegas já
repararam como a atual diretoria da Andes é tímida na denúncia do
verdadeiro cerco que as universidades públicas sofreram com a
farra dos credenciamentos de universidades privadas promovidas pelo
MEC? A diretoria da Andes tem, nesse caso, uma posição autista, como
se fosse possível que a farra dos credenciamentos não alterasse
radicalmente o funcionamento das Universidades Públicas. A discrepância,
hoje existente, entre o vertiginoso crescimento do setor privado em
detrimento das universidades públicas tem incidência direta sobre o
funcionamento dessas últimas instituições, pois elas não cresceram
nem evoluíram como deveriam nos últimos anos tivemos muitas
aposentadorias e poucos concursos, e o esforço de abertura de novas
vagas ocorreu racionalizando os recursos existentes e não pelo aporte
de novas verbas, etc.
Essa
questão deveria ser o ponto número um da agenda da Andes hoje, e
infelizmente, salvo manifestações protocolares, ele não tem tido da
importância que merece. Nós, da chapa Uma Nova Andes é Possível:
Plural e de Luta propomos uma grande campanha pública chamando a atenção
para o que vem ocorrendo. |