Líder da marcha do pequeno grupo da direita, deputado eleito Douglas Garcia defende privatização da universidade e diz que projeto “Escola sem Partido” tem “100% de chance” de virar realidade

A USP sediou manifestações antagônicas nesta segunda (29/10), dia seguinte à eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para a Presidência da República. Um ato pró-Bolsonaro convocado por organizações de direita como o Direita São Paulo – e que contava com quase 3 mil confirmações de presença no Facebook – preocupou dirigentes da universidade a ponto de a Reitoria ter solicitado à Polícia Militar reforço no policiamento do campus do Butantã.

PM observa ato da direita em frente à Poli
PM observa ato da direita em frente à Poli
 
Douglas Garcia (de costas), de camiseta preta com o fuzil estampado
Douglas Garcia (de costas), de camiseta preta com o fuzil estampado
 
Provocador da direita entre o grupo que saiu da marcha da FFLCH e foi até a Poli (retirado por segurança da USP)
Provocador da direita entre o grupo que saiu da marcha da FFLCH e foi até a Poli (retirado por segurança da USP)
 
Manifestação antifascista
Manifestação antifascista

Em resposta à atividade anunciada pela direita, estudantes da USP se organizaram para realizar uma manifestação que, de acordo com estimativa da Guarda Universitária, reuniu cerca de mil pessoas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e seguiu depois em marcha por unidades como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). Os estudantes também passaram pelo Conjunto Residencial da USP (Crusp), onde há quinze dias suásticas foram pichadas na porta de alguns apartamentos, e pelo Memorial aos Membros da Comunidade USP Vítimas da Ditadura, na Praça do Relógio.

O ato pró-Bolsonaro (chamado de “Chola Mais”), no entanto, reuniu menos de 1% das adesões “confirmadas” pela internet: juntaram-se cerca de vinte pessoas, que iniciaram a manifestação em frente ao prédio da Engenharia Civil da Escola Politécnica. Empunhando bandeiras do Brasil e da campanha de Bolsonaro, o grupo fez um trajeto de cerca de meia hora pelas avenidas Professor Almeida Prado, Mello Moraes (da raia) e Lúcio Martins Rodrigues, até retornar ao ponto de partida. Em todo o trajeto, foram escoltados por dez carros e seis motocicletas da PM, além de outros soldados a pé.

Os manifestantes foram dissuadidos pelos comandantes do policiamento de se dirigir à FFLCH, objetivo inicial da caminhada, onde se realizava a manifestação antifascista. “Dissemos a eles que, num momento em que temos tantas posições e ideologias divergentes, não há necessidade de que grupos antagônicos se provoquem”, contou à reportagem o major Daniel, do 23o Batalhão da PM. “Tivemos a integridade física de toda a comunidade preservada”, completou.

Ao longo do trajeto, os integrantes do grupo entoaram vários cantos e refrões provocativos à esquerda e à chapa de Fernando Haddad e Manuela d’Ávila. Também ouviram provocações e respostas de estudantes que assistiam à caminhada.

Fuzil na camiseta

A maior parte dos manifestantes não era de alunos da USP, embora um dos objetivos da manifestação, de acordo com os organizadores, fosse atender ao chamado de estudantes da universidade que se sentiriam “perseguidos” por ser de direita e gostariam de denunciar a “doutrinação ideológica de esquerda” na USP.

No retorno à Poli, alguns dos participantes da caminhada discursaram. Um dos organizadores e principal orador da manifestação era Douglas Garcia, de 24 anos, deputado estadual eleito pelo PSL, com mais de 74 mil votos, para a próxima legislatura.

Garcia vestia uma camiseta do Movimento Direita Pernambuco que trazia estampada nas costas a imagem de um fuzil, embaixo do qual se lia a inscrição “Bolsonaro18 – Faça o Brasil grande outra vez”. Em sua fala, o deputado eleito defendeu a privatização da USP, disse que qualquer estudante que se sentir “ameaçado” por suas posições de direita pode procurá-lo na Assembleia Legislativa a partir de janeiro e afirmou que, com Bolsonaro no poder, há “100% de chance” de aprovação do projeto “Escola sem Partido”.

Cerca de vinte minutos depois de encerrada a manifestação, um de seus participantes, vestindo camiseta verde-amarela, misturou-se a um pequeno grupo que havia saído do ato antifascista na FFLCH e passava pelo bolsão da Poli. Houve provocações e bate-boca, até que o rapaz foi retirado por um segurança da USP, entrou em seu carro e foi embora.

Unidade antifascista

A manifestação na FFLCH foi organizada por comitês da FFLCH e pelo Centro Acadêmico do curso de Ciências Sociais (Ceupes), com apoio do DCE Livre “Alexandre Vannucchi Leme”, CAs e estudantes independentes. “As palavras de ordem foram pela paz, pela não-violência, pelo respeito à divergência de forma democrática e pela afirmação de que o fascismo não pode ter lugar na universidade”, diz Rodrigo Toneto, da direção do DCE.

Na avaliação do DCE, o ato foi vitorioso por ter conseguido mobilizar rapidamente uma grande quantidade de estudantes. A unidade dos vários setores políticos que compõem o movimento estudantil é muito importante, considera Toneto, porque a universidade será um dos primeiros inimigos na visão autoritária do novo governo brasileiro a partir do ano que vem.

“Temos que nos organizar e nos unir em torno da defesa da democracia e da universidade. Não podemos cair nas provocações da direita, porque tudo o que eles querem é que haja algum episódio de violência da nossa parte para deslegitimar o movimento estudantil”, afirma.

Armas na FEA

Também nesta segunda-feira 29/10, alunos da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP ingressaram com armas na unidade e postaram fotos nas quais aparecem com roupas militares e uma camiseta da campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. As fotos também mostravam as inscrições “B17” e “Nova era” no quadro de uma sala de aula, além de impressos com os dizeres “Está com medo, petista safada?” e “A nova era está chegando”.

O caso preocupou a comunidade da FEA, de acordo com nota publicada pela direção do Centro Acadêmico Visconde de Cairu (CAVC) no Facebook. “Apesar do cunho eleitoral, não se trata de uma simples manifestação política: é um retrato misógino e violento, de caráter fascista, que ameaça os direitos democráticos da coletividade dos estudantes”, diz o comunicado. “Devemos nos posicionar contra qualquer manifestação de cunho fascista que ponha em risco as liberdades democráticas. Demonstrações de ódio como a presente na imagem são inadmissíveis em quaisquer contextos, principalmente dentro de uma sala de aula universitária”, prossegue a nota, que conclui afirmando que os estudantes não podem “ficar calados diante de uma ameaça como esta. Nós, estudantes, resistimos!”

A direção da FEA publicou uma nota de repúdio às “ações de incitação à violência que estão ocorrendo dentro do ambiente da USP e, particularmente, da FEA”. O comunicado, assinado pelo professor Fábio Frezatti, diretor da unidade, garante que, “além de todos os esforços para manter integridade e paz no ambiente da FEA, ações que intimidem, ofendam e causem reações e danos serão rigorosamente coibidas e punidas”.

À noite, a direção da FEA reuniu-se com alunos e integrantes do CAVC. Uma sindicância será aberta pela direção para apurar os fatos e avaliar as providências que serão tomadas em relação aos alunos que fizeram e distribuíram as fotos. Os estudantes também vão convocar uma plenária com a presença de professores e funcionários para debater ações em comum na unidade.