Para Vahan Agopyan, ao chamar os manifestantes que foram às ruas no dia 15/5 de “idiotas úteis” e “imbecis”, Bolsonaro “não entendeu bem” o que se passou. O reitor lamentou o cancelamento de bolsas da Capes, defendeu a importância do financiamento público do ensino superior e disse que a ideia de que os alunos passam por “doutrinação” nas universidades é apregoada por quem não está familiarizado com a rotina da academia. Já o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, em entrevista à revista Pesquisa Fapesp, lembrou a importância da autonomia conquistada há trinta anos e afirmou que a CPI das universidades é uma oportunidade de demonstrar a “grandiosidade do sistema de ensino superior paulista”

O reitor da USP, Vahan Agopyan, afirmou em entrevista publicada pela Folha de S. Paulo no último sábado (18/5) que Jair Bolsonaro “não entendeu bem” o que ocorreu nas manifestações contra os cortes no orçamento da educação realizadas em todo o Brasil no dia 15/5.

Perguntado pela repórter Angela Pinho sobre a reação de Bolsonaro ao chamar os manifestantes de “idiotas úteis” e “imbecis”, Agopyan respondeu: “Eu diria que de novo o presidente, acho que ele não estava no país [estava nos EUA], não entendeu bem. Mas o importante é notar que uma parte da sociedade está preocupada com a educação e começou a se manifestar. Fico muito preocupado quando há uma incompreensão da importância da educação para o desenvolvimento. Todos os países desenvolvidos investiram bastante em educação, da pré-escola ao pós-doutorado”.

A entrevista abordou vários aspectos sobre o financiamento da educação. Agopyan disse que fazer cortes no orçamento da área devido às expectativas de baixo crescimento da economia é “uma questão de decisão política”, e citou exemplos internacionais: “A Coreia do Sul teve quase três anos de guerra [1950-1953]. Fui lá recentemente e tem uma foto marcante no museu da guerra. Ela mostra um lugar destruído, paredes caídas, e um monte de crianças sentadas em carteiras improvisadas assistindo a aulas. Israel teve a Guerra da Independência [em 1948]. David Ben-Gurion [chefe de governo] duplicou o instituto de tecnologia e construiu um novo campus para a Universidade Hebraica de Jerusalém. É uma decisão política. Então minha resposta é: o governo decide o que acha importante”, defendeu.

O reitor mencionou o corte de bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, anunciado no dia 8/5, e disse estar muito preocupado com a situação. “Cerca de 60% das nossas quase 8.000 bolsas de pós-graduação são da Capes. Só nesse período em que o sistema ficou fechado, perdemos quase 300 bolsas de mestrado e doutorado, e ainda não recuperamos”. De acordo com cirular emitida no dia 15/5 pelo pró-reitor de Pós-Graduação da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, foram cortadas 329 bolsas da USP.

Agopyan disse também que, em relação a outras fontes de financiamento para o ensino superior público, “em alguns anos, o investimento do setor privado [na USP] chega a quase R$ 500 milhões”. De acordo com o reitor, a universidade “incentiva ex-alunos a colaborar” e possui “alguns fundos patrimoniais”. Porém, continua, “em todos os países, universidade de pesquisa é dependente de recurso público. Mesmo nas universidades ditas privadas dos EUA, parte considerável dos recursos vem do governo federal”.

Falar em doutrinação é imaginar que nossos alunos não têm discernimento”

A entrevista enveredou por temas como a percepção que a sociedade tem das universidades e as críticas a uma suposta “doutrinação” que ocorreria nelas. Para Agopyan, vivemos “um momento um tanto inusitado”, no qual “há uma falta de informações sobre o que fazemos, quem somos e nossa importância para a sociedade”. “Acontece no Brasil, mas também é um pouco internacional. As universidades têm certa dificuldade de se expressar”, avalia.

Nesse contexto, a CPI das Universidades, atualmente em curso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), pode ser “uma oportunidade de mostrar o que a universidade faz”, diz o reitor — com a ressalva de que, com essa resposta, busca “não ser pessimista”. “Todos os nossos dados estão à disposição no portal da USP. Apenas lamento porque não era necessário ter uma CPI, sempre dá sensação negativa”, completa, a respeito do tema.

