Foto: Daniel Garcia

Na tarde de 21/3, no centro da capital paulista, teve lugar o ato “Marielle, presente! Amanhã vai ser maior!”, convocado pela Adusp e apoiado por diversos sindicatos, entidades e organizações políticas. Concentrados no Largo São Franciso, em frente à Faculdade de Direito da USP (FD), os manifestantes expressaram seu luto e revolta com as circunstâncias que levaram aos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro, uma semana antes.

Daniel Garcia
Maria José Menezes (NCN) e professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp
Oradores revezaram-se para homenagear Marielle e defender valores democráticos e direitos humanos
Aspecto parcial do ato, no final da tarde de 21/3

“É muito importante deixar claro que esta execução não acontece por acaso, está ligada a uma característica do nosso Estado de matar a população periférica, de corroborar com a desigualdade. E tem a ver com o fato de Marielle representar essa população, levando a voz de pessoas que nunca foram ouvidas”, explicou Paula Masulk, diretora do Diretório Central dos Estudantes da USP (DCE) e ex-presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, da FD.

A militância política de Marielle também foi relembrada por outros manifestantes, como Patricia Galvão, da Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp). “Marielle não lutava por si mesma. A voz dela ecoava em cada periferia, em cada lugar de trabalho. E era a voz de uma mulher lésbica, a voz de uma negra, a voz de alguém que veio da favela da Maré. Não é qualquer morte. Toda morte é uma tragédia, mas quando é uma morte política, é necessário ter uma resposta política, nas ruas. Precisamos fazer ecoar em todo canto a voz de Marielle e dos que ela representava”, exortou Patrícia.

Os manifestantes apontaram a relação entre o assassinato de Marielle e a atual conjuntura política, marcada pela intervenção federal no Rio de Janeiro, declarada por Michel Temer. “A execução de Marielle não pode ser separada do papel de protagonista na política que ela desempenhava e de seu papel destacado na oposição às transgressões da intervenção militar desde sua implementação, que nada mais do que é uma tentativa falida do Temer para aumentar sua popularidade às vésperas da corrida presidencial”, pontuou Bianca Borges, da União Nacional dos Estudantes (UNE). Neusa Santana Alves, do Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza (Sinteps), também expressou sua indignação: “É uma intervenção mentirosa, porque se fosse dar segurança para a população não teria acontecido o que aconteceu barbaramente. E agora você vê aí todas as desculpas que governo e ministros tentam dar, e a gente sabe que é um crime político, realmente para calar a população, porque a gente sabe a situação em que está o Rio de Janeiro”.

Crime político

Outros oradores questionaram o papel da universidade e dos poderes judiciário e legislativo diante de tantas transgressões dos direitos humanos. “Neste sistema saem pessoas daqui [da Faculdade de Direito] para implementar o aprisionamento de nossos jovens, pessoas que saem de universidades públicas que os pretos pagam para nos oprimir. Somos nós que pagamos a PM assassina e somos nós que estamos sendo assassinados, encarcerados. O movimento negro conseguiu eleger duas vereadoras pretas, no país inteiro. E uma foi assassinada! Vocês acham que isso normal? Que isso não é um crime político? Que isso não é um crime contra os pretos neste país?”, protestou Maria José Menezes, a Zézé, do Núcleo de Consciência Negra (NCN).

Alguns professores da FD que participaram do ato expressaram críticas similares. O professor Ari Solon, por exemplo, também questionou o papel da faculdade. “Aqui deveria ser o templo dos direitos humanos. Mas aqui não se ensinam direitos humanos, aqui se estudam normas, direito positivo. Quem estudava direitos humanos? Marielle. Fez uma tese de sociologia sobre direitos humanos. Quem pagou com sua vida pela militância pelos direitos humanos? Marielle. Aqui, na casa do saber jurídico, não se teorizam nem se praticam os direitos humanos. Aqui se poderia estudar o direito civil dos LGBTs, o direito de propriedade dos favelados. Mas não, só se estuda o direito da burguesia. Nós temos quer fazer uma revolução e essa revolução é o ideal de Marielle. É a luta pelos direitos humanos na teoria e na prática”, defendeu Solon.

