A professora Elizabete Franco Cruz, do curso de Obstetrícia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP), critica no artigo a seguir o “Edital de seleção de propostas para distribuição de cargos docentes-2019”, divulgado em 31/10 pela Pró-Reitoria de Pesquisa

Fiquei perplexa quando li a chamada para este edital. Vincular claros docentes como prêmios de projetos de pesquisa no valor de R$ 2 milhões é uma afronta  ao trabalho na docência, especialmente aquele realizado na graduação.

Em muitas unidades faltam docentes, o que significa um acúmulo para os professores(as) que ficam sobrecarregados(as) com atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão. Ao invés de  procurar resolver este problema, a universidade considera adequado premiar quem consegue verba!

Além disto, quais áreas de estudo têm projetos de R$ 2 milhões? Ciências Humanas e Sociais raramente terão projetos com este montante de recursos. Neste sentido, o edital que prevê reposição de claros privilegia pesquisa em detrimento da graduação (mesmo dizendo que o professor exercerá todas as funções) e privilegia áreas de conhecimento que são consideradas “duras” .

Outra dimensão que me indigna é que o prêmio para quem tem R$ 2 milhões é um claro! O claro será ocupado por docentes! Uma pessoa-docente é o prêmio para quem tem R$ 2 milhões! Além do mais, o que está sendo considerado é o volume de recursos e não a qualidade da pesquisa, nem sua relevância social!  

A universidade, ao engendrar esta propositura, adere a uma narrativa que produz o docente desejável: aquele que pesquisa e tem dinheiro. E o docente prêmio-coisa, e ainda o docente que realiza funções menos nobres (como dar aulas e fazer pesquisas que não tem R$ 2 milhões).

Sei que somos “mão de obra”, num sistema capitalista, mas premiar quem tem dinheiro com docentes me remete à coisificação de uma carreira que está ligada à dimensão da educação e da produção de conhecimento. Já pensaram a relação de trabalho dos contratados com os premiados? “Você é o prêmio que ganhei por ter R$ 2 milhões na minha pesquisa”.

A USP vai se privatizando aos poucos e ao se dobrar, sem pudor ou preservação, nas boas vindas ao capital, fratura o estofo da qualidade que tem no ensino e produção de conhecimento. Recursos são importantes, mas quando a busca por recursos começa a coisificar docentes isto é um sintoma de que a Universidade começa a não se importar com aquilo que é fundamental como o ensino, pesquisa, extensão e gestão.

A universidade é ainda um espaço importante de formação de pessoas e docentes tem esta função e deveriam ser contratados para atender às necessidades das unidades, dos cursos de graduação e pós graduação (que já tem a pesquisa como uma de suas funções). Este edital deveria ser revogado ou, ao menos, nunca mais publicado.

O absurdo sentou na cadeira do cotidiano. Se muitos não perceberam, ou silenciaram diante da sua presença, o que nos resta é solicitar que faça a gentileza de se retirar.