Fotos: Sintusp

Na esteira dos recorrentes casos de violência policial dentro do campus Butantã, como a repressão aos atos dos dias 7/3 e 28/4, o con­tingente da Polícia Militar encarregado do patrulhamento “comunitário” Koban protagonizou mais uma cena de intimidação ao funcionalismo da USP e ao movimento sindical.

Na manhã de 14/6, Zelito Souza dos Santos, funcionário do Centro de Práticas Esportivas (CEPE-USP) e ex-diretor do Sintusp, voltava de seu almoço quando foi interpelado por policiais militares ao passar pelo portão que liga a comuni­dade São Remo à Cidade Univer­sitária. O local dista pouco mais de 100 metros das sedes da Adusp e do Sintusp. No dia anterior, segundo o funcionário, policiais que estavam no mesmo portão já haviam chamado sua atenção por ele não ter girado a catraca que controla o acesso.

Zelito foi detido sob a alegação de “desacato” porque, instado a exibir sua carteira de identidade, recusou-se a fornecê-la .“Falei [para os policiais]: ‘Por que vocês querem meu documento? Trabalho aqui na USP, estou uniformizado, com calça e camisa da uni­da­de, estou no meu local de tra­balho’”, relatou o funcionário à reportagem do Informativo Adusp, em 22/6.

Após algumas horas, Zelito deixa o 93ºDP

Crime

“Eu pedi uma justificativa para aquela atitude. A policial me respondeu que só por eu me recusar já estava incorrendo em crime. Eu respondi que, se não iriam me dar uma justificativa, então eu iria embora, porque estava em serviço e não sou nenhum bandido”. Em resposta, o funcionário foi algemado. Cerca de 10 policiais foram mobilizados para acompanhar a ação, incluindo o comandante do Koban, tenente Teles.

Zelito foi levado de camburão ao Pronto Socorro da Lapa para fazer exame de corpo de delito e, depois, ao 93º Distrito Policial, onde foi registrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência antes de o funcionário ser liberado. “Depois que a gente começa a digerir os fatos, é humilhante. Nós criamos nossos filhos, fizemos de tudo para eles não viverem uma situação dessa e hoje eu me vejo nessa situação. É horrível”, diz Zelito.

“Nós tivemos uma luta para que a polícia não entrasse nem permanecesse [no campus]. É a tal da tragédia anunciada. Mas eu não achava que ia passar por uma situação dessa. Em uma manifestação a gente já espera esse tipo de coisa. Mas no momento de fazer uma refeição, voltando com horário apertado, é difícil aceitar.”

Provocações

Na delegacia, os dirigentes do Sintusp que aguar­davam a liberação de Zelito sofreram provocações dos PMs do patrulhamento comunitário. Segundo Claudionor Brandão, diretor do sindicato, que estava pre­sen­te na delegacia, Teles e outro policial fizeram declarações como “essa gentinha acha que tem imunidade parlamentar” e “nesse país ninguém gosta de vagabundo sindicalista”. Outro diretor do Sintusp, Pablito, chegou a ser ameaçado porque filmava a cena.

“Está mais do que claro que o papel desses caras [PMs] aqui dentro é de repressão política, é para assegurar as condições para a burocracia acadêmica implantar os seus projetos absurdos”, diz Brandão. A seu ver, a detenção de Zelito se soma a outros casos de intimidação do movimento dos trabalhadores da USP e vigilância policial abusiva.

“Se a polícia está aqui para proteger patrimônio e as pessoas dentro da USP, por que o tenente estaria com um grupo de militares fora do campus acompanhando um protesto? Ontem [20/6], militantes do Sintusp estavam fazendo panfletagem para a próxima greve geral no metrô Butantã e quem estava lá? Teles. O que tem a ver uma panfletagem no metrô com a proteção do patrimônio da USP?”, questiona Brandão.

Moção de repúdio

O Fórum das Seis elaborou e enviou à Reitoria da USP, em 14/6, moção de repúdio à ação da PM: “O Fórum das Seis, que congrega as entidades sindicais e estudantis da Unesp, Unicamp, USP e do Centro Paula Souza (Ceeteps), reunido nesta data, vem a público denunciar o que segue. Mais uma vez, a Polícia Militar, que ocupa a USP com o beneplácito da Reitoria, intimida tra­ba­lhadores da instituição. Não bastassem as denúncias de ameaças e abordagens desrespeitosas, hoje o servidor técnico-administrativo Zelito Souza dos Santos, diretor de base do Sintusp, foi algemado e conduzido ao 93º DP, sem que tivesse praticado qualquer ato que justificasse esta arbitrariedade. O Fórum das Seis manifesta seu mais veemente repúdio a esta ação da PM, que avilta o estado democrático de direito e constitui-se numa intervenção indevida no interior da universidade. Chega de truculência policial.” 

Informativo nº 438