Como revelado pelo Informativo Adusp 445, o corpo docente da USP perdeu 354 professores entre setembro de 2014 e fevereiro de 2018. Fruto da política reitoral de congelamento de contratações, o problema é ainda pior quando se considera o quadro de professores efetivos: há atualmente um déficit de pelo menos 499 docentes, se considerarmos como patamar o contingente de 2014.

Este cenário dramático é agravado pela política de reposição dos professores efetivos aposentados por docentes temporários, com contratos precarizados de prazo determinado e baixíssimos salários. Entre 2015 e 2018, por exemplo, a USP contratou apenas 128 professores efetivos, contra mais de 200 professores temporários. O resultado é a precarização e sobrecarga no trabalho do conjunto do corpo docente.

Nas diferentes unidades, repetem-se os mesmos problemas: extinção de disciplinas, superlo­ta­ção de salas, sobrecarga de traba­lho, prejuízo à pesquisa e à exten­são. “Só em 2018 eu já recusei cinco alunos que queriam fazer Iniciação Científica ou Traba­lho de Conclusão. A gente tem que dizer ‘não’ aos alunos porque já estamos com o número máximo. Acaba atendendo o máximo que pode e observa a falta de orientadores para esses alunos”, relata ao Informativo Adusp o professor Antonio Carlos Brolezzi, do Instituto de Matemática e Estatística (IME). Ao assumir aulas de Cálculo no curso de Farmácia (FCF), pela impossibilidade de dividir a turma com outro colega Brolezzi teve de lecionar para 95 alunos.

O excesso de alunos por docente ocorre em todas as unidades. “Se eu vou para campo de estágio com três grupos, tenho que repetir esta aula três vezes e os alunos acabam indo menos ao campo. Ou seja: as idas dos alunos diminuíram, a dos docentes aumentou. Este impacto a gente sente na formação”, explica a professora Aurea Minagawa Toriyama, da Escola de Enfermagem (EE), à nossa reportagem. “Teve disciplina que parou de ir a campo, reduziu tanto o número de professores que a aula ficou só na teoria. Para Enfermagem, isto é muito grave, precisa ir a campo”.

Casos similares multiplicam-se, com graves consequências para a qualidade do ensino e a saúde psíquica e física dos docentes, como o Informativo Adusp constatou em alguns dos departamentos mais afetados pelo déficit. A seguir os depoimentos de vários docentes efetivos.

Daniel Garcia
Ana Maria Mancuso (FSP)

NUTRIÇÃO: “Eu estava com oito disciplinas diferentes para ministrar. E não sou especialista em todas as oito”

Professora Ana Maria Cervato Mancuso, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública (FSP): “Nós perdemos profissionais extremamente qualificados. Professores com trajetórias profissionais importantíssimas, que contribuíam muito com a qualidade do ensino, principalmente por conhecerem bem as necessidades do alunado. Sentimos muito essa perda de qualidade”.

“Veja minha situação: passei por um período em que estava com oito disciplinas diferentes para ministrar. E eu não sou especialista em todas as oito disciplinas. Apesar de estarem todas relacionadas à nutrição, são muito distintas. Para poder me apropriar dos temas, tive que me reunir com colegas, estudar o processo de ensino, utilizando metodologias ativas. Então a gente precisou se deslocar das publicações, da produção, da orien­ta­ção, para atender à situação emergencial nas salas de aulas”.

“Aquilo que se constrói com um docente temporário dura até dois anos e, muitas vezes, quando ele começa a entender o processo do curso todo, ele já está saindo. Os professores que têm vindo são muito bons, criam vínculos intensos com os alunos porque também são jovens pesquisadores, com muita vontade de colaborar com o ensino. Mas muitas vezes estão deslocados de um projeto institucional da própria universidade. Isto não garante a qualidade da formação de um estudante crítico, com visão generalista do processo, do cuidado. A gente perdeu muito”.

“E do tripé universitário, a extensão é a primeira que fica de lado. Então, se está afetando a pesquisa agora, significa que a extensão já foi deixada de lado. Nós temos projetos de extensão maravilhosos que nossos estudantes estão desenvolvendo, mas que não conseguem ter parceria com os docentes. Por exemplo os projetos interunidades, como o Jornada Universitária, o Bandeira Científica, desenvolvidos há mais de dez anos, mas que têm muita dificuldade de contar com um docente apoiando porque para o docente é mais uma atribuição”.