O reitor afirma que quem compartilha a visão de que a universidade promove “doutrinação” dos alunos “são pessoas que talvez não conheçam como funciona a universidade”. “O pessoal acha que os colegas da área de humanas são todos mais esquerdistas. Não existe isso. Temos pessoas de todas as áreas com ideias diferentes que na universidade convivem, debatem e muitas vezes mudam seu ponto de vista”, aponta. “Falar em doutrinação é, primeiro, imaginar que nossos alunos não têm discernimento, o que não é verdade. E, em segundo, que os professores são de uma única corrente de pensamento, o que também não é verdade. O aluno vai conviver com professores que pensam de maneiras distintas e até antagônicas.”

Agopyan também falou de sua experiência como aluno durante a Ditadura ilitar e lamentou que integrantes do governo federal louvem o período: “Naquela época, muitos que estão falando essas coisas eram muito jovens ou nem tinham nascido [Bolsonaro tinha 9 anos quando aconteceu o golpe de 1964 e 30 quando o último general da ditadura deixou o poder]. Eu vivi esse regime. As pessoas que não vivenciaram não têm noção do que é viver num regime de exceção”, afirmou.

Para Knobel, autonomia trouxe erros e acertos

Vários dos temas abordados por Agopyan foram objeto também da entrevista do reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, atual presidente do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), à edição de maio da revista Pesquisa Fapesp. Em relação à CPI, por exemplo, Knobel concorda com o colega uspiano e diz que as universidades nada têm a temer, pois “pretendemos usar a oportunidade para mostrar a grandiosidade do sistema de ensino superior paulista aos deputados que, às vezes, têm certo desconhecimento de como funcionam as universidades”, “mostraremos para a sociedade e seus representantes a importância de ter universidades do calibre das três estaduais paulistas”.

O reitor da Unicamp afirma que, graças à autonomia alcançada há trinta anos, “as universidades estaduais paulistas cresceram e chegaram ao patamar das melhores instituições da América Latina”. Knobel utiliza dados numéricos para fundamentar sua opinião: “A quantidade de publicações aumentou exponencialmente, assim como cresceu o número de estudantes. A Unicamp, há 30 anos, tinha cerca de 50% do corpo docente com doutorado. Foi feito um programa para melhorar a qualidade e, hoje, 99% dos nossos professores são doutores. Conseguimos formar mais pessoas e produzir mais pesquisa mesmo com a redução dos quadros. Pudemos nos planejar e pensar em como crescer. Do ponto de vista de formação de recursos humanos, de pesquisa, de extensão à comunidade, de assistência em hospitais universitários — em todos os setores as estaduais progrediram e isso ocorreu principalmente graças à autonomia”.

No período, salienta, “a autonomia gerou um processo de aprendizado constante, com acertos e também erros”. Entre os erros, o reitor cita a ideia de que “a economia e a arrecadação de impostos continuariam crescendo em ritmo forte, o que não ocorreu”. “Na minha visão e na dos colegas do Cruesp”, prossegue, “houve decisões que colocaram em risco as finanças das universidades e o resultado foi uma crise complexa, que tivemos de resolver”.

Sem universidade pública, o Brasil não tem futuro”

Knobel aponta também os riscos que as universidades correm, especialmente com as “ameaças à autonomia, à liberdade de cátedra e ao modelo de universidade pública consolidado no país”. “Muitas vezes isso se baseia em falta de entendimento da atuação da universidade. Estamos vivendo um momento de polarização extrema e muitas decisões se baseiam em questões ideológicas. Como universidades públicas, devemos nos aproximar da sociedade e mostrar o impacto do nosso trabalho. Sem universidade pública, o Brasil não tem futuro”, afirma.

Outro dos temas explorados pelo repórter Fabrício Marques na entrevista foram os programas de ação afirmativa e as novas formas de ingresso na universidade. Knobel citou as cotas etnorraciais, introduzidas no vestibular deste ano, diferentes do modelo das universidades federais por não serem “necessariamente apenas para alunos de escolas públicas”. Também foi criado o vestibular indígena, com a entrada de 70 alunos de 23 etnias diferentes. “Abriu-se a possibilidade de ingresso de alunos vencedores de alguma medalha olímpica científica. Também criamos a cátedra Sérgio Vieira de Melo, que permite a refugiados solicitar o ingresso na universidade sem a necessidade do vestibular”, completou.

De acordo com o reitor, “o objetivo é atrair jovens talentosos, mas que não entrariam na universidade pelos caminhos tradicionais”, porque o funil do vestibular “é estreito demais”. Ao mesmo tempo, reconhece, é preciso investir “muito em programas de permanência, incluindo bolsas de auxílio social, moradia, transporte, alimentação” para que esses alunos consigam se manter na academia.