Continua repercutindo intensamente no corpo docente da USP o edital publicado pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) na edição de 31/10 do Diário Oficial do Estado, abordado pelo Informativo Adusp em reportagem publicada no dia 5/11. Professores de diversas unidades fazem duríssimas críticas ao modelo adotado pela PRP.

Um desses críticos é o professor Horácio Gutierrez, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH): “O objetivo, diz o Edital, é ‘contribuir para o ensino’, além da ‘pesquisa de excelência’. Quais indicadores de ensino das Unidades serão levados em conta na distribuição dos cargos docentes? Não consta nenhum. Fica a impressão de puro produtivismo”, diz ele.

“Mas a universidade, e entendo que assim é e que assim deve ser, é bem mais do que apenas um centro de pesquisa, é um centro de docência, formador de profissionais em todas as áreas (graduação), de pesquisadores também em todas as áreas (pós-graduação), formador de cidadãos atentos aos problemas do país, e não apenas produtor de conhecimento novo materializado em papers de alto impacto”, prossegue.

“A docência deve ser valorizada, e levada em conta na hora de contratar professores”, defende o professor Gutierrez. “Igualmente deveriam ser valorizados nos editais de contratação de professores (como o são, na progressão docente) a gestão universitária, a extensão e a orientação, porque são atividades que os professores deverão desempenhar nas universidades públicas e que permitem o desenvolvimento tanto da docência como da pesquisa, mas nenhuma delas, em minha percepção, deve estar hierarquicamente subordinada à pesquisa. O Edital da Pró-Reitoria de Pesquisa, entendo, é uma aberração”.

A professora Elizabete Franco Cruz, do curso de Obstetrícia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, considera igualmente, em artigo sobre o edital disponível aqui, que a pesquisa é beneficiada em detrimento da docência: “Vincular claros docentes como prêmios de projetos de pesquisa no valor de R$ 2 milhões é uma afronta ao trabalho na docência, especialmente aquele realizado na graduação. Em muitas unidades faltam docentes, o que significa um acúmulo para os professores(as) que ficam sobrecarregados(as) com atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão. Ao invés de  procurar resolver este problema, a universidade considera adequado premiar quem consegue verba!”

No texto, Elizabete chama atenção ainda para outros aspectos condenáveis do edital, a exemplo da “coisificação” dos docentes: “A universidade, ao engendrar esta propositura, adere a uma narrativa que produz o docente desejável: aquele que pesquisa e tem dinheiro. E o docente prêmio-coisa, e ainda o docente que realiza funções menos nobres (como dar aulas e fazer pesquisas que não tem R$ 2 milhões)”.