Já o professor e juíz federal Marcus Orione descreveu os traços fortemente racistas do Estado brasileiro: “Fazendo levantamento de legislação nos últimos anos, como a legislação anti-terror, as decisões contrárias aos ‘rolêzinhos’, você vê a quantidade de ódio de classe que existe nessas decisões, nessas leis. E você percebe mais do que isso, olhando a Marielle agora. Você fazendo uma recuperação do direito desde 1888 para cá, você percebe que tudo o que foi feito aqui neste país é fruto de um racismo profundo e violento. E você não tem como dissociar o Estado deste racismo violento e institucionalizado, forjado em suas leis e decisões”.

Durante o ato, a necessidade de não se abandonar as mobilizações nas rua foi diversas vezes reiterada. “É de máxima importância que esse ato se dê, que a lembrança da execução de Marielle fique pública e passe a fazer parte da memória do povo brasileiro. É nossa responsabilidade política, de quem está aqui, convidar as pessoas que não vieram, convidar quem está mal informado, convidar quem não está entendendo a vir às ruas e fazer frente para resistir à implementação de uma ditadura que está sendo colocada de maneira cada vez mais escandalosa”, orientou JoãoChaves, presidente da Associação dos Docentes da Unesp e coordenador do Fórum das Seis.

Desmilitarização da Polícia Militar

Luiz Carlos Prates, o Mancha, membro da Secretaria Executiva Nacional da CSP- Conlutas, utilizou sua fala para anunciar um ato a ser realizado no dia 14/4, data que marcará um mês desde as mortes de Marielle e Anderson. “Nós temos que realizar atos e mais atos e não sair das ruas até ser apurado e aparecer o assassino de Marielle. Até destruir esta repressão que cai sobre nosso povo. Até a gente conseguir que haja uma desmilitarização da Polícia Militar. Estas bandeiras, democráticas, só vão ser levadas a cabo se a população, se os pretos, se a periferia levantarem e não sairem mais das ruas. Queremos desafiar todas as organizações democráticas e centrais do país para que, quando se completarem 30 dias do assassinato de Marielle, tomemos as ruas de todo o país em uma marcha gigantesca, que coloque o Temer na lona”, anunciou Mancha.

“Queríamos deixar o registro de que vir para cá tem um peso importante, porque a gente não podia só ficar fazendo declaração ou postagem no facebook, era preciso ir para a rua”, disseo professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp, ao encerrar o ato. “E a Adusp, junto com todas as entidades que organizaram este ato, quis deixar claro que vamos lutar, sim! Para que seja apurado e fique claro o papel do Estado na execução de Marielle no Rio de Janeiro. E portanto que nós, que estamos defendendo a universidade, a educação e os direitos dos trabalhadores, não iremos nos calar diante deste ataque brutal”. A proposta de voltar à rua no dia 14 de abril é fundamental para manter esta pressão, reforçou Ricupero. “Amanhã vai ser maior, vamos continuar na rua!”, concluiu, reiterando a palavra de ordem adotada pelo movimento social para cobrar a imediata apuração do crime.

O ato contou com o apoio do Andes-SN, Adunesp, Adunicamp, Sinteps, Sintusp, STU, DCE-USP, CA XI de Agosto, CEUPES, APG-USP, DCE-Unicamp, NCN, CSP-Conlutas, Luta Popular, Juntos!, RUA, Afronte, Sindicato dos Advogados, Sintrajud, Rede Emancipa, Anel, Quilombo Raça e Classe, Núcleo DDD- Direito, Discriminação e Diversidade, Quilombo Oxê, Movimento Mulheres em Luta, Sindicato dos Metroviários, MTST, UBES e Sindicato dos Artistas. O vereador Eduardo Suplicy (PT) e a pré-candidata à Presidência da República pelo PSTU, Vera Lúcia, também estiveram presentes.