Daniel Garcia
Tatiana Gomes Rotondaro (FEA)

ECONOMIA: “Não sobra tempo, é surreal. A forma como estamos tendo que trabalhar, principalmente pela escassez de professor, é uma coisa quase desumana”

Professora Tatiana Gomes Rotondaro, do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA): “Com a falta de professores, ficou prejudicado o oferecimento de disciplinas eletivas da área de Humanas, e sobretudo as da área de Sociologia. Sociologia Econômica I e II foram canceladas. E a gente não tem perspectiva de oferecer estes cursos em um horizonte próximo. Hoje eu sou a única professora efetiva da área de Sociologia, e a gente tem a disciplina Introdução à Sociologia como obrigatória. Sozinha, eu não conseguiria cobrir toda a grade. A solução que o departamento pensava em encaminhar era juntar as turmas, sendo que estou falando de turmas de mais de 120 alunos. O que aconteceu foi que o professor Iram Jacome, que se aposentou no fim do ano passado, se prontificou a ficar como professor sênior mais um pouco e se comprometeu a dar uma disciplina. Por conta disso ainda não foi preciso juntar as turmas”.

“Existe uma questão na FEA para os professores que não são da área de Economia, porque a gente dá aula em outros programas da pós-graduação. E o departamento não conta nossa carga nos outros programas. Então a gente assume a carga inteira da graduação e ainda tem a pós, para quem quiser. Mas sem a pós a gente não consegue desenvolver nossa carreira e fazer pesquisa. Os professores das Humanas já tinham esta carga extra antes da crise, agora a situação fica mais grave”.

“Neste semestre teve um mês de aula e já estou em um nível de sobrecarga, porque eu dou aula três vezes por semana, tenho dois grupos de estudos nos outros dois dias e ainda estou envolvida em mais duas pesquisas. Não sobra tempo, é surreal. Todo este trabalho nunca é suficiente, porque afinal das contas somos avaliados pela universidade sobretudo pelos artigos que são publicados. Não é nem que não há produção de publicações, mas ela tem um ritmo próprio que acontece dentro dessa dinâmica extremamente sufocada. E quando a universidade nos avalia, ela não olha muito para isso”.

“É uma sobrecarga e uma angústia que a gente tem que carregar como se fossem absolutamen­te normais. Evidentemente que há uma lógica em articular ensino, pesquisa e extensão, não estou negando isto. Mas a forma como estamos tendo que trabalhar, principalmente pela escassez de professor, é uma coisa quase desumana. Os colegas estão ficando doentes. Eu respiro fundo e penso que tenho que cuidar da minha saúde, porque não quero chegar a uma situação de doença”.

Daniel Garcia
Antonio Carlos Brolezzi (IME)

MATEMÁTICA: “As aposentadorias sem reposição vão estrangulando algumas áreas de pesquisa, nas quais estes professores eram ícones”

Professor Antonio Carlos Brolezzi, do Departamento de Matemática do Instituto de Matemática e Estatística (IME): “A diminuição de professores acarretou o aumento de alunos por sala de aula, pela dificuldade de dividir as turmas. Por exemplo, quando eu dei aula de Cálculo para o curso de Farmácia [da FCF], eles solicitaram dois professores, mas o chefe de departamento teve que negar por não termos professores suficientes. Então eu dei aula para 95 alunos na sala. Dar aula de Cálculo para 95 alunos é uma situação muito problemática porque, apesar de a gente ter um monitor, isso não é o suficiente para ter uma boa dinâmica de sala de aula, responder às dúvidas, dar explicações, fazer um acompanhamento mais próximo do aluno”.

“O IME, em particular, atende muitas unidades da USP, então a falta de professores acarreta um prejuízo enorme em toda a universidade. Porque a matemática hoje em dia está sendo muito mais valorizada em outros cursos do que era há um tempo atrás, você tem aula de matemática, estatística e computação em quase todos os cursos”.

“A gente acaba tendo que atender um número maior de alunos na pesquisa. Eu, por exemplo, tenho dez alunos de mestrado. Apesar de ser uma opção, a gente sente a necessidade de orientar alunos. Só em 2018 eu já recusei cinco alunos que queriam fazer Iniciação Científica ou Trabalho de Conclusão. A gente tem que dizer ‘não’ aos alunos porque já estamos com o número máximo. A orientação do professor da USP não é só de pós-graduação: precisa orientar Iniciação Científica, Trabalhos de Conclusão. Então está afetando muita gente, repercute nos alunos da pós e da graduação”.

“No IME é flagrante: as aposentadorias sem reposição vão estrangulando algumas áreas de pesquisa. Áreas nas quais estes professores eram ícones e acabam não deixando trabalho a ser continuado pelo fato de que simplesmente não há contratação”. Ele dá como exemplo o pequeno grupo dedicado à pesquisa em ensino, no qual houve muitas aposentadorias nos últimos anos e não houve reposição. “Então, os professores desta área que ficaram acabam se sobrecarregando para desenvolver seus projetos de pesquisa, orientações e publicações”.

