Em fevereiro de 2012 foi lançado o Fundo Patrimonial Amigos da Poli (FPAP). Com público-alvo para a captação de recursos parecido, o fundo deve disputar a capacidade de investimentos de empresas, professores e pais de alunos com o já operante Endowment da Escola Politécnica (EEP). Ao que parece o FPAP vai se contrapor ao EEP — e começa a dar sinais dessa disputa por meio de críticas ao fundo privado concorrente.

Uma das principais críticas do FPAP, que consta do documento “Análise sobre o Endowment da Escola Politécnica (EPP)”, distribuído por correio eletrônico, diz respeito ao fato de a diretoria do EEP ser “imutável”, definida pelo estatuto, sem participação dos doadores e composta pelo diretor da Politécnica, pelo presidente do Grêmio Politécnico e pelo diretor da Associação dos Engenheiros Politécnicos. “O Grêmio Estudantil possui um terço dos votos na decisão de divisão dos recursos do fundo. Durante muitas gestões o relacionamento entre as pessoas ocupantes destes cargos não foram [sic] amistosas, de forma que a divisão dos recursos pode enfrentar problemas”, avalia o FPAP. 

Outro ataque diz respeito à “ausência de independência” nas decisões sobre destinação de recursos do EEP. Por ser este “uma organização cujos principais membros estão ligados à Escola Politécnica”, avalia o FPAP no citado documento, “a destinação dos recursos pode enfrentar influência política”. O texto alinha uma série de exemplos “do que acreditamos ser necessário evitar”, numa curiosa combinação: “greves, movimento estudantil, risco do repasse de verbas da USP, partidarismos, sindicalismos, acúmulo de funções, conflitos de interesse”.

Em oposição, o FPAP diz ainda ser independente da escola do ponto de vista jurídico e afirma que é vedado o comprometimento de seus recursos com o orçamento corrente da Politécnica. O site do fundo informa, contudo, que entre os quatro membros do conselho deliberativo encontra-se o pró-reitor de Pós-Graduação, e ex-diretor da Politécnica, Vahan Agopyan (http://amigosdapoli.com/ofundo/oquee).

A gestão dos recursos, em ambos os fundos, fica a cargo de profissionais do mercado; a diferença dar-se-ia apenas na definição do poder para decidir a destinação dos recursos. No caso do EEP, como já citado, essa decisão cabe à diretoria, que se confunde com a própria diretoria da Escola Politécnica, já que o professor José Roberto Cardoso acumula os cargos de diretor do fundo e da faculdade, administrando um fundo de caráter privado e, pari passu, uma unidade acadêmica de uma instituição pública.

No FPAP, porém, o conselho deliberativo é indicado pelos próprios doadores, sendo uma das posições reservada a um docente da Politécnica. Assim, no FPAP são agentes externos à comunidade acadêmica que decidem quais projetos da escola receberão investimentos. Note-se que o conselho deve ser formado apenas por grandes investidores, já que o direito a voto deliberativo é restrito aos que fazem doações acima de R$ 100 mil!

Arrecadação

Ainda na fase de angariar colaboradores, o FPAP já nasce com um fundo que possui recursos de diversos doadores no valor aproximado de R$ 5 milhões. Segundo a assessoria do FPAP, entre os colaboradores estão Roberto Egydio Setúbal, presidente do Itaú Unibanco, Jaime Garfinkel, presidente do Conselho Administrativo da Porto Seguro, e Pedro Wongtschowski, CEO do Grupo Ultra. Até o final de 2012 o fundo pretende chegar a R$ 10 milhões e só em 2013 iniciar os editais para selecionar os projetos que receberão investimentos.

O EEP, por sua vez, promete caminhar a passos largos em 2012. Mas em novembro de 2011 os ativos do Endowment ainda eram modestos, somando um total de R$ 230 mil, segundo o jornal Valor Econômico. A maior doação, no valor de R$ 100 mil, veio do Grêmio Politécnico. A maior doação corporativa veio do grupo Seal, do setor de tecnologia: R$ 20 mil. A meta traçada para o ano de 2012 é de atingir R$ 25 milhões, o que permitiria a retirada anual de R$ 1,5 milhão. 

Tanta é a ansiedade pela entrada de novos recursos que no final de 2011 o diretor da Politécnica e do EEP, José  Roberto Cardoso, enviou uma carta às famílias dos alunos da Politécnica, convidando-os a “conhecer mais sobre esse projeto”, ou seja, o Endowment. Na carta, queixa-se de que na unidade “o que conseguimos investir com recursos públicos é apenas R$ 20 mil por aluno [por ano]”, valor inferior aos “R$ 350 mil” investidos por Yale e Stanford.

Silêncio

O EEP anunciou que até 2021 pretende chegar a R$ 150 milhões de patrimônio, o que permitiria um resgate anual de R$ 9 milhões. Todo esse montante de recursos será gerido pela endowments do Brasil que, em parceria com a Bradesco Corretora, a BNY Mellon e a Aliança Empreendedora, projetou o fundo de captação. O FPAP, por sua vez, não deixa claro quem será responsável pela gestão de seus recursos, se limitando a dizer que “a gestão dos recursos fica a cargo de profissionais de mercado”.

Para avaliar o impacto das contribuições desses fundos, caso consigam as doações estimadas, vale esclarecer que somente em recursos orçamentários liberados pelo governo do Estado a Politécnica recebeu da USP, em 2010, R$ 138,73 milhões (Anuário Estatístico, 2011); cabe informar, para efeito de projeções futuras desta dotação, que ela cresceu cerca de 63% de 2005 para 2010.

Alguns professores questionam a necessidade da existência dos fundos, já que as doações poderiam ser feitas diretamente para a USP. A Reitoria, por sua vez, permanece em absoluto silêncio tanto a respeito da disputa dos dois fundos privados em torno da Politécnica, como da exótica iniciativa de um diretor de unidade de pedir doações a pais de alunos de uma universidade pública.

 

Informativo nº 341