O Brasil perdeu Antonio Candido. O professor, crítico literário, sociólogo e militante socialista faleceu no dia 12 de maio, aos 98 anos, no Hospital Albert Einstein, onde estava internado. Na USP, Candido torna­ra-se uma das principais referências do pensamento crítico, da liberdade acadêmica e da resistência ao autorita­rismo da estrutura oligárquica de poder da universidade.

Daniel Garcia
Em caminhada com Alfredo Bosi, após a assembleia final da vitoriosa greve de 2000, quando ambos integraram a chamada "Comissão de Notáveis". 

Nascido no Rio de Janeiro e criado em Minas Gerais, Candido ingressou na Faculdade de Direito da USP em 1939. Em 1942, tornou-se professor assistente de sociologia na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL). Aos 23 anos, despontou como crítico literário na revista Clima, fundada por ele ao lado de Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e Gilda de Mello e Souza, que viria a se tornar sua esposa e mãe de suas três filhas. Mais tarde, Candido lançaria obras seminais, como Parceiros do Rio Bonito (1964) e Formação da Literatura Brasileira: momen­tos decisivos (1959).

Desde cedo Candido também se mostrou um militante político com firmes posições socialistas. Opositor do Estado Novo de Vargas, participou de grupos de resistência nos anos 1940. Extinto o regime, ajudou a fundar o Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 1947, sendo um dos responsáveis pelo jornal do partido, Folha Socialista.

Maria Antonia

Daniel Garcia
Antonio Candido em debate, em 2006. 

Continuou na militância política mesmo depois do golpe militar de 1964. Em 1968, defendeu e fez parte da ocupação do prédio da USP na rua Maria Antonia, onde lecionava na então FFCL. Elegeu-se membro da Comissão Paritária Central, responsável por manter a ocupação.

Defensor da anistia e da redemocratização, Candido participou, em 1977, da criação da Associação dos Docentes da USP, originada na antiga Associação dos Auxiliares de Ensino — a mudança resultou da reação indignada dos docentes ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog, professor da ECA, por agentes do II Exército, em outubro de 1975. Candido compôs a primeira diretoria da nova entidade, no cargo de vice-presidente.

Em evento de comemoração do trigésimo aniversário de fundação da Adusp, declarou a propósito da greve de 1979: “Foi quando se percebeu que o professor não era mais um príncipe, era um trabalhador”. Na sua opinião, aquela greve, “talvez a primeira do ensino superior do Brasil”, foi uma “contribuição muito poderosa para a criação de um espiríto democrático na USP” (vide Revista Adusp 39, 2007: http://bit.ly/2qFylqW).

Fundador do PT

Candido também resistiu ao regime militar fora do âmbito universitário, atuando na Comissão de Justiça e Paz ao lado do cardeal D. Paulo Evaristo Arns. Em 1980 ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, no qual exerceu posições de destaque, como a de presidente do Conselho Editorial da Fundação Perseu Abramo.

“Antonio Candido trabalhou em seu último texto no último dia de vida consciente. Assim como Florestan Fernandes, cujo último texto foi publicado poucos dias após sua morte. Socialista, defensor consequente da democracia, do ensino e da universidade pública, quantos adjetivos elogiosos não lhe cabem”, comentou o professor Osvaldo Coggiola (FFLCH), a pedido do Informativo Adusp.

“Lembro-me da sua intervenção (no meio do público!) em um simpósio sobre América Latina na UFSCar, em 1983; do seu discurso em homenagem a Florestan (trouxe-o escrito a máquina) no Anfiteatro de História, em 1995; da sua intervenção no ato em defesa da FFLCH em 2002; da sua presença nas assembleias de greve da Adusp... Cada contato com ele, de perto ou de longe, foi marcante. Lutou e pensou até o último fôlego”.

Informativo nº 436