Daniel Garcia
Aurea Tamami Minagawa (EE)

ENFERMAGEM: “Teve disciplina que parou de ir a campo, reduziu tanto o número de professores que a aula ficou só na teoria. Isto é muito grave, precisa ir a campo”

Professora Aurea Tamami Minagawa Toriyama, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem (EE): “Sempre fomos para o campo de prática: hospital, unidade básica de saúde, creche. Este campo prático sempre teve supervisão docente. Conforme foi diminuindo o número de docentes, diminuímos também as idas a campo dos estudan­tes. Nós docentes estamos indo até mais. Por exemplo: em uma turma de 80 alunos ao ano, a gente dividia um número ‘x’ de estudantes por profes­sor. Este número está aumentando. Se eu vou para campo de estágio com três grupos, tenho que repetir esta aula três vezes e os alunos acabam indo menos ao campo. Ou seja: as idas dos alunos diminuíram, a dos docentes aumentou. Este impacto a gente sente na formação. Teve disciplina que parou de ir a campo, reduziu tanto o número de professores que a aula ficou só na teoria. Para Enferma­gem isto é muito grave, precisa ir a campo”.

“Eu sou da área de Saúde da Criança, no meu departamento esta área é a que está melhor, é a que não perdeu docente. As áreas de Saúde Mental, Psiquiátrica e de Saúde da Mulher foram as que perderam mais docentes. A Saúde da Mulher, especialmente, é a que tem que se recuperar mais, é a que tem menos docentes”.

“Outra coisa que a redução de docentes causou foi aumentar nossa carga nas representações em comissões. Eu sou da Coordenação de Curso, do Bacharelado, e as mesmas docentes que são desta comissão estão na Comissão de Graduação. Além de aumentar a carga horária, ficamos sem pessoas para trocar ideias, são sempre as mesmas pessoas nos vários colegiados. A gente precisa representar o departamento em todas as comissões”.

A professora Ana Luisa Aranha e Silva, da área de Saúde Mental do Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Psiquiátrica, completa o quadro: “A situação é muito difícil, na nossa área chegamos a ter oito docentes, até o ano passado eram seis efetivos. E agora são só dois, sendo que eu estou de licença médica e outra professora está preparando para se aposentar”.

“Eu particularmente faço a coordenação de uma residência multiprofissional, em que a professora se aposentou no ano passado e eu assumi a coordenação.  Em função da perda de docentes, já não oferecemos mais para 2018 e 2019 a possibilidade do programa existir, de residência multiprofissional em Saúde Mental, que é um curso de pós-graduação latu senso. Isto já foi interrompido e suspenso”.

Daniel Garcia
Elisabete Franco Cruz (EACH)

OBSTETRÍCIA: “Unidades já prejudicadas, como a EACH, começam a ter profes­sores temporá­rios que são apenas graduados e você ainda quer excelência na universidade?”

Professora Elizabete Cruz, do curso de Obstetrícia da EACH: “O que acontece é que no nosso caso nós nunca tivemos o quadro ideal. É importante fazer uma leitura, em relação à EACH como um todo, que leve em conta a questão da expansão. Porque a universidade se expandiu, mas nunca completou o quadro total de docentes”.

“No caso do curso de Obstetrícia temos algumas especificidades. É uma profissão que foi retomada, no momento é o único curso que temos no Brasil. Então temos um cenário muito específico, por exemplo temos estágios em salas de parto em que temos que ter professor e um número pequeno de alunos. Mas o ponto é: a Reitoria nunca nos mandou o número de professores efetivos necessário para completar o quadro de docentes do nosso curso. E também temos alguns técnicos que colaboram com os estágios, mas, com esse cenário desde o PIDV, está fechada a contratação de técnicos”.

“Veja: a Reitoria abriu a possibilidade de realização de concursos para graduados. Acho isso muito complicado para a carreira docente. Diante desta dificuldade, um graduado vai trabalhar 12 horas semanais para ganhar 800 reais. É um ponto fundamental: as unidades que já estão prejudicadas, como a EACH, começam a ter profes­sores temporá­rios que são apenas graduados e você ainda quer ter excelência na universidade? A pergunta que fica para a gestão da universidade é: que excelência é esta que estão desenhando? Adotam medidas no Co que restringem a contratação e criam este cenário de uma universidade ter vários professores tempo­rários. Estão trabalhando pela precarização, não pela excelência”.

Informativo nº 446