O número geral de docentes da Universidade de São Paulo caiu de 6.207, em setembro de 2014 (primeiro ano da gestão M.A. Zago-Vahan Agopyan), para 5.853 em fevereiro de 2018. Portanto, uma queda de 354 professores no corpo docente em pouco mais de três anos. Porém, o cenário é ainda mais grave quando computadas as perdas sofridas no quadro de professores efetivos. Como a maior parte da reposição de vagas abertas nesse período se deu por meio da contratação de professores precários (temporários), para voltar ao patamar de 2014 a USP precisa repor, atualmente, nada menos do que 499 docentes efetivos, na quase totalidade das unidades, isso sem incluir a reposição das aposentadorias.

Esses dados foram revelados por um amplo levantamento efetuado pela Adusp, que tomou como base as folhas de pagamentos de 2014 a 2018, disponíveis no Portal da Transparência da USP. A tabela preparada pela Adusp pode ser encontrada no site da entidadeFoi possível constatar que entre 2015 e 2018 a USP contratou apenas 128 professores efetivos, sendo que nos dois últimos anos foram apenas 22 efetivos! No mesmo período, porém, foram contratados mais de 200 professores temporários.

O dramático déficit atual decorre diretamente da política de quase congelamento de contratações implantada pela Reitoria na gestão anterior, na qual o atual reitor, Agopyan, era o vice-reitor. No final de 2017, na aprovação do Orçamento da USP para 2018, acenou-se com a possibilidade de 150 concursos efetivos. Tal perspectiva, se vier a materializar-se, ocasionará apenas uma pausa ou uma pequena redução no ritmo de perdas, como aponta o professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp: “É preciso registrar que tal número, ainda que positivo, especialmente se comparado com os pouquíssimos concursos para efetivos nos últimos anos, não permite nem o preenchimento das vagas de professores que irão se aposentar durante o ano”.

Casos graves

Em números relativos, as situações mais graves são as da Escola de Enfermagem (EE) e Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), que perderam, respectivamente, 31% e 26% dos docentes! A Faculdade de Saúde Pública (FSP) e a Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) sofreram, cada uma, redução de quase 19% no contingente, seguidas do Instituto de Geociências (IGc) e da Faculdade de Educação (FE), que perderam respectivamente quase 17% e 15% dos seus docentes.

Em números absolutos, as unidades que mais perderam professores desde 2014 são a FEA, com déficit de 48 efetivos; Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), 43 efetivos; Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), 36 efetivos; Escola Politécnica (EP), 33 efetivos; EE e Faculdade de Medicina (FM), 26 efetivos cada uma; FORP, 18 efetivos; Escola de Comunicações e Artes (ECA) e Faculdade de Direito (FD), 16 efetivos cada uma; Instituto de Física (IF), 15 efetivos.

Recentemente, em entrevista concedida à revista IstoÉ, o reitor Agopyan procurou minimizar a drástica perda sofrida pelas unidades. Ao questionamento “A universidade registrou saída significativa de profissionais durante a crise?”, ele respondeu: “Ouço muito isso. Tal unidade está perdendo profissionais etc. Perguntei ao diretor da área, a de Economia e Administração, que tem 300 professores. Um professor saiu”. 

O professor Alexandre Saes (FEA) revelou que o Departamento de Economia concentra as maiores perdas. “Uma questão imediata, e neste ano ficou muito evidente, é a redução na oferta de disciplinas; na graduação, houve queda no número de eletivas. Este é um ponto mais imediato e claro, mas há um segundo ponto de impacto mais profundo. Com as aposentadorias e alguma saídas, por conta de demissão de professores que foram para outras instituições, houve áreas de pesquisas que foram desmobilizadas, das mais variadas, como Economia Política, História do Pensamento Econômico, Metodologia da Economia. São áreas que perderam professores importantes e, com isso, a gente mal consegue oferecer as disciplinas e tem menos professores para orientar pesquisas na área. Até mesmo áreas como Econometria e Finanças perderam muitos professores”.

Temporários

 Enquanto isso, a Reitoria continua a incentivar a contratação de professores temporários (por prazo determinado), aos quais paga salários aviltantes. Já são cerca de 200 professores contratados nesses moldes. A FFLCH, por exemplo, acaba de abrir inscrições para “processo seletivo simplificado” no Departamento de História, área de História do Brasil Independente, “para a contratação de um docente por prazo determinado, como Professor Contratado III (MS-3.1, para os contratados com título de Doutor), salário de R$ 1.849,66, com jornada de 12 (doze) horas semanais”, “nos termos da Resolução 5.872/10 e alterações posteriores, bem como da Resolução 7.354/17”.

Mais impactante ainda é o edital aberto pela Faculdade de Educação, para contratação de Professor Contratado III na Escola de Aplicação. Ele prevê o mesmo salário indicado acima caso o contratado seja doutor; o salário de R$ 1.322,41 caso possua mestrado, sendo enquadrado como Professor Contratado II (MS-2); e, se tiver “apenas graduação, ele será enquadrado como Professor Contratado I (MS-1), com salário de R$ 893,95”.

“A perda de 8% dos professores efetivos desde 2014, com perspectivas de agravamento da situação, coloca em risco a qualidade de ensino, especialmente na graduação da USP”, conclui o professor Ricupero. “Pois a falta de professores, que atinge unidades, departamentos e disciplinas de forma diferenciada, exige uma série de soluções paliativas, como contratação de professores temporários (com o agravante dos baixos salários), convites para professores sêniores ou pós-doutorandos assumirem as turmas, disciplinas oferecidas em mutirão por vários docentes ou simplesmente aumentar o número de alunos em sala, ou ainda cancelar turmas e disciplinas optativas”.

Informativo nº 445