O presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Marco Antonio Zago, teve publicado recentemente na Folha de S. Paulo o artigo intitulado “A Fapesp e a agropecuária paulista”, no qual tece considerações sobre a relação entre pesquisa e “agronegócio”. Após afirmar que este responde por 15% do Produto Interno Bruto (PIB) paulista e, igualmente, por 15% dos empregos no Estado, ele conclui que estimular esse setor favorece a economia e a geração de empregos. E alega que, como a agropecuária (leia-se: o “agronegócio”) tem que ser “sustentada” por pesquisa e inovação permanentes, a Fapesp deve participar deste “esforço”.

Foto: Marcos Santos/USP
Para o ex-reitor Zago, "Agro é Tech"

O presidente da Fapesp apresenta então uma série de dados: “Estudo recente mostra que cada R$ 1 investido na pesquisa agropecuária tem, em poucos anos, retorno de R$ 11. Os investimentos da Fapesp têm um retorno 27 vezes maior. Esse retorno aparece de formas variadas, como aumento da produção e produtividade e aumento da geração de empregos. Em meados da década de 1990, o PIB per capita rural era 21% do PIB urbano, tanto em São Paulo como no Brasil; em 2014, havia subido para 31% no país e 53% no estado de São Paulo”. Porém, ele não indica as fontes desses dados, nem elabora mais detidamente a respeito deles.

Zago limita-se a concluir que “investir em pesquisa agropecuária é uma excelente estratégia para desenvolver o estado e aplicar recursos públicos com eficiência”. A Fapesp, diz ele no artigo, “investiu R$ 3 bilhões (valores de 2013) na pesquisa de agricultura entre 1993 e 2013 e nos últimos dez anos financiou 4.500 bolsas e 2.600 projetos”.

Entre 1982 e 2013, acrescentou, “os investimentos de Fapesp, Apta (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios) e Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) perfizeram R$ 417 milhões anuais, enquanto valor equivalente foi investido na área por USP, Unesp e Unicamp na formação de pessoal”. Nenhuma palavra sobre quanto foi destinado à agricultura familiar, afinal o que importa é o “agronegócio”.

No artigo, ele atribui exclusivamente a tal financiamento o ganho de produtividade total da agropecuária paulista (“3,1% a partir de 1994”) e o aumento do PIB per capita rural para 57% do PIB urbano em São Paulo. O crescimento da produtividade é portanto medíocre, considerado o longo período, mas Zago parece não se dar conta disso.

“Em 30 anos, o etanol mudou o perfil de fonte de energia no Brasil: o uso de petróleo e derivados caiu de 62% para 38%, enquanto a bioenergia elevou-se de 14% para 32%”. Novamente, Zago não informa a procedência de tais dados. “A Fapesp tem protagonismo neste processo e no debate internacional sobre bioenergia e sustentabilidade”.

Não cabe à Fapesp “investir” em projetos de grupos empresariais

A menção do presidente da Fapesp ao etanol não é aleatória. Vale lembrar que, em 2007, a Fapesp anunciou que investiria R$ 50 milhões nos cinco anos seguintes em pesquisas na área de produção do etanol. Recursos que beneficiaram projetos da Dedini, empresa do Grupo Cosan, de Rubens Ometto. Em 2016, portanto na gestão reitoral de Zago, Ometto tornou-se um dos patrocinadores do projeto “USP do Futuro”, desenvolvido pela consultoria McKinsey&Company.

A questão central nesta discussão é que, por mais relevante que seja a pesquisa no setor agropecuário, não cabe à Fapesp “investir” em projetos conduzidos por grupos empresariais (de qualquer setor da economia). A agência foi criada para fomentar pesquisa científica conduzida por instituições públicas de ensino superior ou de pesquisa. Pesquisadores dos institutos públicos estaduais de pesquisa relataram recentemente, em encontro organizado pela Adusp, as dificuldades existentes para obter recursos da Fapesp.

Naquela ocasião, o professor Wagner Romão, presidente da Adunicamp, apresentou dados preliminares de um estudo sobre a Fapesp, segundo o qual a partir de 2012 a agência passa a “destinar recursos crescentes a empresas privadas”, a título de “apoio à inovação tecnológica”, e em 2016 esses recursos “ultrapassam o montante dos auxílios concedidos por ela aos institutos públicos de pesquisa”.

No seu artigo, após fazer referência à “estreita cooperação entre universidades e institutos de pesquisa com [sic] o setor produtivo e empresarial” e ao “número crescente de startups”, Zago informa que o programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), mantido pela Fapesp, “apoia no momento 80 empresas tecnológicas nesse setor da economia” [agronegócio]. Ou seja: ele celebra o fato de que a Fapesp está cumprindo um papel que não é dela, de investir em empresas privadas. Ao desviar-se de seu propósito de fomentar a pesquisa científica praticada pelas instituições públicas, a agência sofre um processo de desvirtuamento.

O professor João Zanetic, do Instituto de Física (IF), comenta criticamente o artigo de Zago em carta à Folha de S. Paulo. “É útil a informação do presidente da Fapesp, Marco Antonio Zago, de que R$ 417 milhões/ano foram investidos ‘na área [agropecuária] por USP, Unesp e Unicamp na formação de pessoal’. Ótimo para formar agrônomos. Dado o conteúdo do artigo, ele poderia finalizá-lo com ‘Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é Tudo’”, ironizou o professor sênior do IF e ex-presidente da Adusp, fazendo referência ao mote da campanha publicitária criada pela Rede Globo para legitimar o agronegócio.

“O HU (Hospital Universitário) da USP ainda é ótimo para formar médicos. Por que o médico Zago, reitor da USP de 2014 a janeiro de 2018, quase destruiu o HU?”, arremata Zanetic na carta, publicada pelo jornal em 17/5.