Não se pode mais ignorar a ocorrência de assédio moral na USP. O problema tem acontecido em diversas unidades (vide Informativo Adusp 331). A maioria dos assediados prefere, porém, não denunciar o assédio sofrido, seja pela dificuldade de provar, seja por temer represálias de quem assedia, normalmente ocupante de cargo de chefia.

Forma corriqueira de assédio moral são as pressões produtivistas. “Os docentes da USP estão abarrotados de tarefas. Algumas pessoas aqui dentro acham que a universidade tem que ser regida como uma empresa, no entanto ela não é uma empresa. A universidade deve se projetar para o futuro e nesse processo estão agregados muitos valores”, declara a professora Elisabeth Spinelli de Oliveira, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Para ela, há caminhos a percorrer para se controlar a pressão produtivista no âmbito acadêmico. “Não se pode basear-se somente em números, pois isso acaba levando tanto ao assédio moral quanto ao plágio”.

Métodos “alternativos” de contratação também se configuram como uma forma de assédio moral. A professora Elizabeth cita casos de desorganização na fase inicial de trabalho: jovens docentes são chamados a prestar serviços sem remuneração, mesmo quando já aprovados em concurso. O professor José Marcelino Resende, da FFCLRP, acredita que a estrutura da USP cria ambiente propício ao assédio moral em função da constante instabilidade em que vivem os docentes. “Eu não vivenciei nenhum caso próximo, porém fiquei sabendo de dois docentes que estavam em fase final do processo probatório e que, de repente, foram retirados do Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP) e depois recolocados”, relata.

Retaliações

O assédio moral pode ainda ser decorrente da sensação de poder que algumas pessoas que trabalham no meio acadêmico creem possuir, como explica o professor Gustavo Assad Ferreira, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto. “Vivemos em algumas fogueiras de vaidade. O assediador na academia assedia baseando-se em duas falácias: a de autoridade e a do poder. Isso faz com que de certa forma ele tenha que forçar a natureza do que resiste”.

Normalmente as ocorrências deixam de ser denunciadas por falta de provas, pois o assédio moral costuma ocorrer em ambientes sem testemunhas. “Se a universidade fosse mais democrática e plural haveria menos espaço para assédio moral. A USP tem que se democratizar. Assim, o assediador começaria a se sentir menos poderoso”, diz o docente.

Na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) são noticiados casos de assédio moral relacionados à crise institucional da unidade, provocada pela ameaça de fechamento do curso de Obstetrícia e de redução de vagas em outros cursos. “Desde que resolvemos lutar pela permanência do curso sofremos retaliações”, relata uma docente de Obstetrícia que pediu para não ser identificada. “Não há espaço para diálogo. Nossa estrutura curricular foi modificada, dobramos a carga horária e não tivemos acréscimo de nenhum cargo. Quando reivindicamos novas contratações, não há resposta ou negam alegando que a situação do curso é incerta”.

 

Informativo n° 334